Madredeus

Por um tempo, a Teresa Salgueiro era a aparição possível. Uma rapariga do campo na cidade, com ar de fruto fresco, uma benignidade intensa feita de tristeza e candura, como a voz que pudesse redimir a própria tristeza, fazer dela um tesouro. Num folclore requintado, como até então não parecia plausível, era dois palmos de corpo, pequenina e penteada, da família também dos pássaros, feita de timidez e contenção igual a alguns pardalitos.
Por um tempo, a Teresa Salgueiro representou uma portugalidade feita de memória, mas capaz da vanguarda. Ela era o património nacional da voz. O timbre mais delicado. O fado e a canção do campo juntas, que é o mesmo que dizer a voz do trabalho e do tempo vadio juntas e pertinentes. Que é o mesmo que dizer o povo inteiro junto.
A criação dos Madredeus é apenas comparável com os legados de Carlos Paredes, José Afonso ou Amália Rodrigues. Eles existiram por maturação da identidade nacional. São modos de ser português. Mais do que uma ilustração, eles são indutores, motivadores, justificam um orgulho inteligente em pertencer a um colectivo e a um lugar. Os Madredeus, como todos os grandes mestres da arte, trazem sempre uma questão de fé.

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Por um tempo, a Teresa Salgueiro era a aparição possível. Uma rapariga do campo na cidade, com ar de fruto fresco, uma benignidade intensa feita de tristeza e candura, como a voz que pudesse redimir a própria tristeza, fazer dela um tesouro. Num folclore requintado, como até então não parecia plausível, era dois palmos de corpo, pequenina e penteada, da família também dos pássaros, feita de timidez e contenção igual a alguns pardalitos.
Por um tempo, a Teresa Salgueiro representou uma portugalidade feita de memória, mas capaz da vanguarda. Ela era o património nacional da voz. O timbre mais delicado. O fado e a canção do campo juntas, que é o mesmo que dizer a voz do trabalho e do tempo vadio juntas e pertinentes. Que é o mesmo que dizer o povo inteiro junto.
A criação dos Madredeus é apenas comparável com os legados de Carlos Paredes, José Afonso ou Amália Rodrigues. Eles existiram por maturação da identidade nacional. São modos de ser português. Mais do que uma ilustração, eles são indutores, motivadores, justificam um orgulho inteligente em pertencer a um colectivo e a um lugar. Os Madredeus, como todos os grandes mestres da arte, trazem sempre uma questão de fé.

Lembro-me de os ver no Coliseu no início dos anos 1990. O silêncio espiritual que se fazia para se ouvir cada nota. Estávamos no imenso Coliseu transformado numa catedral em que a adoração em causa passava por uma espécie de apaziguamento com o destino português. Podia ser que a religião fosse apenas aquilo, ganhar consciência de que há uma alma nacional e que vale a pena pertencer-lhe, sem que isso signifique um nacionalismo bacoco, ensimesmado.
Não se batiam nem palmas antes do tempo. Esperava-se até ao último som para que se fizesse uma estridência arrebatada. Zangavam-se as pessoas quando alguém ofendia a solenidade do concerto. Acho que gosto desta palavra para o caso dos Madredeus, a solenidade. Porque há coisas que valem a pena assim, a sério, boas e a saber bem, mas a sério, por respeito. Penso agora que há-de ser o que assiste a Carlos Paredes e a José Afonso, também a Amália Rodrigues e a outros poucos que possam caber nesta preciosíssima escolha, como Fausto Bordalo Dias ou José Mário Branco. Fizeram da canção algo de raiz popular, mas ascendendo a uma certa erudição. A uma depuração admirável que permite, ao mesmo tempo, o reconhecimento do público menos e mais exigente. Aquilo que, pela qualidade, chega a todos, se torna de todos.

Enfim, o que quero dizer é que nos faltam os Madredeus, falta-nos Teresa Salgueiro, talvez vista hoje como uma figura étnica obsoleta quando comparada com as fadistas que entraram outra vez, e bem, no coração dos portugueses. O que quero dizer é que me faz aflição um mundo onde a Teresa Salgueiro possa desperdiçar-se. Como a maluca da Elizabeth Frazer, que se fechou de monja e não quer saber de usar a voz incrível que tem. Burra. É claro que o caso de Teresa é diferente, tem gravado, está linda de morrer, mas há qualquer coisa que se gastou. Gostava que houvesse um tribunal para mandar prender quem estragou o que se estragou e se voltasse a compor. Urge que se componha.

Depois, havia uma moça que se emocionava atrás de mim e não era a única. Mas, para o fim, quando batíamos palmas e exclamavam todas as pessoas a maravilha de ali estar, ouvi a moça a dizer ao namorado que achava ter entendido algo pela primeira vez. Dizia assim. Dizia que gostava, afinal, sem dúvida alguma, de ser portuguesa. Posso andar muito mas nunca deixarei da minha bagagem essa impressão. Do concerto do Coliseu e dos que haveria de assistir ao longo de anos. A impressão de que, assistindo apenas, estávamos como que participando, porque de verdade nos sentíamos todos representados. Orgulhosamente representados.

Andei estes dias a ouvir a Beatriz Nunes, que é linda. E andei a sentir saudades. Talvez já não exista um modo certo para as coisas e o futuro precise de ser eminentemente errado, ou menos certo. Mas acredito piamente em milagres. Esses instantes que, subitamente, tornam o impossível a mais pura das realidades. Às vezes, os milagres são até fáceis. Mesmo, mesmo.