ONU alerta para risco massacre em aldeia turcomana cercada pelos jihadistas

Atentados no Iraque, um dia após ataque a mesquita sunita, fizeram perto de 40 mortos.

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A ofensiva do Estado Islâmico lebvou centenas de milhares de iraquianos de várias minorias a abandonar as suas casas Youssef Boudlal/Reuters

Em Amerli, a uns escassos 160 quilómetros a norte de Bagdad, há muito que não há electricidade, a água potável escasseia e a pouca comida e medicamentos que ali entram vem nos helicópteros do Exército iraquiano que, de vez em quando, conseguem furar o cerco. A maioria dos seus habitantes são agricultores, mas a ofensiva dos jihadistas obrigou-os a deixar os campos em redor e a pegar em armas para impedir que eles entrem na localidade.

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Em Amerli, a uns escassos 160 quilómetros a norte de Bagdad, há muito que não há electricidade, a água potável escasseia e a pouca comida e medicamentos que ali entram vem nos helicópteros do Exército iraquiano que, de vez em quando, conseguem furar o cerco. A maioria dos seus habitantes são agricultores, mas a ofensiva dos jihadistas obrigou-os a deixar os campos em redor e a pegar em armas para impedir que eles entrem na localidade.

“Há 20 mil pessoas a lutar em Amerli contra a morte. Há crianças que só comem uma vez a cada três dias. É uma situação indiscritível”, contou à televisão britânica BBC Nihad Albayati, um dirigente local que tem coordenado a distribuição da ajuda enviada pelo Exército. Desde o início do cerco, em Junho, morreram mais de 50 habitantes, sobretudo idosos e doentes, “mas também crianças, por causa de desidratação ou de diarreia”.

A situação de Amerli foi denunciada pelo grande ayatollah Ali al-Sistani, o principal líder religioso dos xiitas iraquianos, num discurso lido durante as orações de sexta-feira, em que pediu aos militares que “quebrem o cerco e salvem os habitantes” da morte. Um apelo repetido neste sábado pelo enviado da ONU. “A situação das pessoas em Amerli é desesperada e exige uma acção imediata para evitar um possível massacre dos seus cidadãos”, afirmou Nickolay Mladenov, pedindo ao Governo iraquiano e aos aliados internacionais que, à semelhança do que foi feito para resgatar os milhares de yazidis cercados nas montanhas de Sinjar, “façam tudo o que esteja ao seu alcance para quebrar o cerco e garantir que a população recebe ajuda humanitária ou é retirada de forma digna”.

Os turcomanos representam cerca de 4% da população iraquiana, mas é o facto de seguirem maioritariamente o xiismo que os coloca na mira dos jihadistas, que os consideram apóstatas. À BBC, Albayati conta o terror em que a população vive de lhe acontecer o mesmo do que às outras aldeias em redor: “Sabe o que acontece quando o EI chega a uma aldeia. Prendem os homens, as mulheres e as crianças e matam-nos a todos. Só algumas raparigas são poupadas, sabe, para outras coisas”.

No resto do país assistiu-se neste sábado a uma sucessão de atentados, parte dos quais foi interpretado como uma retaliação pelo ataque, sexta-feira, a uma mesquita sunita da província de Diyala, no Leste do país. O tiroteio levou duas das principais alianças sunitas a suspenderem as negociações para a formação de um governo de unidade, mas depois de o primeiro-ministro indigitado, Haider al-Abadi, ter lançado um apelo à unidade, os partidos entenderam-se para a realização de um inquérito ao incidente, cujos resultados devem ser divulgados dentro de dois dias.

Gestos que não impediram retaliações no terreno. Ainda na sexta-feira, um bombista suicida lançou um jipe carregado de explosivos contra um ajuntamento de soldados e milicianos xiitas, matando nove pessoas. Um método semelhante ao usado para atacar neste sábado um quartel dos serviços de informação em Bagdad – nove pessoas morreram. Horas mais tarde, três carros armadilhados explodiram em Kirkuk, cidade nas mãos dos combatentes curdos desde o início da ofensiva jihadistas, provocando a morte a pelo menos 20 pessoas. A televisão curda noticiou também a explosão de uma bomba em Erbil, a capital da região autónoma, sem revelar número de vítimas.