Um grande coleccionador que acabou decapitado

Charles I: King and Collector é a exposição que promete reunir na Royal Academy de Londres boa parte da grande colecção de pintura e escultura de Carlos I, que foi vendida há quase 400 anos. A partir de Janeiro.

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Retrato de Carlos I pintado por Antoon van Dyck (1635-36) que deveria servir de modelo a um busto do monarca da autoria de Bernini. Faz hoje parte das colecções reais britânicas Royal Collection Trust

Os jornais ingleses estão a classificá-la como “sonho impossível” de tão improvável que é ver reunida boa parte da colecção de Carlos I de Inglaterra, o rei que quis voltar as costas ao Parlamento britânico e que acabou decapitado depois de ter sido julgado por traição, em Janeiro de 1649.

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Os jornais ingleses estão a classificá-la como “sonho impossível” de tão improvável que é ver reunida boa parte da colecção de Carlos I de Inglaterra, o rei que quis voltar as costas ao Parlamento britânico e que acabou decapitado depois de ter sido julgado por traição, em Janeiro de 1649.

A exposição que vai levar de volta ao Reino Unido, ainda que temporariamente, obras que o monarca começou a comprar, e até mesmo a encomendar, depois de visitar a corte espanhola em 1623 — Filipe IV de Espanha era um grande mecenas e a sua ligação a Diego Velázquez é a maior prova do seu interesse pela pintura, que tratava também como um instrumento de poder - não deve apenas a singularidade ao seu valor simbólico. É que este acervo, defendem os historiadores, está mesmo entre os melhores e as pinturas que o compunham estão hoje espalhadas por algumas das maiores colecções públicas e privadas do mundo. Muitas destas pinturas, que em Janeiro 2018 se reencontram graças à colaboração da Royal Academy of Arts com o Royal Collection Trust, regressam “a casa” pela primeira vez em quase 400 anos.

Indiscutivelmente o maior coleccionador entre os monarcas britânicos, segundo Christopher Le Brun, presidente da Royal Academy, instituição que com esta exposição lança o programa com que festeja o seu  250.º aniversário, Carlos I (1600-1649) não se limitou a fazer encomendas a alguns dos mais importantes artistas do seu tempo, como o pintor flamengo Antoon van Dyck, fez por comprar obras dos mestres incontestados da pintura antiga.

Em Espanha, por exemplo, comprou pinturas de Ticiano e Correggio, entre muitos outros, chegando a posar para Velázquez. Ticiano e Correggio voltaram a estar na lista de aquisições quando, em 1627 e 1628, resolveu adquirir a colecção do duque de Mântua, que incluía trabalhos de Rafael, Caravaggio ou Mantegna. Seguir-se-iam auto-retratos de Albrecht Dürer e Rembrandt, obras de Bernini, Pieter Bruegel, o Velho, Leonardo da Vinci, Hans Holbein, Tintoretto ou Veronose.

Quando foi executado em praça pública, depois de um julgamento organizado pela Câmara dos Comuns em que desfilaram pelo menos 30 testemunhas de acusação ter dado como provado que sempre pusera os seus interesses à frente dos de Inglaterra, a sua colecção teria, segundo o diário britânico The Guardian, 1500 pinturas e 500 esculturas.

Foi este acervo que, depois da guerra civil (1642-1649) em que o monarca se viu envolvido — a sua relação com o Parlamento inglês degradara-se há muito, já que Carlos I se portava como um rei absoluto, interferindo nos assuntos da Igreja e procurando minorar o poder das duas câmaras parlamentares, fazendo aprovar impostos à revelia, por exemplo — que foi vendido pelos vencedores, liderados pelo político inglês Oliver Cromwell, a quem se deve a abolição temporária da monarquia, que só seria restaurada com Carlos II, em 1660. 

Chegado ao poder, Carlos II procurou reunir a colecção do seu pai, mas muitas obras estavam já fora do seu alcance, integrando, por exemplo, as colecções reais francesa e espanhola. É por isso que alguns dos empréstimos mais significativos da exposição da Royal Academy de 2018 são dos museus do Louvre (um retrato de Carlos I feito por Van Dyck e dois Ticianos, entre eles Ceia em Emaús) e do Prado (cinco obras, incluindo outro retrato do monarca feito por Van Dyck). É também de Antoon van Dyck o retrato equestre que está entre as obras que a National Gallery de Londres vai transferir temporariamente para as salas da Royal Academy. A maior fatia dos empréstimos, 90 obras, parte, como seria natural, da colecção real britânica. 

Praticamente ao mesmo tempo, as colecções reais vão inaugurar uma exposição dedicada a Carlos II, com 220 pinturas, esculturas, pratas e tapeçarias (Galeria da Rainha, Buckingham Palace, 8 de Dezembro de 2017 a 13 de Maio de 2018)

Charles I: King and Collector estará na Royal Academy, em Londres, de 25 de Janeiro a 15 de Abril.