Passadoras de homens e outras aventureiras

O êxodo para França durante o Estado Novo é uma história que se ouve contar no masculino, mas as mulheres também estiveram envolvidas na angariação, na passagem e no transporte de emigrantes clandestinos.

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Já lá vão mais de 50 anos e a irmã mais velha de José Gonçalves ainda fica levada do diabo quando lhe falam nisso. “Foi embora sem dizer nada aos pais! A minha mãezinha berrava muito! Ai, o que me havia de fazer o desgraçado!” Estaria preso? Estaria morto? Só pedia “que a bênção de Deus o cobrisse”.

Em Castro Laboreiro, na serra da Peneda, qualquer família que se prezasse tinha casa de Verão e casa de Inverno. Os pais já tinham ido para a casa nas brandas, nome dado aos lugares que pontuam o planalto. José ficara com uma irmã e uma sobrinha nas inverneiras, os lugares que polvilham o vale, de clima menos inclemente. A menina carecia de leite e lá estavam as cabras e as ovelhas.

A casa resiste. Paredes de cantaria a fazer dois pisos. Por cima, gente; por baixo, gado e alfaias agrícolas. Andava por ali quando deu de cara com dona Prazeres. Capucha de burel enfiada na cabeça, tamancos toscos seguros aos pés por correias, vinha perguntar-lhe se sempre queria ir para França, como lhe confidenciara. 

Homens robustos, tantos deles de mãos ásperas, passavam há muito por Melgaço. Mais a partir de 1961, com a eclosão da guerra em Angola que se haveria de estender a todas as colónias. Obter um passaporte de emigrante era difícil. A maior parte avançava com passaporte de turista, passaporte falso ou “passaporte de coelho”, isto é, sem documentos, “a salto”. 

José tinha 16 anos “mal feitos”. Não queria ir para a guerra. Não era homem de guerras. Nem queria fazer vida de enxada na mão. Tinha braços rijos e alma escorreita. Sabia bem o que faziam os iguais a ele. Ali, em Castro Laboreiro, cobriam-se de preto as mulheres de todos os que abalavam. 

Deteve-se na ponte de Varziela, estrutura medieval, de granito, com um arco em forma de cavalete, a pensar se haveria de falar com os pais, como combinara com dona Prazeres. O velho ia dar-lhe com um não. Por vontade dele, esperaria pela carta de chamada de um primo, mas José não queria ir para ao pé desse, conhecido por “morto de fome”, queria o outro, o que havia pouco ali estivera de férias. 

Decidiu partir sem uma palavra. Passou pela mercearia da vila. Pediu um par de calças, uns quantos lenços, uns cigarritos para pôr na conta do velho. À hora combinada, estava junto de dona Prazeres. “Vais sempre a andar 200 metros à minha frente por causa da Guarda Fiscal”, ordenou-lhe ela. Nem só ela se arriscava. Dois meses depois do ataque da União das Populações de Angola, que desencadeou a guerra colonial, emigrar sem permissão tornara-se crime punível com dois anos de prisão. Na casa isolada na montanha a que ela o conduziu, cinco homens aguardavam passador espanhol. 

Migalhas de pão com chocolate

Que estirada comprida aquela! Um mês lhe tomou. Fevereiro de 1962, um frio danado. Caminhavam tanto que até se aqueciam. Dá-lhe que dá-lhe. Só souberam o que era carro para lá de Ourense. Nem sabe dizer o nome dos lugares pelos quais passaram. Atravessaram baldios, campos de cultivo, vinhas com arames aguçados. Ficou com as calças num trapo. E habituado estava ele a andar com o gado na serra. Saltava como um cabrito. Podiam ficar dias, escondidos, à espera do momento certo para voltar a andar. Furavam a noite. Luziam-lhes os olhos. Dormiam em palheiros ou em currais. Deitavam-se uns colados aos outros. Mal se esticavam irrompiam em roncos.

