As pedras de Santa Cruz enterradas em nome de João Batista

Os corpos dos timorenses mortos no cemitério de Santa Cruz estão em parte incerta, escondidos pelos indonésios numa qualquer vala comum -25 anos depois do massacre que transformou a ocupação indonésia num dos grandes temas diplomáticos, os timorenses ainda fazem um luto sem corpos.

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O fato cinzento-escuro, a camisa branca, os sapatos pretos polidos e a gravata às listas com desenhos geométricos em tons terra parecem demasiado austeros para o jovem João Batista, que vai a enterrar este sábado, 25 anos depois de ter morrido.

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O fato cinzento-escuro, a camisa branca, os sapatos pretos polidos e a gravata às listas com desenhos geométricos em tons terra parecem demasiado austeros para o jovem João Batista, que vai a enterrar este sábado, 25 anos depois de ter morrido.

A vestimenta – em que a juventude do rapaz é simbolizada pelo chapéu de pala, preto, com a bandeira timorense e a palavra Timor-Leste - nem é o mais estranho neste velório num corredor com calçada portuguesa, à sombra de uma árvore frondosa e de um toldo de plástico azul-céu, perto da “capela do Pai Nosso”, no cemitério de Santa Cruz, em Díli.

João Batista morreu a 12 de novembro de 1991, porventura exatamente no mesmo sítio onde hoje é recordado. Foi baleado por soldados indonésios que nesse dia trágico para Timor-Leste (e nos seguintes) mataram quase três centenas de pessoas, num massacre que mudaria a história da luta pela independência.

Mais de duas mil pessoas tinham-se dirigido a Santa Cruz para prestar homenagem ao jovem Sebastião Gomes, morto por elementos ligados às forças indonésias uns dias antes no bairro de Motael. A ação dos militares indonésios foi filmada por Max Stahl e a atenção internacional sobre Timor-Leste mudou para sempre.

Como aconteceu com os corpos dos restantes 74 jovens mortos em Santa Cruz - morreram 200 outros nos dias seguintes em Díli -, o corpo de João Batista desapareceu. Foi uma das 42 vítimas com menos de 17 anos.

“Não está aqui enterrado nenhum”, garante José Mesquita, coveiro de Santa Cruz desde 1970. “Foram todos levados e metidos num buraco todos juntos.” Ninguém sabe bem onde é a vala comum. “Talvez Ermera, ou assim.”

Agora, mesmo que os corpos fossem encontrados, dificilmente poderiam ficar ali enterrados. É que apesar de continuar a ser lugar de peregrinação para muitos timorenses e estrangeiros, Santa Cruz está cheio. Isso mesmo reza uma placa, em tétum, colocada junto ao muro frontal que, como a calçada, foi recuperado por Portugal em 2001. Fica o aviso de “higiene e saúde pública” da Administração de Díli que confirma que “Santa Cruz está oficialmente fechado” a funerais desde 27 de julho de 2014, ameaçando com “castigo” a quem ignorar o aviso.

Talvez por isso José Mesquita diga com certeza que “nem a contar um dia inteiro” se consegue saber quantas pessoas estão enterradas no cemitério mais antigo e mais importante da capital timorense. “Eu acho que nem numa semana se acaba”, explica, enquanto navega por entre a confusão de campas, colocadas desordenadamente e em todo o espaço do cemitério que está plantado em três aldeias, Bemori, Quintal Bot e Balide, no suco de Santa Cruz.

É praticamente impossível chegar de um ponto ao outro do cemitério passando só entre as campas, tal é a confusão que vai aumentando quanto mais se vai entrando no espaço. Invariavelmente é necessário pisar sepulturas em diferentes graus de abandono, decoradas com maior ou menor riqueza, onde se misturam azulejos multicores, cimento, tijolo, pedra e até ‘carcaças’ de munições antigas.

“Não importa pisar. Agora já não tem espaço”, explica Mesquita, contratado ainda no tempo da administração portuguesa, forçado a abandonar o cargo entre 1975, ano da invasão da Indonésia, e 1987, quando retomou as suas funções, que ainda hoje ocupa.

Simplesmente não há espaço: até os dois ossuários “estão cheios” e nos pequenos corredores entre campas podem ver-se pedras a cobrir túmulos sem identificação que, pelo tamanho, poderiam ser de crianças.

Há muitas campas abandonadas, ou por famílias sem posses para as manter, ou porque simplesmente se trata de túmulos de quem já não tem família por perto, como é o caso de muitos dos estrangeiros ali enterrados: civis e militares portugueses, civis indonésios e pelo menos um bebé vietnamita.

Ao fundo, à direita, a campa de Sebastião Gomes acaba por ser o principal ‘símbolo’ do massacre de 1991. O jovem, que muitos consideram a primeira vítima do massacre, morreu menos de dois meses depois de cumprir 18 anos, a 28 de Outubro.

Caixão de pedras

Num país onde os rituais fúnebres assumem particular importância, não poder ter um corpo para o funeral e enterro é difícil para as famílias. Muitas famílias enterram os mortos ao lado da casa e depois em datas relevantes recordam o familiar, chegando mesmo a comer e beber sentados no túmulo.

Por isso a cerimónia das pedras, de João Batista, é tão simbólica. “A família quer levar os restos mortais para a terra natal dele. Como não encontra os restos mortais, levam um símbolo em vez do cadáver”, explica Joana Ximenes, prima de João Batista e uma das cerca de dezena e meia de pessoas presentes no pequeno velório.

“Ninguém sabe onde estão os corpos e, por isso, segundo a cultura timorense, quando alguém morreu e não se sabe onde estão os restos mortais, fazem uns rituais para depois levar o símbolo para a terra natal”, disse.

Como este é um velório e um funeral sem corpo - está marcado para sábado -, o que entrará no pequeno caixão castanho, forrado a cetim branco e que espera, aberto, sobre duas cadeiras verdes de plástico, serão algumas pedras do cemitério de Santa Cruz.

As pedras vão acompanhar a vestimenta que está disposta como que vestindo um corpo invisível, cuidadosamente depositada sobre um pano tradicional tais e este, por sua vez, sobre um pano branco com rendas, que tapam, os dois, uma mesa simples de madeira.

No sábado, quando se cumprem 25 anos do massacre de Santa Cruz, João Batista vai voltar a ser relembrado, um dos nomes dos muitos timorenses que morreram por defender a independência de Timor-Leste.

“Relembramos o nome dele, a sua família. Ele não pode estar assim, sem ter um lugar fixo. Como está morto tem que ter um lugar fixo, com o nome dele, para dizer que existiu. E que depois de falecido tem o seu sepulcro”, sublinha Joana Ximenes. João Batista terá o seu lugar fixo, na sua terra natal, Iliomar, na ponta leste de Timor-Leste.

De onde saiu para estudar em Díli há mais de 25 anos e para onde volta. Representado com pedras de Santa Cruz, o cemitério onde nem todos os mortos das balas dos indonésios puderam ser enterrados.