Geopolítica da obesidade

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O brasileiro Josué de Castro, antigo presidente da FAO, publicou em 1951 um clássico intitulado Geopolítica da Fome. Hoje teria de emendar: “Geopolítica da fome e da obesidade”. Na quarta-feira, a revista médica Lancet publicou um estudo, cobrindo 188 países, sobre a evolução da obesidade entre 1980 e 2013: o número de pessoas com excesso de peso passou de 857 milhões para 2,1 mil milhões. Ao mesmo tempo, a fome continua, mas a descer paulatinamente: atinge hoje 842 milhões de pessoas, menos 156 milhões do que em 1990, precisa o Programa Alimentar Mundial.

Emmanuela Gakidou, coordenadora do estudo da Lancet, sublinha que o fenómeno há muito deixou de ser próprio das sociedades ricas. No top ten da praga continuam naturalmente os Estados Unidos, mas também a Alemanha e países emergentes: México, China, Índia, Rússia, Brasil, Egipto, Paquistão e Indonésia. O Médio Oriente é a região em que a progressão dos “gordos” foi maior desde 1980: sobretudo Bahrein, Egipto, Arábia Saudita ou Kuwait. E também na África do Norte, na América Central ou nas ilhas do Pacífico. “Ao contrário de outros riscos sanitários maiores, a obesidade não recua no mundo”, frisa Gakidou.

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Meninos chineses sábios fazem “autocrítica” comendo melancia Corbis

Um outro estudo publicado em Janeiro, do Overseas Development Institute, assinalava: “O que mudou é que a maioria das pessoas obesas ou com excesso de peso encontram-se mais nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos.” A globalização e a prosperidade dos emergentes arrastaram uma “transição nutricional”, uma mudança de comportamento alimentar a um ritmo alucinante: mais densidade calórica e energética, mais gorduras e açúcar. As doenças ligadas à obesidade ameaçam os sistemas de saúde desses países. Os chineses e todos os outros “globalizaram” a sua mesa. Por que não o haviam de fazer depois de terem sido sociedades de escassez e traumatizadas pela fome? Os jovens que na infância sofreram de subnutrição são os que mais facilmente se tornam obesos. O corpo humano tem memória.

Longe vai o tempo da “gordura é formosura”, em que um corpo gordo e uma barriga saliente eram símbolo de prestígio e riqueza. Eram-no ainda nas aldeias europeias há menos de um século. E antes disso: lembram-se das Vénus de Ticiano ou das mulheres de Rubens? No século XVIII, o das Luzes, o gosto urbano começou a mudar. Hoje, a sociedade vinga-se do fantasma da obesidade na anorexia dos modelos. O corpo humano não só exprime os gostos e constrangimentos da época como as mudanças e as tensões entre ricos e pobres do mundo.