Mais de dois anos depois, Líbano volta a ter Presidente

Eleição de Michel Aoun tem o objectivo de pôr fim à paralisia das principais instituições políticas do país.

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Michel Aoun foi eleito Presidente do Líbano Aziz Taher / Reuters

Ao fim de 29 meses de impasse, o Parlamento libanês conseguiu finalmente alcançar um acordo para eleger o ex-general Michel Aoun como Presidente do país. A decisão é vista como o ponto de partida para terminar com o vazio de poder que tem paralisado o país.

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Ao fim de 29 meses de impasse, o Parlamento libanês conseguiu finalmente alcançar um acordo para eleger o ex-general Michel Aoun como Presidente do país. A decisão é vista como o ponto de partida para terminar com o vazio de poder que tem paralisado o país.

A nomeação de Aoun foi confirmada esta segunda-feira, depois de ter sido negociado um compromisso entre os vários sectores que compõem o Parlamento. Aoun, de 81 anos, é um ex-general e antigo Presidente, deposto há 26 anos pelo Exército sírio, que regressa agora ao palácio presidencial de Baabda para um mandato único de seis anos.

O Líbano vive num limbo político há mais de dois anos, em que tudo é provisório, desde o Presidente ao Governo. A situação imobilizou as instituições do país, onde não há um orçamento aprovado há mais de uma década e em que até a ausência de um sistema de recolha do lixo em Beirute serviu de pretexto para uma onda de contestação no Verão de 2015.

Espera-se que a eleição de Michel Aoun – que aconteceu à 46.ª tentativa – seja a peça do dominó que vá retirar as instituições do imobilismo. Há, porém, quem duvide quanto à capacidade do antigo Presidente em conseguir superar as rivalidades sectárias no actual ambiente político. “Não sei até que ponto é que ele será capaz de reconciliar as grandes contradições que o seu mandato vai enfrentar”, disse o comentador político do jornal Na-Nahar, Nabil Boumonsef, citado pela Reuters. O primeiro grande teste será a composição do novo Governo, algo que vai requerer meses de difíceis negociações para que seja preservado o equilíbrio de poder entre as várias comunidades (xiitas, sunitas, cristãos maronitas e drusos, entre outras).

O regresso de Aoun ao poder só foi possível depois de um acordo, até agora visto como improvável, entre partidos rivais. Apoiado há mais de uma década pelo movimento xiita Hezbollah, Aoun recolheu o apoio do líder cristão das Forças Libanesas, Samir Geagea, e do líder do partido maioritariamente sunita Movimento Futuro, Saad Hariri.

As divergências no Parlamento de Beirute reflectem o cenário da guerra civil síria. Os grupos de Hariri e Geagea opõem-se ao regime de Bashar al-Assad, que recolhe apoio do Hezbollah, patrocinado pelo Governo iraniano. A guerra no país vizinho provocou uma migração em maciça para o Líbano que recebeu mais de um milhão de refugiados sírios.

O executivo será encabeçado por Hariri, de acordo com o sistema de distribuição de lugares através de critérios comunitários. No Líbano, a chefia do Governo é entregue a um sunita, a Presidência a um cristão e o Parlamento é liderado por um xiita. Hariri, que volta a chefiar o Governo, era o responsável pelo bloqueio à nomeação de Aoun. Porém, vários analistas atribuem a sua mudança de posição a conflitos internos dentro da sua própria facção parlamentar, que subiram de tom sobretudo após as eleições municipais de Maio.

A eleição de Aoun pode abrir uma nova etapa da política libanesa, com impacto regional e “será vista como uma vitória do Irão e uma perda de influência saudita”, escreve o Al-Monitor