O nuclear não pode ser "só uma questão nacional"

A porta-voz da Greenpeace para o Nuclear diz que os países vizinhos não podem fazer muito em casos destes.

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Susanne Neubronner é a porta-voz da Greenpeace para o Nuclear DR

Não é encorajadora para Portugal a análise que a Greenpeace faz de casos semelhantes ao que agora se passa junto à fronteira com Espanha. Diz Susanne Neubronner que Portugal pode levar a questão para os tribunais, mas não conseguirá muito mais do que isso. E realça que reactores com mais de 30 anos, como é o caso de Almaraz, são os mais perigosos.

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Não é encorajadora para Portugal a análise que a Greenpeace faz de casos semelhantes ao que agora se passa junto à fronteira com Espanha. Diz Susanne Neubronner que Portugal pode levar a questão para os tribunais, mas não conseguirá muito mais do que isso. E realça que reactores com mais de 30 anos, como é o caso de Almaraz, são os mais perigosos.

Que possibilidades há no plano legal para países cujos vizinhos decidam aumentar ou reavivar centrais nucleares ou locais de armazenamento de resíduos nucleares os poderem impedir?
Os países vizinhos não têm muitas hipóteses. Se não foram envolvidos no estudo de impacto ambiental poderão ter hipótese de um desafio legal, no entanto, este é limitado e sobretudo administrativo. Prolongarão o processo, mas não conseguirão realmente uma possibilidade para fechar.

Outra hipótese será a pressão diplomática, mas o caso recente da Alemanha e Bélgica mostra que esta é limitada?
Sim, no caso a Alemanha fez pressão política mas o Governo belga diz que a central é segura por isso mantém-na. O tratado assinado por ambos ajuda a trocar informação, mas não é suficiente. Por isso, o que a Greenpeace defende é que haja mais possibilidade de os vizinhos poderem ter algo a dizer especialmente sobre o poder nuclear, porque as consequências se algo correr mal não páram na fronteira. Gostávamos que esta questão não fosse só uma questão nacional. Também há casos de pressão de iniciativas locais, que têm feito barulho e levado a algumas mudanças, por exemplo na sequência de Fukushima – na Alemanha a pressão popular levou à mudança de política do nuclear da chanceler Angela Merkel.

Como vê o diferendo entre Espanha e Portugal por causa de Almaraz?
Há um caso entre França e Alemanha com o local em que França pretende guardar todos os resíduos nucleares do país em Bure, perto da fronteira com a Alemanha. O projecto não provocou muitos protestos em França, mas na Alemanha sim. Para já, os protestos conseguiram adiar o processo – o estado-federado vizinho ainda planeia abrir um processo contra a decisão –, mas é um exemplo em que os protestos vieram todos do país vizinho.

Há dois perigos principais com o nuclear civil: a par da extensão de vida de velhos reactores, a construção de novos. O que é mais preocupante?
Os mais velhos são os mais perigosos. A maioria dos rectores nucleares em funcionamento na Europa tem mais de 30 anos. A tecnologia é dos anos 80 – e se olharmos para outras invenções tecnológicas da época percebemos que não são propriamente “state of the art”. Com reactores tão velhos já não há muito investimento, esta tecnologia não é de fácil actualização, e quanto mais velhos são os reactores, mais problemas vão surgir.

No entanto, os novos projectos também são preocupantes. Especialmente no Leste da Europa, que com novas apostas vão prolongar a vida do nuclear na Europa. E as novas centrais também não são seguras: não há centrais a operar com 100% de segurança.

E os países fora da União Europeia, como a Bielorrússia e Ucrânia?
Aqui o problema ainda é maior, porque a União Europeia não tem influência suficiente, os padrões são mais baixos do que na União Europeia, e não podemos realmente fazer nada. Especialmente na Ucrânia, onde são muito velhos, e enfrentam problemas especiais de segurança por causa da guerra. Se estes países continuarem a construir não é realmente seguro, e os países mais pobres aceitam padrões mais baixos de segurança.