Acidente fatal com Tesla não foi culpa do piloto automático, dizem autoridades

Investigação nos EUA concluiu que o sistema não tinha defeitos e que o condutor deveria ter controlado o carro. Caso ilustra novos desafios regulatórios para o sector.

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A marca diz que o piloto automático não significa tirar as mãos do volante Reuters/BECK DIEFENBACH

A Tesla escapou a ter de chamar carros às oficinas na sequência da investigação ao acidente que no ano passado matou o condutor e único ocupante de um carro da marca, que seguia com o piloto automático ligado quando bateu num camião.

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A Tesla escapou a ter de chamar carros às oficinas na sequência da investigação ao acidente que no ano passado matou o condutor e único ocupante de um carro da marca, que seguia com o piloto automático ligado quando bateu num camião.

A autoridade americana responsável pela segurança rodoviária determinou que o piloto automático não apresentava defeitos e que, segundo dados registados pelo próprio automóvel, o condutor deveria ter visto o camião sete segundos antes do embate, o que lhe daria tempo para agir. A investigação também concluiu que o condutor não travou ou tentou mudar de direcção.

O caso ilustra os novos desafios regulatórios levantados pelos carros que conduzem sozinhos. A funcionalidade de piloto automático da Tesla foi concebida para ser usada em auto-estradas, onde a condução autónoma é mais simples do que no ambiente caótico das cidades. Permite ao carro mudar de faixa e reagir aos outros veículos, com mudanças de velocidade e travagens de emergência. A marca sublinha que o piloto automático deve ser usado apenas como um auxílio à condução e que o condutor deve permanecer com as mãos no volante. De acordo com o relatório da investigação ao acidente, o sistema dos carros foi actualizado de forma a que os condutores que não respeitem aos avisos de que têm de manter o controlo sejam impedidos de usar aquela funcionalidade durante o resto da viagem.

O acidente aconteceu em Maio de 2016. Num dia de grande luminosidade, as câmaras e sensores do Tesla não conseguiram identificar um camião branco que atravessava a via num cruzamento. O condutor, de 40 anos, era um veterano da marinha e um entusiasta dos Tesla. Já tinha publicado na Internet um vídeo onde mostrava como o carro evitara uma colisão lateral com um camião (também branco) que mudava de faixa. O caso foi descrito – incluindo pela marca – como o primeiro acidente fatal com um Tesla em modo de piloto automático. Porém, circularam depois relatos de um acidente fatal mais antigo, na China. Por outro lado, e mais recentemente, um vídeo divulgado por um condutor mostra como o sistema de travagem automática de um Tesla evitou um acidente em cadeia numa estrada holandesa, ao detectar que os dois carros da frente estavam prestes a bater.

Se a investigação da autoridade americana tivesse encontrado defeitos no piloto automático, a Tesla poderia ser obrigada a recolher os carros à oficina para reparação – apesar de os veículos poderem receber actualizações de software remotamente, de uma forma semelhante ao que acontece, por exemplo, com os telemóveis.

Este tipo de decisões regulatórias começam a desenhar o cenário para um futuro em que pelo menos parte dos carros nas estradas vão conduzir sozinhos. Vários países estão a tentar encontrar o caminho para permitirem o funcionamento de uma tecnologia que tem sido uma aposta  da indústria automóvel e de pesos-pesados da tecnologia, ao mesmo tempo que tentam não descurar as questões de segurança rodoviária. Nos EUA, onde a condução autónoma é legal em alguns estados, as autoridades determinaram no ano passado que o computador responsável pela condução autónoma pode em alguns casos ser considerado o condutor do carro.

Para além de questões relacionadas com a eficácia a evitar colisões, este género de automatismos está a levantar problemas éticos. Um estudo científico publicado no ano passado mostrava que a maioria dos inquiridos tendia a defender que os carros deviam poupar o maior número de vidas possível, mesmo que isso significasse a morte dos ocupantes do veículo – mas a maioria recusar-se-ia a comprar um carro programado para agir desta forma. A ferramenta usada pelos investigadores para apresentar vários cenários de acidente está disponível online e permite a qualquer pessoa indicar as suas preferências sobre o comportamento do veículo em cada situação.