O grupo ia engrossando. Antes de chegar aos Pirenéus, José alcançou o alfaiate que saíra da sua terra 15 dias antes. “Ia estafadinho. Era um fracote.” Inquietou-se com aquele pobre de Cristo. “Eu ouvira dizer que muitos passadores atiravam aos corgos, ao rio, a um buraco qualquer quem não chegava a reagir de andar. Ia sempre atrás dele. Vinha o passador, chicoteava-me para passar para a frente. Nunca o deixei. Levava umas chicotadas, ia para a frente, mas voltava para trás.” 

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Entrando em França, arrumaram-se 73 ou 75 homens num camião. No semi-reboque, bidões faziam de retrete. Naquele aperto fétido, fungavam alguns machos, tantos já maridos, por vezes pais. “Coragem”, eis a palavra que ainda agora lhe ocorre. Era para tirar o ventre de misérias que caminhavam em direcção ao desconhecido, sem saber francês, de mãos a abanar, com uma morada no bolso. 

Para prevenir maltrato e abandono, muitos tinham deixado parte do dinheiro da viagem em casa de pessoa de confiança. Ela entregaria as notas ao engajador depois de receber uma carta ou parte de uma fotografia rasgada. José nem isso. O pai, que dona Prazeres tão bem conhecia, que lhe pagasse.

Mandou notícias mal se juntou ao primo. Contou aos pais que levara muito tempo no caminho, comendo apenas “migalhas de pão com chocolate”. Passara fome. “Vira-me aflito para fazer do corpo.” Perante tal relato, em vez de 8500 escudos ajustados com dona Prazeres, o pai entregou-lhe 8 mil. “Não faças isso, esse é o ganhinho dela”, pediu-lhe a mãe. Tinha razão, era a sua parte. O dinheiro teria de se dividir por todos os que guiaram o moço até Versalhes. Sem o marido saber, a mãe pagou os 500 escudos à angariadora, mulher sem homem, com filhos.

Mão-de-obra excedentária por capital estrangeiro

Era invisível a actividade feminina, não paga, no meio rural. Isso servia o ideal de família acarinhado pelo Estado Novo — notou Carolina Leite na tese Eva, depois do paraíso/ Modos de habitar e identidade no percurso migratório, defendida na Universidade do Minho em 1998 —, mas tinha um reverso. A ideia de mulher submissa e devota tornava-as, pelo menos à partida, insuspeitas…. 

De todo o país saía gente, cada vez mais gente. Já não iam tanto atrás do sonho transatlântico, como nos anos 1950. Sonhavam com o Luxemburgo, com a Alemanha, com a França — sobretudo com a França. Era perto, tinha fronteira permeável, volta e meia vinha de lá alguém a contar histórias, como o primo de José.

Desde os anos 1940 que os esforços de reconstrução da Europa exigiam abundante mão-de-obra. Numa primeira fase, muito contribuiu o Leste para suprir a escassez de braços para tanto desenvolvimento técnico e industrial. Com a construção do muro de Berlim, em 1961, o Sul podia assumir maior papel. 

As autoridades francesas facilitavam a entrada e a regularização de indocumentados portugueses. Depois das vagas italiana e espanhola, julgavam estar perante os últimos imigrantes europeus, explica Marta Nunes Silva, a fazer doutoramento na Universidade Nova de Lisboa sobre Emigração clandestina e Mundo Rural entre 1957 e 1974. Os portugueses pareciam-lhes mais assimiláveis do que os magrebinos, sobretudo argelinos, que iam chegando. 

Era “dúbia” a postura do Estado Novo. Apesar de em 1963 ter assinado com França um acordo de migração de trabalhadores, Portugal dificultava os processos de autorização de saída. Não por acaso, diz a historiadora. Travava uma guerra no ultramar, mas importava-lhe manter boas relações com França, que até lhe vendia material bélico. E dava-lhe jeito trocar mão-de-obra excedentária por capital estrangeiro.

Se o regime quisesse mesmo suster o fluxo, teria vigiado mais as fronteiras e tratado de perseguir melhor os infractores. A polícia política — escreveu Victor Pereira, no livro A Ditadura de Salazar e a Emigração, que está a chegar às livrarias — mais queria “perseguir os militantes comunistas para proteger o país da ‘subversão’ ou ‘combater a rebelião em África’ para defender o Império do que vigiar a fronteira e a saída de milhares de camponeses”.

