Cinco editoras portuguesas que andam com a arquitectura às costas

A+A Books, Dafne, Circo de Ideias, NOTE e Monade têm uma coisa em comum: lançam livros de arquitectura. Damos a conhecer estas — e outras — editoras especializadas na área

Foto
Samuel Zeller/Unsplash

Há quem se dedique apenas à edição e há quem tenha uma livraria às costas. Há quem organize exposições e lance catálogos pelo meio e há quem queira guiar as pessoas pela arquitectura portuguesa. Há quem esteja nisto há uma vida, mas também há quem ainda agora começou. Em comum, a A+A Books, a Dafne, a Circo de Ideias, a NOTE e a Monade têm uma coisa: lançam livros de arquitectura. Damos a conhecer o seu passado e o seu futuro.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Há quem se dedique apenas à edição e há quem tenha uma livraria às costas. Há quem organize exposições e lance catálogos pelo meio e há quem queira guiar as pessoas pela arquitectura portuguesa. Há quem esteja nisto há uma vida, mas também há quem ainda agora começou. Em comum, a A+A Books, a Dafne, a Circo de Ideias, a NOTE e a Monade têm uma coisa: lançam livros de arquitectura. Damos a conhecer o seu passado e o seu futuro.

A+A Books

Fez em Dezembro 20 anos que surgiu em Lisboa a primeira livraria especializada em Portugal. E logo em arquitectura. A garantia é dada por Maria Melo, sócia-fundadora da A+A que se situa até hoje na Travessa do Carvalho, na sede da Ordem dos Arquitectos. “Queríamos que fosse uma livraria de qualidade”, recorda ao P3. O tempo foi passando e a “experiência de livreira” ditou uma pequena alteração de planos. “Apercebi-me que a arquitectura portuguesa começou a ser muito procurada por estrangeiros e eu não tinha nada na livraria para responder ao turismo cultural.” Nada de edições em inglês sobre obras ou arquitectos nacionais, muito menos bilíngues — com excepção, talvez, de livros sobre Siza Vieira. Por isso, em 2009, no “começo da crise”, nascia a A+A Books com uma “perspectiva de internacionalização da arquitectura”. “Foi uma maneira de ajudarmos os arquitectos e a arquitectura portuguesa lá fora”, conta a livreira de 65 anos, mas também de mostrar uma “nova geração de arquitectos que precisava de ser conhecida”. Todas as edições da A+A Books são, por tudo isto, em português e em inglês. Contando com apoios institucionais e de mecenas, tem lançado para o mercado obras como as monografias de Ricardo Bak Gordon e Carrilho da Graça e o “minucioso” “Guia de Arquitectura de Lisboa 1948-2013”, que demorou três anos a concluir. Em 2014, o Bloco das Águas Livres, projectado por Nuno Teotónio Pereira em colaboração com Bartolomeu Costa Cabral, inspirou o primeiro volume da colecção Single, que é dedicada a uma só obra. Em Julho deste ano sai o segundo desta série, um livro dedicado à Piscina das Marés de Siza Vieira que conta com fotografias de Nuno Cera; entretanto, vai-se “trabalhar” numa monografia do arquitecto Paulo David. Ainda este Verão, será lançado o Guia de Arquitectura do Porto, na senda de uma das vontades da editora: para além de um “olhar emocional”, motivar o público a adoptar um “olhar mais atento” para a arquitectura portuguesa.

Foto
Note

Dafne

Foto
Circo de Ideias / Monade

Mesmo ao fim de quase 15 anos de história, a Dafne é uma “editora de vão de escada”. Tudo começou em 2003, quando o arquitecto Domingos Tavares começou “despreocupadamente” a publicar as suas Sebentas de História da Arquitectura Moderna, livros acessíveis e úteis a estudantes e curiosos. Um par de anos mais tarde, o filho, André Tavares, entrou na “aventura” e a Dafne estendeu os braços a outras áreas, “projectando novos autores” e “alargando o espectro para um debate da história da arquitectura”. “Qualquer dia chegamos aos cem livros... devagarinho”, graceja André, coordenador editorial da Dafne e curador da Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, ao lado de Diogo Seixas Lopes que faleceu em Fevereiro. Por ano, são lançados dois a seis livros. “Nunca saímos muito dessa vontade de ser uma pequena editora”, admite o arquitecto de 40 anos, a quem agrada essa “proximidade com quem a constrói”. Não querem ser “exclusivos”, distanciam-se do “campeonato dos livros de autor”: “Queremos que os livros circulem por muitas pessoas”. As edições, que rondam os mil exemplares, são em português, mas, frisa André, os “limites da arquitectura são de uma linguagem cujas fronteiras não são nacionalistas”. São pensados em português (o meio, os leitores e o circuito de distribuição assim o exigem) e, quando não o são, a Dafne conta com várias parcerias internacionais, como a Fundação Aga Khan e a Lars Müller Publishers. Fascina-o, como no início, dar palco a arquitectos menos conhecidos e a novas obras. “É muito mais difícil [para uma editora] mostrar nomes que são desconhecidos ou que merecem ser descobertos, dá mais entusiasmo.” Dito isto, também já fizeram o oposto: a publicação de “Atlas de Paredes. Imagens de Método”, de Eduardo Souto de Moura, prova-o. No fundo, o objectivo é que todos “os livros sejam uma possibilidade de construir um novo conhecimento”. “Uma Anatomia do Livro de Arquitectura”, do próprio André, é a mais recente publicação da editora, fruto de uma parceria com a Lars Müller Publishers e o Canadian Centre for Architecture. Seguem-se uma monografia dedicada a Correia da Silva, arquitecto da Câmara Municipal do Porto e do Mercado do Bolhão, e um novo livro de Álvaro Domingues que, depois da “Vida no Campo” e d’”A Rua da Estrada”, vai dar a “Volta a Portugal”.

