Segundo Governo de Manuel Valls para "disciplinar" o PS e tentar travar a crise política

A composição do novo executivo não traz surpresas. O objectivo é retomar a iniciativa e evitar uma "crise de regime".

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Manuel Valls, um primeiro-ministro para lidar com a perda de autoridade de Hollande AFP

Foi um acto de autoridade. O executivo continua a dispor de maioria parlamentar embora mais reduzida. Tudo depende do rumo que os dissidentes socialistas adoptem. Permanece o clima de crise política e alguns falam no risco duma crise de regime.

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Foi um acto de autoridade. O executivo continua a dispor de maioria parlamentar embora mais reduzida. Tudo depende do rumo que os dissidentes socialistas adoptem. Permanece o clima de crise política e alguns falam no risco duma crise de regime.

Saem do executivo os "dissidentes" Arnaud Montebourg (Economia), Benoît Hamon (Educação) e Aurélie Filippetti (Cultura). São substituídos, respectivamente, por Emmanuel Macron ("braço direito" de Hollande no Eliseu), Najat Vallaud-Belkacem (que transita dos Direitos das Mulheres, Cidade, Juventude e Desportos) e Fleur Pellerin (ex-secretária de Estado do Comércio Externo).

Os ecologistas voltaram a recusar participar no governo Valls. Em contrapartida, permanecem os ministros do Partido Radical de Esquerda. Mantêm-se os titulares das principais pastas: Laurent Fabius (Negócios Estrangeiros), Ségolène Royal (Ecologia, Desenvolvimento e Energia), Christiane Taubira (Justiça), Michel Sapin (Finanças e Contas Públicas), Marisol Touraine (Assuntos Sociais), François Rebsmen (Trabalho e Emprego) ou Jean-Yves Le Drian (Defesa).

A opção pela demissão do governo em vez de uma remodelação é raríssima na tradição francesa, visto o executivo manter a maioria parlamentar. Hollande escolheu um acto de força simbólico para confirmar a confiança no primeiro-ministro. Ignora-se se Valls vai apresentar o novo executivo ao Parlamento. Constitucionalmente não é forçado a fazê-lo. "Apenas confiança do Presidente é, neste caso, institucionalmente necessária", afirmam os juristas.

A prova de fogo do governo deverá verificar-se no debate do Orçamento para 2015. Tudo depende do tipo de oposição que a esquerda socialista e ecologista vão fazer, assim como a possibilidade de sucesso de Montebourg numa mobilização contra a política de Valls.

"PS em estilhaços"

O Monde titulava ontem em manchete: "Hollande impõe a sua equipa a um PS em estilhaços." O Presidente não tem mais nenhuma carta para jogar. Por isso não se pode excluir o cenário de uma dissolução do Parlamento, o que conduziria a uma vitória da direita e a uma nova "coabitação". É uma perspectiva que, neste momento, não suscita grande entusiasmo na própria oposição, também ela dividida e pressionada por Marine Le Pen.

Que se passará na esquerda? As figuras de topo da contestação não são ideologicamente coerentes. Se Hamon é um político que se posiciona numa esquerda relutante a assumir o ónus da governação em tempo de crise, Montebourg é um anti-europeísta que defende uma política económica nacionalista e propõe a "desglobalização". Tenta mobilizar a opinião através de declarações de hostilidade a Angela Merkel e à Alemanha.

O problema francês é a estagnação e a perda de competitividade. A economia não cresce, aumenta o desemprego. Valls optou por uma política de redução dos custos e de incentivos às empresas para relançar a produção e o emprego. A esquerda do PS exige uma política de aumento de poder de compra das famílias para relançar o consumo e, daí, o crescimento. Não são coisas incompatíveis mas complementares. O governo entende que, nesta fase, deve dar prioridade à primeira.

A perda de autoridade de Hollande, sobre a esquerda e sobre o país, decorre das expectativas que criou. "Era uma bomba ao retardador, mas que seria devastadora. A ausência de crescimento foi o detonador", resume Françoise Fressoz, no Monde.

Crise de regime?

Nas edições de terça-feira, tanto o Líbération (esquerda) como o Figaro (direita) anunciavam a abertura de uma "crise de regime". As esquerdas estão em "guerra" e as direitas em plena desorientação, enquanto a extrema-direita de Marine Le Pen consolida a sua posição no sistema político. Toda a política se faz já a pensar nas presidenciais de 2017.

O centrista François Bayrou, presidente do MoDem, explica que a França não está longe de uma crise de regime. "Isto que dizer uma coisa: o país está ingovernável, o governo não tem o apoio da opinião pública e não dispõe de uma maioria sólida. [Por outro lado] a própria oposição está em plena explosão."

Para o politólogo Gérard Grunberg, o sistema de alianças naturais ou duradouras está bloqueado. Num país que atravessa uma forte crise económica e social, "isto cria tensões extremamente violentas. Em certos países, como a Alemanha, há uma válvula de escape, a grande aliança entre centro-esquerda e centro-direita. Em França uma tal válvula não existe e o conjunto do sistema está bloqueado." Os dois grandes partidos não conseguem sequer fazer alianças sólidas nas suas próprias áreas e não têm base eleitoral para governarem o país em tempo de crise."

É o desafio que Valls assumiu.