O Estado Novo não se esforçava para frear a saída dos homens, mas obrigava-os a um esforço tão grande que pouquíssimas mulheres se atreviam a partir. “A masculinização da emigração e a separação temporária do núcleo familiar asseguravam o envio de divisas dos trabalhadores para Portugal e a manutenção de uma estratégia migratória orientada para o regresso”, escreveu o historiador.

A pequena Raquelinda

Entre 1960 e 1974, um milhão e meio de portugueses, um sexto da população residente, saiu de Portugal. O movimento de saídas chegou a ultrapassar os cem mil anuais — em 1969, 1970 e 1971. A França registou a entrada de 293.758. Regularizou a presença de outros 325.974. 

Esvaziavam-se povoações no Minho, em Trás-os-Montes, na Beira Alta, nas ilhas. “As redes ganharam ainda mais espaço nas aldeias, alargaram-se ainda mais da fronteira para o interior”, narra Marta Nunes Silva no livro Os Trilhos da Emigração — Redes clandestinas de Penedono a França, lançado em 2011. Nem só os homens aproveitavam a geografia de Melgaço para ganhar algum, como já se viu. Perto do marco de fronteira n.º 1, lá onde o rio Trancoso encontra o rio Minho e Portugal começa, labutava a Raquelinda Pereira, pequena, franzina, de sobrancelhas arqueadas, um nariz que é uma graça.

Sempre andou na lida, sempre foi “governadeira”. Nem agora, aos 81 anos, quase confinada à casa, tira a bata. Instalou-se ali, no lugar de Cevide, para melhor fazer o seu contrabando. Aos sete anos, já ia com os irmãos à vila buscar uma barra de sabão para passar aos galegos. Trazia-a às costas, “toda contente”, numa “mochilinha” que lhe fizera a “mãezinha”. Com isso, já “ganhava um pouquinho”. 

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“Viciei-me nisso”, diz a mulher, já curvada, desdentada, no seu português cantado. Parece-lhe que passou “de tudo quanto havia” de cá para lá, de lá para cá, conforme as necessidades de um lado ou de outro. E, um dia, era já uma “adultona”, pôs-se a passar gente. 

Não era uma originalidade. Na raia luso-espanhola, muitas redes de emigração clandestina eram extensões de redes de contrabando. Quem passava azeite, café, amêndoa, não podia passar gente? Eram os mesmos caminhos, os mesmos códigos, a mesma necessidade de escapar às autoridades, como observa o sociólogo Albertino Gonçalves, investigador da Universidade do Minho com várias publicações sobre esta matéria. Dali até saíra volfrâmio com destino à Alemanha nazi.   

Raquelinda não era de medo, era de antecipar manhas alheias. Comprou uma pistola de pequeno porte e elevada potência. Uma 6.35 mm. “Gostava muito dela.” Não a largava. “Havia que ter respeito. Aqueles homens todos sem a gente conhecer… Alguns eram maus.” “A gente não lhes podia confessar medo.” 

Iam os moços à frente, por ali abaixo. O que ela queria era que “fossem direitinhos, como as ovelhas quando se botam num rebanhinho”. Tinham de ir por carreiros, tantas vezes estreitos, por vezes íngremes. “Tinham de passar por onde calhava.” Lembra-se de os ouvir resmungar: “Isto é que é o caminho?” Empunhava a pistola, se necessário fosse. Dizia-lhes: “Vamos! É por aqui. Vamos!” 

Parece fácil agora que, ali, no lugar de Cevide, a fronteira é uma ponte e a casa da Guarda Fiscal é uma casa de férias. Quando o rio Trancoso ia minguado, dava para saltar de penedo em penedo. Quando engrossava, era o diabo. Impunha-se andar pela margem acima. O que lhe valia é que não faltava para onde. Melgaço tem 39 quilómetros de fronteira fluvial, 22 quilómetros de fronteira seca. 

