Portugal

“Mais de metade do comércio da Baixa vai desaparecer”

Desafiámos Catarina Portas a servir-nos de cicerone pela Lisboa que a apaixona e a preocupa. Percorremos a Baixa e o Chiado de tuk-tuk. Daqui por uns tempos, se se confirmarem os receios da mulher que se tornou uma espécie de provedora das lojas com história, a paisagem não será a mesma.
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Catarina Portas nunca tinha andado de tuk-tuk em Lisboa. Apesar de ser, de acordo com o mito urbano que lhe faz soltar uma gargalhada sonora, dona de todos os tuk-tuk da cidade. “Pelos vistos tenho uma fortuna desconhecida. Aqui há tempos um taxista disse-me: ‘Há dias, vinham aí uns senhores a falar de si e a dizer que o António Costa lhe tinha oferecido – a si e ao neto do Humberto Delgado – os quiosques da Avenida’.” Catarina explora cinco quiosques em Lisboa, nenhum na Avenida da Liberdade, e não faz ideia de quem é o neto de Humberto Delgado. De tão repetidas, agora até já acha graça a situações destas. “Houve alturas em que me enfurecia, hoje em dia acho que não vale a pena, o melhor é rirmo-nos.”

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Combinamos encontro junto à Sé, a gare improvisada dos tuk-tuk da capital. Mesmo ao lado fica um dos quiosques geridos por Catarina Portas. A ideia é darmos uma volta pela Baixa e pelo Chiado, guiados pela empresária que se tornou nos últimos tempos uma espécie de provedora do comércio tradicional e das lojas com história. “Eu nunca me considerei uma pessoa radical, mas hoje olho para os meus posts do Facebook e pareço uma histérica inflamada. Mas a verdade é que a situação está a tornar-se tão dramática que tem de se fazer alguma coisa.” 

Contratamos um ecotuk, de motor eléctrico, menos ruidoso. Catarina Portas não entende como é que a câmara não impôs, quando a febre dos tuk-tuk invadiu a cidade, que os pequenos motociclos para fins turísticos fossem todos eléctricos e mais amigos do ambiente. 

A primeira etapa, no entanto, dispensa o tuk-tuk. Descemos ecologicamente a pé a Rua de São João da Praça, sob o perfume da flor de laranjeira.

Casa Alves

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O número 112 da Rua de São João da Praça é o primeiro ponto no mapa da visita guiada por Catarina Portas. A Casa Alves é uma mercearia de bairro à moda antiga. Percebe-se de imediato que Catarina é da casa, pelo modo como é recebida. “Então, tem vendido as coisas novas?”, pergunta ao dono do estabelecimento. “Mais ou menos.” José Luís Alves, o proprietário, recebeu ordem de despejo dos novos senhorios. Pediu o realojamento mas se não conseguir pagar a nova renda terá de deixar a mercearia, que está na família há mais de meio século.

A Casa Alves é o único inquilino de um prédio devoluto. Vai ter obras em breve e pode vir a tornar-se mais um hotel. Catarina Portas soube da história por uma amiga, visitou a loja e achou que tinha de fazer qualquer coisa. Decidiu-se a intervir depois de perceber que os únicos clientes eram turistas que tiravam muitas fotografias e que, de vez em quando, compravam uma pasta dentífrica Couto. “O género pasta Couto é um género que eu conheço bem. Daí, ocorreu-me que podíamos fazer uma experiência.” A Vida Portuguesa passou a fornecer a Casa Alves de coisas que os turistas costumam comprar. Só produtos que respeitam o espírito da loja e que até já se venderam ali no passado. "Pus aqui o material a custo zero para eles; nós só vamos cobrar 10% sobre o preço a que comprámos as coisas. Porque, obviamente, eu tenho uma equipa de pessoas que esteve a encomendar, a contar, a embrulhar tudo isto. Mas o lucro fica para eles.”

O objectivo é tentar que as vendas aumentem e que a Casa Alves consiga, no futuro, suportar uma renda mais alta, evitando o despejo e o desaparecimento de mais uma loja histórica. Na mercearia há agora uma maior variedade de conservas, há uvada, goiabada e uma quantidade de outros produtos que vieram trazer novas cores às prateleiras de cor creme. “Não sei se isto vai dar a algum lado, mas pelo menos dá a conhecer o que se está a passar. E eu sei bem o que se está a passar: nos próximos dois anos, metade do comércio da Baixa vai desaparecer. Metade, se não for mais.”

Enquanto falamos à porta do estabelecimento, entra um casal de turistas estrangeiros. Quando saem, minutos depois, Catarina não contém um sorriso e uma exclamação: “Estão a ver: já ali vai um chocolatinho da Regina.” 

As bugigangas da Rua da Prata

Regressamos à Sé, onde nos aguarda Hugo Samora, que trocou a profissão de actor pela de condutor de tuk-tuk. “Passei de contador de histórias a contador da História.”