Foto
A+A Books / Dafne

NOTE

Em 2010, a arquitecta e curadora Bárbara Silva queria “publicar e falar de arquitectura” e, pelo caminho, reforçar editorialmente esta área em Portugal. Pensou numa revista, um formato “mais prático”, mas acabou por mudar os seus planos quando o arquitecto paisagista João Nunes a convidou para assumir a direcção editorial de um livro sobre o atelier PROAP. Ganhava forma então a NOTE, uma editora e produtora, um organismo que se dedica à divulgação da arquitectura através de exposições, conferências e publicações. Desde 2013, durante seis meses, ocupa a Galeria da Boavista, em Lisboa, com o programa “Temporada de Arquitectura”, cuja terceira edição termina este mês, seguindo-se passagens por Porto, Madrid e São Paulo. Cada mostra culmina sempre na publicação de um catálogo. Por agora, a galeria acolhe “Modern Masterpieces Revisited”, de Luís Santiago Baptista, que segue depois para a Circo de Ideias, no Porto, e, quiçá, Rio de Janeiro. No dia 23 de Março, pelas 19h30, é apresentado o livro no mesmo local, numa conferência que junta Jorge Figueira, Susana Ventura, Gabriela Raposo e o próprio Santiago Baptista. Em 2017, a temporada é dedicada ao atelier PROAP e a colectivos de jovens arquitectos de Portugal, Espanha e Brasil. Quanto ao campo editorial, faz parte da história da NOTE o livro “Homeland, News from Portugal”, que inclui todos os textos do jornal que Portugal apresentou na Bienal de Veneza de 2014. Dentro de três meses, será lançada uma compilação dos artigos de Jorge Figueira no PÚBLICO. O futuro editorial passará por aí: catálogos de exposições, monografias e textos teóricos.

Circo de Ideias

Nasceu como associação sem fins lucrativos em 2008 para publicar o livro “Berlim: Reconstrução Crítica”. E assim vive até hoje. Fundada por Pedro Baía, Joana Couceiro, Magda Seifert, os actuais directores, e Gonçalo Azevedo, a Circo de Ideias visa promover a divulgação e o estudo da arquitectura através da edição e produção de livros, exposições e debates. Esta missão materializou-se em 2014 na abertura de uma livraria no Bairro da Bouça, a primeira especializada nesta área a abrir portas no Porto, para além da existente na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Nela, para além de venderem livros, seus e de outros, organizam exposições, lançamentos, debates. E há muito para acontecer este ano, como elenca ao P3 Pedro Baía. Até 9 de Abril, está patente a exibição “a thousand cottages” dos arquitectos chilenos Mauricio Pezo e Sofia von Ellrichshausen; depois, é a vez de “Modern Masterpieces Revisited”, de Luís Santiago Baptista, actualmente na Galeria Boavista, em Lisboa. A 19 de Março, a editora de fotografia Pierrot Le Fou lança um fascículo dedicado ao trabalho de Carlos Azeredo Mesquita e, no dia 21, a livraria acolhe uma conferência da representação portuguesa na Bienal de Veneza que contará com a presença do arquitecto Siza Vieira, do Ministro da Cultura, João Soares, e dos curadores, Nuno Grande e Roberto Cremascoli. No campo da edição, depois do lançamento do livro “Vítor Figueiredo: Projectos e Obras de Habitação Social 1960-1979", de Vanda Maldonado e Pedro Namorado Borges, segue-se uma obra sobre o arquitecto Bartolomeu Costa Cabral.

Monade

Criada pelos arquitectos João Carmo Simões e Daniela Sá, a Monade é a mais recente editora de arquitectura no panorama português. O primeiro livro foi lançado este mês e é dedicado ao novo Museu Nacional dos Coches, projecto do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. Assinam-no a crítica de arquitectura Ana Vaz Milheiro, o escritor Gonçalo M. Tavares e, nas fotografias, o próprio editor João Carmo Simões. O próximo título será sobre o novo Museu Nadir Afonso, em Chaves, da autoria de Siza Vieira. A Monade não será, no entanto, dedicada exclusivamente à arquitectura, prevendo no seu catálogo livros de fotografia, arte e pensamento. 

Artigo actualizado às 12h15 de 16 de Março.