Um padre de Braga enviava-lhe homens. Por vezes até lhos trazia. A notícia propagava-se de boca em boca: “Ai a Raquelinda põe na França.” E lá lhe apareciam mais homens, jovens, pouco escolarizados, sobretudo nortenhos. “Havia camionetas e comboio de Monção para baixo.”

Andava a “adoçar o bico aos polícias”, para que eles não a tivessem no seu ponto de mira, e mesmo assim arriscava-se a ser fechada numa cela, sem ver sol nem lua. Uma vez, um dos homens “perdeu-se do rebanho” ou arrependeu-se de o seguir e quis voltar para casa, já nem sabe. Em vez de se sumir no campo de milho, entregou-se à Guarda Fiscal. “Paguei-as todas eu!” Sentou-se com as duas ajudantes no banco dos réus. “Tivemos uma querela com os juízes. Tivemos toda a noite no tribunal. Nós chorávamos. Nós fazíamos tudo para que nos dessem a mínima pena.”

Cumpriu 23 meses de prisão e pagou 18 contos de multa. Esteve primeiro na cadeia de Monção. “Havia lá cada rato! Grandes, com rabo comprido! Ai! Quem estava lá tinha-lhes medo.” Pediu transferência para Melgaço. Sempre ficava melhor. Os “paizinhos” iam visitá-la com o “filhinho” dela, ainda pequeno.

Não dava para enriquecer. “Era uma vida triste e alegre, de ganhar dinheiro mas também de o perder. Era um jogo”, resume. “Pagavam conforme podiam, coitados. Alguns eram pobres, não podiam pagar. Alguns iam pedir emprestado e depois pagavam juros. E, pronto, fiquei sem muito dinheiro porque não mo deram. Foram-se embora! O que quiseram foi apanhar-se na França. Depois, adeus.”

A reacção das autoridades ao auxílio à emigração clandestina era mais severa do que ao contrabando. Dizia-se que fazer contrabando “era crime, mas não era pecado”. Na imprensa, sujeita à censura prévia, os passadores eram tomados por mafiosos. O regime usava-os como bodes expiatórios do êxodo. Tentava, escreve Victor Pereira, “preservar, a qualquer preço, a imagem de Épinal do povo bom e inocente”.

A Raquelinda não picavam os remorsos, como as pulgas. “A gente ia por aí acima de cara a Castro [Laboreiro], a gente via essas casas de palha por cima. Plantava fogo às vezes naquelas casas. Era uma desgraça. Ardia gente e tudo! Depois começaram a ir para França. Toda a gentinha a mandar um dinheirinho para cá. E toda a gente a governar-se bem. Começaram a fazer casas. Agora quem vai de cara a Castro [Laboreiro] vê cada casa… cada casa importante. Tudo à conta do emigrante, dos aventureiros que fomos nós, que nos arriscámos a ir para a prisão!” 

Quando saiu da prisão, falou com o espanhol a quem antes entregava os homens para que os guiasse até outro, que os haveria de ajudar a saltar a fronteira franco-espanhola. Pediu-lhe: “Põe-me na França lá donde uns parentes meus.” E ele levou-a — e às duas ajudantes — de carro. Sorte a dela que já decorria 1965. Até então, poucas mulheres se tinham atrevido a ir “a salto”. Ir “a salto” implicava passar muito tempo com desconhecidos, em idade viril, em casebres e camiões. O povo falava muito. Mulheres houve que perderam “a honra” pelo caminho. 

Naquele ano, os espanhóis acordaram com os franceses a facilitar a entrada e estadia dos portugueses em Espanha e a sua passagem para França. Em Espanha, bastava-lhes apresentar um documento de identificação para receberem um salvo-conduto que lhes permitia permanecer no país 30 dias. Com isso, podiam ir até à fronteira franco-espanhola: os agentes franceses atribuir-lhes-iam um certificado de controlo, que teriam de apresentar para regularizar a sua situação.

Queixavam-se os espanhóis de gastos com detidos portugueses que Portugal pouco punia. E estavam cansados os franceses do estado deplorável em que lhe chegavam os portugueses. A uns e a outros parecia ajuizado diminuir a necessidade de passadores em Espanha e dispensá-los na fronteira com a França. Na gare de Hendaia (Irún) instalou-se um centro de acolhimento de migrantes.

