Para compreender a presidência de Donald Trump, temos de decifrar Ivanka Trump

A filha mais velha do Presidente eleito é o membro mais amável, simpático e elegante da futura família presidencial. Mas também o mais impenetrável.

Foto
Kevin Lamarque/Reuters

Se vamos examinar o presente e o futuro do movimento de Donald Trump, a Administração de Donald Trump, a família Trump e a marca Trump, podemos começar por Ivanka Trump.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Se vamos examinar o presente e o futuro do movimento de Donald Trump, a Administração de Donald Trump, a família Trump e a marca Trump, podemos começar por Ivanka Trump.

Porque é a Ivanka. O membro mais amável, simpático e elegante da futura família presidencial. A pessoa mais impenetrável e, no entanto, estranhamente familiar. Algumas pessoas acreditam que ela será a verdadeira primeira-dama, com a sua personalidade perfeita para o mediatismo, as suas causas defensoras dos animais e o seu site de lifestyle. Ivanka Trump já se dedica a ser uma anfitriã graciosa e uma mulher profissional.

Na semana passada, o seu pai nomeou-a oficialmente para a sua equipa de transição; esta semana surgiram rumores – os quais Donald Trump negou – que o Presidente eleito tinha pedido autorizações de acesso confidencial para Ivanka e para os seus irmãos. Dana Bash da CNN leu em directo, nesta segunda-feira à noite, uma mensagem de um amigo: “Que operação clandestina vai comandar Ivanka?”

Vão ser todas, cara Dana. Não conseguimos deixar de pensar que Ivanka Trump é essencial para tudo isto.

O que se está a passar? É uma questão que todos perguntam constantemente, sobre tudo o que está acontecer em Washington neste momento e talvez até ao fim dos tempos. Na terça-feira, os meios de comunicação reportaram que a equipa de transição estava em apuros; na quarta-feira, Donald Trump publicou no Twitter que a transição “está a correr de forma tão tranquila”. Portanto, temos de nos contentar com o Instagram de Ivanka Trump para tentar perceber o futuro do nosso país.

Um vídeo da filha de Ivanka a cantar sobre ananás, publicado ao mesmo tempo que um ex-oficial de segurança nacional avisava o mundo para se “manter afastado” da equipa de transição “arrogante e espalhafatosa”.

Uma foto de Ivanka Trump, de 35 anos, com arranjos florais na cabeça, graças a um filtro do Snapchat.

Um artigo actual do seu site colorido e ambicioso de lifestyle, com o título “5 dicas para misturar trabalho e família.” Agenda para o jantar de família: nomear procurador-geral e secretário de Estado?

Ivanka deu uma entrevista ao 60 Minutos com o resto da sua família esta semana. Cruzou as mãos nas pernas, revelando uma pulseira imponente de ouro. “Vou ser uma filha,” respondeu com convicção quando Lesley Stahl lhe perguntou se procurava uma posição na administração de Donald Trump.

Na manhã seguinte, um representante de vendas da sua linha de joalharia enviou um comunicado de imprensa, afirmando que a pulseira que Ivanka usou na entrevista era a sua “preferida”. Pode ser adquirida no site de Ivanka Trump, Fine Jewelry, por 10.800 dólares. Filha e mulher de negócios? Mulher de negócios e conselheira presidencial?

O que significa tudo isto, Ivanka?

Os jornalistas discutiram se a questão da pulseira era um conflito de interesses explícito ou uma jogada dúbia mas também astuta. O mistério de Ivanka Trump é que esta parece fazer sempre parte de uma missão secreta – a fazer política através de linguagem encriptada ou de uma espécie de código Morse, ou fazendo passar-se pela agente sedutora, em quem ambos os partidos depositam as suas esperanças e sonhos.

“Muitos membros da geração millenial, como eu, não se consideram Republicanos ou Democratas,” disse ao apresentar o seu pai na Convenção Nacional Republicana em Junho. “Mais do que a afiliação partidária, voto no que considero estar certo para a minha família e para o meu país.”

Podemos argumentar com Ivanka? Foi o que pensaram os comentadores que acreditavam que o seu pai era demasiado imprevisível e que procuravam garantias. Será que Ivanka estava por detrás de tudo isto?

Quando não há respostas, é mais fácil fazer perguntas e adaptar teorias de conspiração alucinantes enquanto respostas.

“Será que Ivanka Trump e Jared Kushner estão a fazer desta presidência um jogo, ao estilo de House of Cards?” perguntou a Vanity Fair esta semana, num artigo que tecia considerações hipotéticas sobre as manobras de Ivanka e do seu marido. De acordo com o artigo, eles estão “em posição para se tornar no casal presidencial.” Ivanka Trump não tropeçou. Atravessou a campanha com a serenidade de um político e guardou os seus trunfos mais valiosos.

O que pensar dela? Qual será o seu objectivo quando insiste que não é uma pessoa política mas defende causas que causam divisão política, como a igualdade de remuneração para as mulheres e a licença de maternidade paga? Qual será o seu objectivo quando está a trabalhar na equipa de transição e, simultaneamente, publica vídeos online com os seus colegas a fazerem o Mannequin Challenge?

Ivanka, a mais bela de todas mas também a mais fria, o tipo de pessoa que seria capaz de levar um salto-agulha para uma luta de facas.

Ivanka, em posição para lutar pela reforma dos cuidados infantis, com as fotografias da sua gravidez, publicadas online, que faziam parecer que tinha enfiado uma bola de futebol por baixo do seu pequeno vestido e, nove meses depois, apareceu com um bebé.

Ivanka, naquelas outras fotografias – e sabemos que as câmaras conseguem sempre apanhar coisas em ângulos estranhos e momentos peculiares – onde o Presidente eleito parece estar sempre com as mãos à volta do rabo da sua filha. “Ela tem uma silhueta muito boa,” disse Donald Trump da sua filha. “Se a Ivanka não fosse minha filha, talvez namorasse com ela.”

Ivanka. Por favor, Ivanka.

Fala connosco. Somos todos ouvidos.

Estas eleições centraram-se em grandes partes do eleitorado a tentarem decifrar se o seu candidato iria realmente fazer o que dizia, a tentarem ler o futuro do país nas entrelinhas. O país precisa de alguém que seja especialista em operações encobertas, que tenha acesso e que consiga reportar o que realmente se está a passar.

O país precisa de Ivanka Trump. Temos de decifrar Ivanka Trump.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post