“Quero partilhar com o mundo a força das mulheres iranianas”

Marinka Masséus, autora do projecto fotográfico “My Stealthy Freedom”, pretende enaltecer a coragem das mulheres iranianas que são forçadas a esconder-se por detrás de um hijab

Fotogaleria

A fotógrafa holandesa Marinka Masséus desenvolveu o projecto "My Stealthy Freedom" em Teerão, no Irão, onde conheceu mulheres revoltadas com as regras que lhes são impostas e que condicionam a sua liberdade individual. A série de fotografias, cujo corpo de trabalho pode ser visto aqui, é uma homenagem à força e coragem que elas dedicam ao desafio das leis do regime.

Porque te interessaste pela realidade destas mulheres? O que te liga a este tema?

O tema dos direitos das mulheres sempre me interessou. Mesmo quando era criança, nos anos 70 e 80, as diferenças de género já me deixavam perplexa. Via mulheres a serem tratadas como seres inferiores e não conseguia entender porquê. Fui sensível a essa injustiça desde muito nova. Sejamos claros, a misoginia toca todas as culturas de todas as eras. Na Bíblia, Eva é responsável por espalhar o mal no mundo; na mitologia grega, Zeus pune a humanidade criando Pandora, a primeira mulher que, novamente, lança o mal sobre o mundo. Na Filosofia, a misoginia é generalizada, com Aristóteles e Sócrates na dianteira e Jean-Jacques Rousseau, Darwin, Schopenhauer e Nietzsche no seguimento. O condicionamento está tão impregnado [nas nossas mentes] que, tanto para homens como para mulheres, é impossível aferir a sua extensão e impacto. É, na verdade, mais difícil reconhecermos a desigualdade de género dentro da nossa própria cultura, uma vez que temos em nós o condicionamento dessa cultura, mas ela existe e está sempre presente. Seja em forma de desigualdades salariais, violência doméstica, cultura da violação, homicídios de honra, mutilação genital ou restrição da liberdade, há ainda muito trabalho por fazer, em toda a parte do mundo. Tendo tido sempre um sentimento forte no que concerne este tema, tornou-se inevitável que esse ganhasse voz através do meu trabalho fotográfico.

Além disso, o Irão sempre me interessou e, quanto mais lia, mais me sentia ligada a esse país, à sua vasta cultura, à sua história turbulenta e, tantas vezes, dolorosa. Mas sobretudo, sempre senti uma ligação com as corajosas mulheres iranianas. As obrigações que lhes são impostas, como a utilização do hijab, contrastam com a sua natureza forte e desafiante. Era a força delas que queria partilhar com o mundo. Além disso, queria abalar a imagem estereotipada dos iranianos no Ocidente e criar uma série fotográfica que construa uma ponte que seja capaz de relacionar os dois mundos, para que possamos reconhecer-nos mutuamente por aquilo que somos.

Referes, na descrição do teu projecto, que as pequenas vitórias destas mulheres são um claro sinal de mudança...

Uma das mulheres que conheci em Teerão apontava sempre para todas as cores que víamos nas ruas, os hijabs coloridos e as roupas modernas. Ela dizia continuamente “Vês? Cores! Há cinco anos atrás era tudo preto e castanho, como o governo ditava. Vê como é agora! Isto é esperança!” Para nós, isto pode parecer algo pequeno, mas não é. É um claro sinal que está a ser enviado ao regime. Mais: é um sinal que está a ser enviado entre cidadãos, entre mulheres. Todos os trajes coloridos, cada lenço ligeiramente descido com cabelo a descoberto é uma mensagem que diz que não estão sozinhas, que odeiam a obrigação e que não se submeterão, que resistirão. Todas as pessoas com quem conversei nas ruas têm um ódio de vingança ao regime. Apercebi-me, enquanto lá estive, que existe um impasse entre as forças do regime e as forças mais democráticas. Como se ambos dissessem “se puxares com muita força, eu não resistirei”. Creio que o regime teme a onda libertária que vai tomando cada um dos cidadãos iranianos. O governo conseguiu reprimir duramente o Movimento Verde, em 2009, mas ele mantém-se vivo, como foi bem visível durante as recentes eleições. Muitos usaram as cores verde e roxo. Depois da reeleição de Hassan Rohani [o sétimo presidente do Irão], enviaram-me muitos vídeos de jovens a dançar nas ruas, homens e mulheres juntos. O regime não quebrou nessa altura. Ninguém sabe ao certo o que irá decorrer desta tensão entre o regime conservador e esta onda democrática. Há muitas forças a puxar os iranianos em todas as direcções: o "líder supremo" dos conservadores, o Ayatollah Ali Khamenei e o seu concelho dos guardiães, os iranianos propriamente, Trump, o ISIS, a Arábia Saudita, Israel, etc. Muitos iranianos dizem que o regime tem interesse apenas em manter o poder. Todas as medidas de repressão existem apenas para servir esse propósito. Que estratégia irão adoptar para consegui-lo? Irão, lentamente, ceder ou aplicar mais medidas repressivas? Os iranianos são, neste momento, especialistas em manter vidas secretas e, dentro de portas, as suas vidas são semelhantes às nossas.

Porque decidiste retratar estas mulheres desta forma?

O simbolismo é bastante literal, neste caso. As mulheres atiram os seus hijabs coloridos ao ar e, inevitavelmente, o mesmo cai sobre elas novamente. Atirá-lo é um acto de rebeldia que quis captar. Inicialmente queria que o hijab flutuasse sobre as suas cabeças, como uma força opressiva. Enquanto fotografava, a ideia desenvolveu-se e as imagens acabaram por fundir mulheres e hijabs – sendo que as mulheres ficaram literalmente tapadas, como que emprisionadas, pelo lenço.

Ser oriunda de um país que é tão demarcadamente livre teve influência na escolha deste tema? Influenciou o modo como fotografaste?

Embora nunca consigamos compreender completamente como se forma a cultura de um lugar, a influência da mesma sobre o indivíduo é natural, subtil e implícita, motivo por que acredito ter sido influenciada pela minha origem. Foi apenas depois de regressar do Irão que me apercebi da tremenda pressão que as restrições com base no género exerceram sobre mim. Não me tinha apercebido que as regras restritivas do regime me tinham afectado tanto. Enquanto lá estive, senti sobretudo a enorme bondade das pessoas e a facilidade com que me aceitaram. Quando pisei o solo de Schiphol e, mais tarde, de Amsterdão, dei por mim a saltar e a dançar, a rodopiar, adorando a liberdade com que podia fazê-lo, sem me preocupar com o tamanho da minha blusa, com o meu cabelo, com o meu corpo, com os guardas que poderiam estar a observar-me no encalço de alguma violação de código. Em Schiphol, enquanto dançava e rodopiava e batia palmas e cantarolava, tive uma enorme vontade de beijar o solo. Embora tenha adorado o tempo que passei no Irão, senti-me imensamente livre e feliz quando regressei à Holanda. Senti o alívio de uma pressão constante. Podia mover-me livremente, de novo. Podia exprimir-me. Não me preocupar se os contornos do meu corpo estão visíveis, não me preocupar se tinha finalmente ultrapassado os limites.

Ser. Livre. Novamente.

Pela primeira vez na minha vida, compreendi o que é a liberdade e provei também uma pequena parte dos efeitos sufocantes da repressão, da ameaça constante que paira mesmo quando nada está a acontecer. Está presente. Sempre. E é sufocante, opressiva e corrói lentamente a tua alma. Eu sou, de facto, o produto da liberdade que me permitem ter.