Portugal reagiu. Em 1966, intensificou a pena de auxílio à emigração clandestina. O que antes ia até dois anos de prisão passou a ir de dois a oito. Vida mais arriscada para engajadores, transportadores e passadores. Viagens mais cómodas para clandestinos, que passaram a usar mais o comboio, a camioneta ou o carro. Um incentivo ao reagrupamento familiar e à emigração de mulheres solteiras, como Raquelinda. 
A presença das mulheres intensificou-se. Essa tendência foi em crescendo até 1968, ano em que saíram mais mulheres com documentos em ordem do que homens. 

Passaportes na cinta

Naquela época, era vulgar motoristas prestarem serviços a engajadores e passadores. Nas suas investigações, a PIDE e a guarda esforçavam-se por perceber até que ponto eles estavam envolvidos nas redes de auxílio à emigração clandestina, até porque o veículo reverteria para o Estado. Alguns tornavam-se autónomos. Seixo, que tantos homens conduzira até Raquelinda, foi um deles. 

Vivia na freguesia de São Gregório, como Raquelinda. Mal se casou com a sobrinha, Lurdes Durães, meteu-a no negócio. Era uma rapariga de face rosada, olhos castanhos, ternos, magra como um pau de virar tripas. “Quarenta quilos era o meu peso”, diz ela. Óptimo para o disfarce. “Usava uma cinta para levar os passaportes falsos.” Quem os fazia era o padrinho dela, exímio na arte de copiar. Punha o nome e os carimbos de saída de Portugal e de entrada em Espanha. 

Lurdes ia com o marido buscar gente “a Monção, a Paredes de Coura, a Braga, ao Porto, aonde fosse”, e entregava-a a um passador, perto de casa. O homem esperava-os à hora combinada nas casas de banho, atrás da escola. Não havendo guarda, desaparecia em menos de um ámen. Havendo, fazia tempo por ali. O casal apanhava-o no outro lado da fronteira e transportava-os até Ourense, de onde seguiam, de camioneta ou comboio, até à fronteira franco-espanhola.
O taxista chegava a ir a Espanha duas vezes no mesmo dia. Estava convencido de que levantaria mais suspeitas se viajasse sozinho. “Onde ides?”, perguntava o guarda. “Vamos ali buscar pão.” Quando tiveram o filho, ia o bebé ao colo da mãe. “Onde ides?” “Ai, vamos com ele ali ao médico.” 

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Quando iam a Monção buscar gente, serviam-se do palácio de Brejoeira, faustosa construção com 18 hectares de vinha, oito de bosque, três de jardim. Seixo estacionava no fim do muro. Ao vê-los ali, havia quem parasse a perguntar: “Precisa de alguma coisa?” Para se livrarem disso, encenaram um enjoo. “Eu saía, ia para aquele terreno devoluto como se me encontrara mal.”

Era cada susto. Um dia, passaram uma rapariga de Paredes de Coura, forte, alta, tão alta que quase não cabia no carro. Vestia um casaco de “uma malha muito fininha, forrado com esponja”, de um azul tão forte que fazia doer os olhos de Lurdes, e trazia uma mala recheada, “como se fosse para férias”. Abriram-lha, tiraram de dentro o que podiam levar. Arrumaram tudo dentro de uns sacos. 
— É Inverno, a mulher vai ter frio, veste o casaco dela — terá dito Seixo à mulher.  
— Está bem.

Naquele dia, quando o marido foi mostrar os passaportes, o polícia de serviço puxou conversa com ele. À porta, a fumar um cigarro, estava o chefe. Atirada a beata, aproxima-se dela: “Levas um casaco muito bonito!” Ela tremeu como varas verdes. 