Próximo destino, o Rossio. Pelo caminho, subimos a Rua da Prata até à Praça da Figueira e Catarina Portas vai apontando, de um lado e do outro, o comércio de bugigangas para turistas. “Aqui, na Rua da Prata, há 17 lojas destas, de souvenirs feitos na China; é uma coisa um bocado bizarra. Adorava perceber como funciona este modelo de negócio. Não estou a ver como é que 17 lojas iguais, a venderem souvenirs luso-chineses, sempre vazias, conseguem facturar e pagar rendas na Baixa.” Está lançada a questão, mas a empresária não quer ir mais longe nas suspeitas que deixa no ar. “Palavra de honra: gostava realmente que alguém investigasse isto.”

Catarina Portas é uma activa subscritora de petições online. Ainda recentemente, divulgando um abaixo-assinado em defesa do Ateneu, no Facebook, reconheceu com alguma auto-ironia: “Bem sei que ultrapassei a minha quota semanal de petições mas a situação está dramática.” Considera realmente que as petições online e os abaixo-assinados fazem alguma diferença? “Parece que não, mas as assinaturas são importantes. Por exemplo, no dia em que a petição do Fórum Cidadania LX, que pede uma alteração à lei das rendas, tiver quatro mil assinaturas, o assunto vai ao Parlamento e tem de ser discutido no hemiciclo.”

A loja mais pequena de Lisboa

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Estacionamos no Rossio e subimos a pé a Rua do Carmo. Catarina Portas tem dois objectivos: a loja mais pequena de Lisboa e uma grande marca internacional. A multinacional sueca H&M está por todas as grandes cidades do mundo e também tem o seu espaço no Chiado. “Lisboa também tem de ter H&Ms. Não pode é ter só isso.”

O contraponto à multinacional de pronto-a-vestir é a charmosa e minúscula Luvaria Ulisses. “É preciso ver que é a Ulisses e não a H&M que está nos guias dos turistas. Os turistas vêm à Ulisses, fotografam a Ulisses, e depois vêem ali a H&M e vão lá fazer compras. Portanto, a H&M precisa tanto da Ulisses como a Ulisses precisa da H&M.”

A riqueza de uma cidade faz-se de uma mistura equilibrada e é isso que Catarina Portas defende apaixonadamente. “Se houver só lojas de cadeias estrangeiras – com este retalho obsessivo que anda pelo mundo –, às tantas já não há diferença, nem carácter, nem personalidade.”

A Luvaria Ulisses, que se saiba, não corre perigo. Ainda assim, a pressão imobiliária é hoje de tal ordem que de um momento para o outro uma loja com 200 anos pode ser posta na rua em seis meses. “Existe, na lei, uma protecção para os inquilinos idosos, não existe para os inquilinos comerciais. O que está a fazer com que todo este tecido comercial esteja a desaparecer.”

Um pouco mais adiante, Catarina volta a abanar a cabeça em sinal de desconsolo. Está a lembrar-se da antiga Livraria Portugal, entretanto desaparecida. Deu lugar à pastelaria Eric Kayser, que também já ali não está. “Passado um ano foi-se embora e agora é uma loja daquelas que existem em todas as cidades europeias, com uma vaca à porta e a vender inutilidades. É para isto que andamos a destruir lojas que tinham valor patrimonial; muitas delas com trabalhos de arquitectos que projectaram fachada, interiores e móveis.”

Foi para tentar evitar situações semelhantes que a Câmara de Lisboa criou o programa Lojas com História. Catarina Portas faz parte do conselho consultivo desse programa que começou há um ano, ainda com António Costa à frente do município. Os trabalhos são coordenados por uma equipa do curso de Design da Faculdade de Belas-Artes, em articulação com técnicos de três vereações da câmara. “Tem estado a ser feito um levantamento e está a ser preparada a classificação das lojas. Deve estar pronta daqui por uns meses.” Ainda assim, Catarina Portas não se dá por satisfeita. “O que acontece é que até agora, enquanto essas lojas não estão protegidas, ninguém suspendeu qualquer licenciamento. O mais provável é que muitas delas já tenham desaparecido quando a classificação estiver pronta. Neste momento, elas desaparecem todas as semanas.”

Um caso exemplar

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Voltamos ao tuk-tuk, descendo por entre os acordes cruzados da carrinha do fado e de um enérgico cantor de rua. O céu ameaça chuva, daqui a pouco virá mais um aguaceiro, mas nem isso demove os turistas que se passeiam tranquilamente pela Baixa. Catarina Portas repete que não tem nada contra os turistas. São eles, aliás, os principais clientes das lojas de que é proprietária. O que teme é o efeito a longo prazo. “Já estragámos o Algarve nos anos [19]70; não aprendemos nada com isso? A mim, isto faz-me um bocado de impressão.”

