Igreja Católica

Papa comemora os 499 anos da Reforma Luterana

A ambição do Papa é aproximar 1,2 milhões de fiéis católicos dos protestantes através de acções muito concretas.
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Papa Francisco, hoje, na catedral de Lund, Suécia AFP/VINCENZO PINTO

O Papa Francisco viajou, nesta segunda-feira, para a Suécia, onde deve comemorar com os protestantes os 499 anos da Reforma de Martinho Lutero, uma participação simbólica de consolidação dos 50 anos de esforço numa reconciliação delicada.

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A viagem decorre começou nesta segunda-feira e termina no dia seguinte, e o Pontífice argentino é esperado em Lund e Malmo, para encontros com representantes da Federação Luterana Mundial, responsável pela organização do evento, escreve a agência Ecclesia.

Para António Canoa, ordenado há 30 anos pastor na Igreja Luterana Portuguesa – fundada em 2012 –, estas “celebrações católico-luteranas” vêm reforçar o diálogo entre ambas as confissões, salientando que não “estão em lugares opostos” na fé. Antes se encontram sim “a adorar a Deus, nas mesmas perspectivas, a prestar os mesmos serviços” sem rivalidades associadas.

A celebração dos 499 anos da Reforma de Lutero insere-se no trabalho de aproximação, num longo e lento “diálogo ecuménico”  que visa “juntar católicos e luteranos” e que dura há ja 50 anos, frisa a agência Icclesia.  Em cima da mesa estão ainda questões centrais como a eucaristia e a ordenação das lideranças, sobre as quais o pastor António Canoa afirma ainda não haver “consenso completo”.

Foi em 31 de Outubro de 1517, que Martinho Lutero, numa atitude de desobediência ao patriarcado, afixou na porta da abadia de Wittenberg, no sul de Berlim, as “95 Teses” doutrinárias contra os abusos da igreja e o Comércio das Indulgências. Este feito valeu-lhe a excomunhão e abriu uma guerra religiosa sangrenta que perdurou e deixou cicatrizes. “Lutero deu um grande passo para colocar Deus nas mãos do povo”, sublinhou o Papa, acerca do reformador que traduziu a Bíblia para o alemão.

Há, no entanto, vozes dissonantes, no que respeita à celebração da Reforma luterana. No início deste ano, o guardião do dogma no Vaticano, o cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller, tinha considerado que não havia "nenhuma razão para celebrar" a Reforma que "levou ao colapso do cristianismo ocidental. "Os eventos programados para esta segunda-feira, no sul da Suécia foram designados de "comemoração conjunta" e não "celebração", cita a AFP.

Em Portugal, o Padre Edgar, em exercício na Igreja São Cristóvão e São Lourenço, de Lisboa, afirma que não há de facto nenhuma razão de celebração, porque se trata de uma “data triste” que salienta a “divisão entre [protestantes e católicos]”.

Estes comentários não parecem demover a crença da primaz da Igreja Luterana da Suécia, Antje Jackelén. Na sua conta oficial de Twitter, Jackelén manifestou a sua posição face a este consenso diferenciador protagonizado pelo Papa. “Um senhor, uma fé, um baptismo”, escreveu ela. O Papa estará ao lado de Antje Jackelén, a primeira mulher arcebispo a ocupar o púlpito na Catedral de Uppsala.

Já o palestino, Munib Younan, bispo luterano prefere salientar o exemplo da “unidade" que representa esta "comemoração conjunta (...) numa época em que o extremismo devora o mundo”.

Ambas as confissões religiosas assumem posicionamentos contrários a respeito de algumas temáticas, algumas bastante controversas. Por exemplo, a Igreja dos países escandinavos autoriza a ordenação de mulheres desde 1960, celebra o casamento entre pessoas do mesmo sexo desde 2009 e nomeou uma Episcopisa (o equivalente a bispo) lésbica, em Estocolmo. Algo totalmente impensável para a Igreja Católica Romana. Os protestantes não praticam o culto da virgem Maria e dos Santos, só Deus pode ser venerado. E não admitem, claro, o princípio hierárquico da Igreja Romana e, portanto, a autoridade do Papa.

Mas ao PÚBLICO, o pastor António Canoa e o Padre Edgar Clara afirmam que há mais elementos a uni-los do que a separá-los. Há um “património comum” diz o Padre Edgar, que reforça esta ligação. É possível encontrar pontos comuns: o baptismo e a oração (Pai-nosso) são disso, exemplo. As confissões congéneres partilham de um "ecumenismo de sangue" disse o Papa Francisco em entrevista publicada, na sexta-feira, em duas revistas jesuítas, na Suécia e no Vaticano. E acrescenta: "quando os cristãos são perseguidos e assassinados, eles são-no porque são cristãos, não porque são luteranos, calvinistas, anglicanos, católicos e ortodoxos ".

A ambição do Papa é aproximar 1,2 milhões de fiéis católicos dos seus irmãos protestantes através de acções muito concretas. Estima-se que a Federação Luterana Mundial representa 74 milhões de crentes. Acresce a este dado a miríade de Igrejas Protestantes - Evangélicas, Reformistas e Luteranas -, herdeiras da perturbação causada por Lutero, reuniu cerca de 800 milhões de fiéis.

Oração para a Síria

Este encontro ecuménico, cujo tema central será a crise na Síria, constituiu o segundo momento alto desta segunda-feira, no estádio de Malmo. A receita de 10.000 bilhetes será usada para ajudar jovens refugiados sírios. A multidão participou numa oração para o fim da guerra na Síria, retransmitida em muitas outras cidades do mundo.

A presença do Papa nas comemorações, para lançar um ano cheio de eventos em torno de Lutero (principalmente na Alemanha) despertou o entusiasmo de todos aqueles que promovem a unidade dos cristãos num mundo cada vez mais secularizado. As organizações de caridade luterana (World Service) e católica (Caritas) também irão selar um acordo para reforçar a sua ajuda à cooperação.