Fillon: "Ninguém me pode impedir de ser candidato"

Perante as manobras no partido para o afastar, Fillon resiste e diz que se mantém na corrida. Comício juntou dezenas de milhares de apoiantes do candidato em Paris.

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Apoiantes de François Fillon durante o comício em Paris EPA/ETIENNE LAURENT

O cerco a François Fillon parece ser cada vez mais apertado. Mas o candidato da direita às eleições presidenciais francesas quis garantir directamente aos seus apoiantes que pretende resistir àquilo que diz serem ataques politicamente motivados.

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O cerco a François Fillon parece ser cada vez mais apertado. Mas o candidato da direita às eleições presidenciais francesas quis garantir directamente aos seus apoiantes que pretende resistir àquilo que diz serem ataques politicamente motivados.

No comício marcado para a célebre praça do Trocadéro, no centro de Paris, Fillon juntou alguns milhares dos seus mais férreos apoiantes – que suportaram a chuva para ouvirem o candidato, depois de uma semana para esquecer. Num discurso de cerca de 45 minutos, o ex-primeiro-ministro deixou recados aos seus concorrentes directos e também aos seus adversários internos, que, de forma pouco escondida, têm intensificado as movimentações para acelerarem a saída de cena de Fillon.

Ao contrário do que fez durante os discursos nos dias anteriores, Fillon não foi taxativo quanto à continuidade da sua campanha. Horas mais tarde, numa entrevista ao canal France 2, Fillon fez um balanço do comício que diz ter mostrado que o seu projecto "continua a ser apoiado por uma maioria dos eleitores do centro e da direita". E deixou uma certeza: "Ninguém me pode impedir de ser candidato."

No comício, os sinais que enviou aos seus eleitores indicaram uma postura de resistência e desafio. “Quero dirigir-me aos responsáveis políticos da direita e do centro: o meu exame de consciência já está feito. E, acreditem em mim, não desejo a ninguém que o faça nestas circunstâncias”, disse Fillon, numa clara referência à sucessão de abandonos que a sua campanha sofreu nos últimos dias. E deixou no ar uma pergunta cuja resposta deverá definir também o seu futuro: “Irão vocês deixar que as paixões do momento se sobreponham às necessidades nacionais?”

Quando subiu ao palanque onde discursou, Fillon provavelmente já tinha conhecimento da “iniciativa” anunciada pelo dirigente de Os Republicanos, Christian Estrosi, muito próximo do ex-Presidente Nicolas Sarkozy, que será apresentada à liderança do partido para uma saída “respeitosa” do candidato. “Recuso-me a conduzir os nossos militantes rumo ao suicídio colectivo”, afirmou Estrosi.

Nos bastidores, dois dos principais rivais de Fillon nas primárias da direita, Sarkozy e Alain Juppé, tiveram uma reunião no sábado para discutir a candidatura do partido, revelou uma fonte anónima à Reuters. Um dos cenários alternativos que mais tem tido ressonância na imprensa francesa é o avanço de Juppé. As sondagens apontam para uma vitória do autarca de Bordéus nas presidenciais, enquanto Fillon terá muitas dificuldades para alcançar sequer a segunda volta.

Pedido de desculpas

A campanha de Fillon sofreu uma reviravolta após as revelações de que o candidato contratou a mulher para assistente parlamentar, cargo que exerceu vários anos sem, aparentemente, ter feito qualquer trabalho concreto. Penélope Fillon fez uma rara aparição pública ao lado do marido durante o comício, no mesmo dia em que foi publicada uma entrevista sua em que nega as acusações.

Voltando a referir-se ao caso no qual está prestes a ser constituído arguido como um conjunto de “acusações fabricadas”, Fillon admitiu, no entanto, ter cometido dois erros. “Cometi o primeiro erro ao pedir à minha esposa que trabalhasse para mim, não o deveria ter feito”, afirmou. “Cometi um segundo erro, pela forma como vos falei. Quando se é profundamente honesto, quando se pauta a vida pelo interesse geral, é difícil enfrentar uma campanha destas”, acrescentou.

O comício convocado para a praça do Trocadéro tinha o objectivo declarado de medir o apoio popular que ainda tem. O candidato não deixou de se referir à “deserção sem vergonha nem orgulho de alguns”, sempre sublinhando a legitimidade que a sua vitória nas eleições primárias do partido Os Republicanos confere à sua campanha.

Antes de Fillon subir ao palanque montado com a Torre Eiffel sob pano de fundo, um dos membros da sua campanha saudou a presença de “200 mil apoiantes” – embora, a generalidade dos jornalistas apontasse para um número consideravelmente inferior, não mais de 50 mil pessoas.

A comissão executiva do partido reúne esta segunda-feira, ao final da tarde, para “avaliar a situação da campanha” – mas será difícil que qualquer decisão seja tomada sem a luz-verde do candidato.