O coração aos pulos

Tantas vezes andava ela com o coração aos pulos. Nenhuma como quando levou duas raparigas dos Arcos de Valdevez. Ali em Frieira, para lá da casa de Raquelinda, costumavam estar dois carabineiros. Apareceram “um senhor de bastante idade e um rapaz novo”. Lurdes gosta de olhar para as pessoas nos olhos, mas aqueles não. Ficava virada para a frente, “direitinha”, como uma criança amedrontada. O marido abriu a gaveta do tablier, tirou os passaportes de ambos e entregou-os. 
— E elas? — perguntou o mais velho, de olho nas raparigas que iam no banco de trás. 
— Elas são nossas vizinhas, iam ao médico a pé a Ourense e nós tivemos pena delas e demos-lhes boleia” — respondeu ele.
O mais velho ordenou-lhes que saíssem do carro e que os acompanhassem ao posto. Lurdes até pensou que o seu coração ia rebentar. “Eu olhei, dei com os olhos do senhor novo. Ele viu tanta aflição, tanta aflição na minha cara que deitou a mão ao ombro do outro e disse: ‘Vamos embora, deixa-os ir’.”

Seixo sabia o que era a prisão. Antes de se casar, fora preso pela PIDE e levado para o Porto, onde amargara 45 dias. Um cliente fora detido na fronteira franco-espanhola e denunciara-o. A notícia viera por ali abaixo. Passara o regato com duas crianças da família. Negaram tudo. Negar era a sua única defesa. 

Quando a luz eléctrica chegou à aldeia, em 1969, talvez 1970, Lurdes e o marido mudaram de vida. Abriram um café, mesmo ao pé da PIDE. Compraram um segundo táxi. O motorista contratado para o conduzir ainda transportou alguns clandestinos, mas poucos. O contexto era outro. 

Salazar caíra da cadeira de lona, no Forte de Santo António, no Estoril. O país vivia a Primavera Marcelista. Logo em 1969, a emigração clandestina deixou de ser crime — passou a contra-ordenação punível com multa, a não ser que se estivesse a escapar ao serviço militar. Qualquer interveniente na emigração clandestina sujeitava-se então a 18 meses de prisão — mais se ganhasse dinheiro com isso.

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No café de Lurdes, o chefe da PIDE sentava-se sempre na mesma mesa, de costas para o balcão. Se entrasse um desconhecido, ela adivinhava ao que vinha. Punha-se a olhar para ele. Esticava o dedo médio e o indicador e levava-os ao ombro. Nem todos decifrariam tal gesto, mas, se para ali ficassem, quietos, com ar de quem nem sabia o que fazer, o PIDE levantava-se e saía. Se tivessem dinheiro, Lurdes chamava-lhes o passador. Se não, ensinava-lhes o caminho. 
Não acredita Lurdes que enganava a polícia. “As pessoas não eram parvas, fechavam os olhos porque queriam.” O historiador Victor Pereira também está convencido de que a corrupção não explica tudo o que se passava na fronteira. Muitos agentes conviviam desde pequenos com aquela realidade, alguns tinham “entre os seus mais próximos, passadores, contrabandistas ou emigrantes clandestinos”, alguns até já tinham feito parte do negócio antes de entrar na polícia.

Um “perfume de desobediência”

Portugal era um país pobre, conservador, rural, de certo modo feudal. Os “senhores das terras” defendiam com unhas e dentes a política oficial de enclausuramento. Em Melgaço, chegaram a fazer manifestações a exigir que a PIDE combatesse melhor a emigração clandestina. 

Por pressão das elites é que municípios como Penedono, no extremo oriente do distrito de Viseu, limitavam a concessão de contratos de trabalho no estrangeiro. Alegava aquela autarquia falta de mão-de-obra. Em 1962, mandou até recolher os passaportes dos que costumavam fazer a campanha da beterraba em França. Sobravam braços para trabalhar, só que a mais elevado custo. Havia na emigração clandestina, como escreveu Victor Pereira, um “perfume de desobediência”.

Adolfo Gouveia morava lá, em Penedono, na aldeia das Antas. Quando fala na partida, diz: “Fugi”. Diz: “Fugida.”
Quis a má sorte que Março de 1963 fosse entremeado de chuvas que encharcavam até aos ossos. Mais de um mês de voltas e reviravoltas, barrigadas de fome, imundície como nunca vira. Em Penedono, já pensavam que ele e os dois irmãos tinham sido presos pela Guarda Civil. Ficavam tantos moços presos na província de Girona, na Catalunha, já a chegar à França desejada. 

