Europa

Esquerda radical lidera coligação inédita em estado federado da Alemanha

Antigo sindicalista Bodo Ramelow deverá governar o estado da Turíngia num acordo entre Die Linke, sociais-democratas e Verdes.
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Bodo Ramelow prepara-se para ser o primeiro líder da esquerda a governar um estado federado da Alemanha Christof Stache/AFP

É uma estreia na política alemã. Pela primeira vez, ou melhor, pela primeira vez desde a queda do Muro de Berlim, o partido de esquerda radical Die Linke, com raízes no antigo partido único da República Democrática Alemã (RDA), deverá liderar um executivo de um dos 16 Länder (estados federados) da Alemanha.

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Os responsáveis da coligação entre Die Linke, o Partido Social-Democrata (SPD) e os Verdes apresentaram esta quinta-feira uma “aliança para a reforma”, com ideias como creches grátis para crianças e investimento em educação e nas estruturas municipais – sublinhando, no entanto, que não irão endividar o estado.

“A coligação vermelho-vermelho-verde [as cores dos três partidos] não vai fazer tudo diferente, mas vai fazer tudo muito melhor”, disse a negociadora por parte do partido Die Linke, Susann Hennig-Wellsow, em Erfurt, a capital da Turíngia, que pertencia à antiga RDA.

O partido Die Linke (A Esquerda) é um aglomerado de uma série de facções. Do lado oriental, há elementos do antigo SED, o partido socialista da ex-RDA, antigos agentes da Stasi, a polícia secreta do Estado. Do lado ocidental há, na descrição da revista Der Spiegel, uma mistura de esquerda caviar, comunistas new age e antigos elementos da ala esquerda do SPD, como Oskar Lafontaine, que deixaram o partido em protesto após as reformas ao sistema de Segurança Social levadas a cabo pelo então chanceler Gerhard Schröder em 2005.

Nas eleições de 14 de Setembro na Turíngia, a União Democrata-cristã (CDU), que governa aquele estado há 25 anos, venceu as eleições com 33%, mas não conseguiu uma maioria. O segundo partido mais votado foi o Die Linke, com 28%, e os sociais-democratas obtiveram apenas 12%. Após conversações, o SPD decidiu-se por uma aliança inédita com o Die Linke e os Verdes, em vez de se juntar à CDU.

O líder do executivo deverá ser um antigo sindicalista da antiga Alemanha Ocidental (que esteve, todavia, sob vigilância das autoridades da RFA por contactos com a RDA), Bodo Ramelow.

Ramelow ainda tem de ser confirmado como governador numa votação a 5 de Dezembro, que é provável que vença, embora haja um pequeno grau de incerteza, porque a coligação tem uma maioria de apenas um voto. Se passar a votação, será a primeira vez que um político do Die Linke fica encarregado de um estado federado (o partido participa já em coligações com o SPD em estados federados como Berlim ou Brandeburgo, mas como parceiro secundário). Também é a primeira vez que se juntam numa coligação os vermelhos do Die Linke e os Verdes (os ecologistas protagonizaram oposição ao regime da Alemanha de Leste).

Ramelow já prometeu que antigos elementos da Stasi não farão parte do executivo do estado, embora vários tenham sido eleitos como deputados. A ligação do partido ao regime do partido único foi lembrada quer pela chanceler, Angela Merkel, quer pelo Presidente, Joachim Gauck, que viveram ambos na antiga RDA. Merkel apelou aos eleitores para “não deixarem Marx voltar a um governo” e Gauck disse que a perspectiva de ter antigos elementos do regime no poder deixa muitos cidadãos “inquietos”.

Para minorar esta inquietude, o acordo da coligação inclui um preâmbulo em que se declara que a ex-RDA era um Unrechtsstaat”, ou seja, um Estado que não se regia pelo direito. Esta foi uma discussão recente com líderes do Die Linke quando se comemoraram os 25 anos da queda do Muro de Berlim, a 9 de Novembro.

Implicações a nível nacional

O que deixa os comentadores a fervilhar é a hipótese de uma aliança do género tentar os sociais-democratas a nível nacional. SPD, Verdes e Die Linke teriam hipótese de, a nível nacional, formar uma maioria alternativa à “grande coligação” entre a CDU e o SPD chefiada por Angela Merkel (os resultados das eleições de 2013 permiti-lo-iam). Isto em teoria.

Na prática, até agora, esta ideia tem sido considerada um anátema para o SPD. A nível nacional os políticos do Die Linke têm um estatuto de párias, sendo contra vários pilares considerados essenciais para os partidos do centro – especialmente a pertença à NATO e à União Europeia.

No entanto, a sua vertente pacifista agrada a muitos num país em que qualquer intervenção militar é vista com enorme desconfiança.

O Die Linke também protagoniza uma oposição à política de austeridade e põe o foco no investimento, propondo impostos sobre os milionários para financiar melhor apoio social. Uma das suas bandeiras de campanha em 2009, um salário mínimo nacional, acabou por ser central na campanha do SPD em 2013, e uma das condições dos sociais-democratas para entrarem numa coligação com Merkel.

O SPD diz e repete que uma aliança com Die Linke a nível nacional está fora de questão. Políticos do Die Linke têm retorquido que esta posição é o que está a impedir o SPD de afastar Merkel, que vai no terceiro mandato (o primeiro em grande coligação com o SPD, o segundo em coligação com os liberais, e este terceiro de novo com o SPD) da chancelaria.

O SPD pagou muito caro a reforma de Schröder e a participação na primeira coligação com Merkel, entrando numa espiral de resultados desastrosos que não tem conseguido reverter. A via de um acordo com Die Linke pode parecer algo apetecível para um regresso ao poder dos sociais-democratas, mas também algo temível por poder acelerar o declínio do partido.