Michelangelo Pistoletto: o artista que não quer ser clássico

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Nuno Ferreira Santos

Michelangelo Pistoletto (n. Itália, 1933) é sobretudo conhecido por ser um dos elementos mais notáveis do grupo italiano de artistas que o crítico e curador Germando Celant baptizou de arte povera no ano de 1967. Pistoletto já tinha estado em Portugal em 2012, por ocasião da Guimarães Capital da Cultura. Voltou agora para mostrar como se pode partir do nada para gerar o novo, tal como nas suas famosas pinturas de espelhos em que o espelho, não sendo nenhuma imagem, contém em si mesmo a possibilidade de todas as imagens.  

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Michelangelo Pistoletto (n. Itália, 1933) é sobretudo conhecido por ser um dos elementos mais notáveis do grupo italiano de artistas que o crítico e curador Germando Celant baptizou de arte povera no ano de 1967. Pistoletto já tinha estado em Portugal em 2012, por ocasião da Guimarães Capital da Cultura. Voltou agora para mostrar como se pode partir do nada para gerar o novo, tal como nas suas famosas pinturas de espelhos em que o espelho, não sendo nenhuma imagem, contém em si mesmo a possibilidade de todas as imagens.  

Pode dizer-se que se tratou de um movimento artístico bastante radical do qual fizeram parte, para além de Pistoletto, artistas como Alberto Burri, Jannis Kounelis, Gilberto Zorio, Mario Merz, Piero Manzoni, entre outros. O que uniu estes artistas foi uma reacção contra a pintura modernista abstracta que dominava a arte europeia desde pelo menos os anos 1950, mas também uma forte reacção ao minimalismo norte-americano, à pop-arte e à arte conceptual. Para este grupo de artistas importava resgatar a arte das lógicas dominantes do mundo da arte, da sua economia impedindo a sua transformação em objecto de consumo. Para isso recorreram a materiais comuns e artisticamente desqualificados como terra, pedras, roupa, papel, cordas, entre muitas outras coisas.

Esta preferência por uma arte de aspecto artesanal, não feita em série, foi sobretudo importante como combate, como explica Pistotello, ao glamour da pop-arte e às suas lógicas de multiplicação e de comunicação. Para isso não só tentaram restabelecer uma ligação com a história da arte, nomeadamente com a história da pintura figurativa italiana, mas recorreram à performance e à instalação como formas de tornar instáveis os protocolos artísticos.

Se num primeiro momento a coesão deste grupo deu origem a exposições e ao desenvolvimento de práticas artísticas muito uniformes, posteriormente cada um dos artistas desenvolveu um corpo de trabalho muito próprio e, embora não rompendo a sua filiação à arte povera, desenvolveram formas pessoas e singulares de abordar a arte e a sua relação com o mundo.

O trabalho de Pistoletto ainda que inteiramente alinhado com os seus pares italianos desde logo mostrou indícios de diferença e descontinuidade: o uso que fez de materiais como a fotografia e o espelho, produtos técnicos e industriais estranhos à linguagem dos materiais pobres e rudes da arte povera, afastaram-no grupo artístico a que nos habituamos a associá-lo. Esta proximidade e, simultaneamente, o seu afastamento fazem deste artista um caso especial: por um lado pertence a um dos últimos movimentos artísticos europeus, por outro lado foi capaz de desenvolver uma obra singular - não ficando refém desse momento da história da arte, nem tão pouco do estatuto de clássico e de histórico que já nos habituamos a associar-lhe.