O pai era pedreiro, mas “não tinha organização na vida”, “derretia tudo na taberna”. A mãe, “coitadinha, era aleijada”. Deu à luz 13 vezes — vingaram-lhe dez filhos. Agoniava-se para calar a fome de uns ainda a gatinhar, de outros já a andar. “Passei muita fominha até à idade de 12 anos.” Nem aprendeu a ler e a escrever. 

Pequenito, tratava de sobreviver. “Havia aí esses ricos. Andava eu à volta com a égua ou com o burro. Tantas voltas dava eu como o burro.” Era assim que arranjavam água para regar naquela terra de Invernos gelados e Verões abrasadores. “Ali já me davam mais um bocadito de pão.”

Foi naquele fadário que conheceu Maria Zélia. Ela era “criada de servir” desde os nove anos. Os patrões dela tinham moagem. Ele ia fazer sulcos nas mós — picar as pedras maciças, em forma de anel cilíndrico achatado, usadas para moer cereais. Ela ia levar-lhe uma malga de caldo e um pedaço de pão. 

Não queria viver como se fosse sempre quaresma, o tempo de oração, jejum e abstinência que no calendário cristão antecede a Páscoa. Estava certo de que a única forma de mudar de vida era sair dali, das terras do demo, como lhe chamava o escritor Aquilino Ribeiro, nascido na vizinhança, em Sernancelhe. 

Muitos começavam por ir para as cidades. Adolfo ainda foi para Lisboa trabalhar na ponte sobre o Tejo, a actual Ponte 25 de Abril, que chegou a chamar-se Ponte Salazar, mas desistiu ao fim de uma semana. Não sabia nadar. O rio, ali, parece mar. Temia morrer afogado. Melhor lhe parecia ir para França. 

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Canseira inútil tentar arranjar passaporte de emigrante. A Junta de Emigração exigia carta de chamada de um parente até terceiro grau, trabalho e alojamento no país de destino, autorização de entrada, situação militar regularizada, saúde, habilitações. Nada Adolfo tinha a não ser saúde. E, mesmo que tivesse, fazer um passaporte era um dinheirão. Dava para comprar “um prédio”.

Não lhe faltava vontade. “Não tenho dinheiro, como é que há-de ser?”, matutava. Quantos iam pedir “a esses ricos”, que para ali havia, e voltavam para trás, com o rabinho entre as pernas? Ainda podiam fazer queixa deles à polícia. Seria uma humilhação, mais uma, que diabo, mas que lhe restava? Encheu-se de coragem e foi bater à porta de um. Ali, na aldeia das Antas, havia dois. 
— Se o senhor me fizesse o favor, eu queria ir para a França, mas não tenho dinheiro — ter-lhe-á dito. 
— Então, quem fica por ti?
— Quem fica por mim tem de ser eu, porque não tenho ninguém para ficar por mim. Tem que o senhor fazer confiança.
Largou a aldeia com “as mãos debaixo dos braços”. O dinheiro ia atado à barriga num bolso que a mãe lhe fizera. A “fugida” levou-lhe mais de um mês. Um dia depois de um camionista o ter despejado num dos muitos bidonvilles, os bairros de lata nos arredores da luminosa Paris, já estava a trabalhar. 

O “salto” fora só o começo. Logo nos primeiros dias, o cimento ardia-lhe como lume nas costas. O que lhe valia era ter a força de um cavalo. Era capaz de levar dois ou três sacos, de 50 quilos cada um. Podia parar para arrefecer os ombros. Os dois irmãos que com ele tinham ido não se atiravam a tanto. Andavam numa aflição. Ao cabo de três ou quatro dias, tinham a pele “toda queimadinha”. Mudaram de trabalho. Sobrava. 

Numas férias, na terra, falou a Maria Zélia, mulher pequena, de rosto redondo, cabelo anelado. Aperaltou-se todo. Vestiu “uma casaca nova” comprada com dinheiro ganho em França. Durante um ano, trocaram cartas. O pudor ditava-lhes o tom. Um amigo de Adolfo lia-lhe o que ela lhe escrevia e escrevia-lhe o que ela iria ler. “Eram umas cartas normais”, recorda ela.