Descemos a Rua do Ouro, espreitando a cidade através da capa de plástico transparente do tuk-tuk. A capa lateral pode ser retirada, a do tejadilho não. “Transforma um soft top, que não permite que crianças de menos de sete anos viajem no veículo, num hard top, onde qualquer criança pode viajar”, explica Hugo, o actor-cicerone. Chegou a transportar crianças com o tuk-tuk a descoberto e nunca teve problemas; mas nunca fiando, a qualquer momento pode surgir o polícia que conhece esta norma legal. “Há um polícia em Lisboa que sabe disto, depois há outro que sabe outra coisa. Entre eles, vão sabendo coisas diferentes.”

Subimos ao Chiado, agora pelo lado de cima. Estacionamos, e Catarina Portas conduz-nos ao que considera ser um caso de intervenção exemplar da Câmara de Lisboa. “Só tenho pena que a câmara não tenha feito pública a negociação em que interveio aqui.” Estamos à porta da antiga Ourivesaria Aliança. O número 50 da Rua Garrett continua a ser uma ourivesaria mas agora de uma marca catalã. A Tous recuperou o espaço até ao mais ínfimo pormenor, num processo que teve intervenção directa da autarquia. Aconteceu há cinco anos.

“A Ourivesaria Aliança fechou, o prédio agora tem alojamento turístico e a loja era para ser a entrada desse alojamento turístico. A câmara foi conversando com os proprietários do edifício e conseguiu-se encontrar um inquilino interessado em preservar o espaço.” Tudo foi recuperado, nesta loja requintada, com um belíssimo tecto pintado há mais de um século em estilo rococó. “Conservaram tudo, incluindo os móveis, e sei que até chegaram a ligar para a câmara a perguntar se era imprescindível conservarem as alcatifas dos anos 70, umas alcatifas verdes que não interessavam nada. Foram de facto extremosos na recuperação.”

Os últimos azulejos

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Voltamos a meter-nos no tuk-tuk, com Catarina Portas sempre entusiástica na defesa dos seus pontos de vista. A situação é o que é, explica, por três razões, que isoladamente até podiam ser positivas. A lei das rendas, que tinha de ser alterada porque era muito injusta para os senhorios. A explosão do turismo, que trouxe uma nova dinâmica económica à cidade numa altura de crise. Os fundos de investimento estrangeiros, que descobriram no imobiliário de Lisboa excelentes oportunidades de negócio. “As três coisas juntas resultam numa situação que neste momento é completamente explosiva.”

A última paragem é no Largo Barão de Quintela. O edifício de esquina entre o Largo e a Rua do Alecrim foi, nas últimas três décadas, a sede da Vista Alegre. A empresa de cristal e porcelana foi comprada recentemente pela Visabeira e essa mudança de propriedade pode ter, em breve, efeitos drásticos.

Um dos locatários do edifício do Largo Barão de Quintela é a loja da Fábrica de Sant'Anna, que cumpre este ano um século de existência. Ali se vende um dos principais ex-líbris de Lisboa: os azulejos pintados. A Fábrica de Sant'Anna, onde os azulejos são fabricados, agora instalada na Calçada da Boa-Hora, já vem do século XVIII. “Nasceu a fazer azulejos para a reconstrução da cidade, depois do terramoto”, explica Hugo Samora, o condutor que vem aqui frequentemente trazer turistas.

A Visabeira tem a intenção de fazer deste edifício um hotel e já enviou uma ordem de despejo a todos os inquilinos, incluindo a loja da Fábrica de Sant'Anna. Catarina Portas não se conforma com a possibilidade de ver desaparecer, assim, mais um lugar emblemático da cidade. “Esta loja é muito importante para a fábrica, é responsável por 30% das vendas da fábrica, onde trabalham 30 e tal pessoas. Faz sentido um hotel estar a matar a loja da ultima fábrica de azulejos em Lisboa? Tenho dúvidas.”

Entramos. Catarina cumprimenta o empregado do estabelecimento e pergunta-lhe como estão as coisas. Está tudo na mesma, aparentemente, responde Carlos Amaro, funcionário de longa data. O prazo de despejo já passou, mas os inquilinos continuam a recusar-se a sair.

O fogo e as cinzas

Começa a chuviscar. A viagem de tuk-tuk chega ao fim. Hugo Samora faz-nos um desconto. Em vez dos 60 euros que costuma levar aos turistas, cobra-nos apenas 50, o preço antigo.

Atravessamos a Rua do Alecrim e subimos a pé ao Largo Camões. Tomo nota, para não me esquecer, da frase de Mahler que Catarina Portas descobriu recentemente e que adoptou como lema: “A tradição é alimentar o fogo, não é ficar a contemplar as cinzas.”