Quando se casaram, em Janeiro de 1968, ele já comprara uma casinha à saída da aldeia. Ainda a têm. Ainda guardam o fato de casamento dele, a grinalda dela, a cama na qual dormiram juntos pela primeira vez. E a mala de latão, vermelha, com que ela viajou até França, um ano e meio depois.

Ele já tinha a situação regularizada e nem assim conseguiu levar a mulher pela via legal. Era assim com quase todos. Interessado em garantir as remessas dos emigrantes, o antigo regime continuava a dificultar o reagrupamento familiar, escreve Vanda Santos na obra O Discurso Oficial do Estado sobre a Emigração dos anos 60 a 80 e a Imigração dos anos 90 à Actualidade (2004). 

Com o bebé ao colo

Os angariadores iam sendo substituídos por familiares, amigos ou conhecidos que vinham de “vacances”. As redes, essas, explica Marta Nunes Silva, tornaram-se menos estruturadas: transportadores associavam-se para fazer chegar as pessoas a França. Com frequência, o “salto” para Espanha combinava-se já perto da fronteira. Bastava ir a uns cafés ou a umas tabernas para encontrar passador. 

Para evitar surpresas, o casal recorreu ao homem que meia dúzia de anos antes passara Adolfo por um dos carreirinhos que levam de Vilar Formoso a Fuentes de Oñoro. Maria Zélia ia atrás dele, com o bebé ao colo, a irmã solteira ao lado. De súbito, dois carabineiros, tesos, sérios. O passador esfumou-se. “Nem o vimos. Passou pelas fragas fora, já com o dinheiro na mão.” A tremer, elas despejaram a desculpa antes imaginada: iam mostrar a criança ao pai, que ainda não a conhecera.  

“Muitas questões” colocaram os carabineiros a Maria Zélia e à irmã. “Tiveram-nos ali para aí duas horas até que viram berrar tanto a criança que lá nos indicaram o carreiro.” Adolfo esperava-as num café. “Lá fomos para ao pé de um aquecedor para mudar a criança que ia toda numa miséria.” Por ali ficaram até à hora do Sud Express, que há dezenas de anos ligava Lisboa a Paris — na verdade Lisboa a Irún, já que aí, devido à diferença de distância entre carris, outra composição prosseguia. 

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“Nos princípios ainda custou muito”, diz ela, franzindo o nariz. “Para a gente se adaptar e, depois, sem saber falar...” Apertavam-se na barraca de madeira. Quando se mudaram para “uma de três peças” já “era melhor”, mas não deixava de ser um casebre, num bairro de lata insalubre, sobrelotado. Homens e mulheres faziam as necessidades num buraco de madeira partilhado. 

Tiveram as três filhas umas atrás das outras. Enquanto as miúdas foram pequenas, Adolfo não folgou. Via a mulher todas as noites, as crianças nem sempre. “Eu ia a ganhar para elas comerem e para mim também. Ganhava-se pouco. Ia, o que me davam eu ia. Nunca fui malandro. Nem aqui fui malandro. Não tive um sábado. Não fui a um cinema, tantos anos que lá estive, hein! Porque não quis. Para o fim já vivia bem, já podia ter ido, mas queria deixar alguma coisa às minhas filhas…”
“Só uma peia não dá para pagar renda e criar três filhos”, comenta a mulher. Ela começou a trabalhar fora quando a mais nova completou três anos, chegara a França havia cinco. Trabalhou muito. Chegou a ter por sua conta a limpeza de seis casas. “Era terrível. Não sabia por donde começar.” Almoçava pelo caminho, umas sandes ou umas frutas. O que lhe valia é que eram perto umas das outras. 

"Fiquei cheia de homem até à cabeça!”

Muitas mulheres nunca chegavam a juntar-se aos maridos. Cuidavam dos filhos, da casa, dos campos, por vezes sem eles lhes mandarem um tostão. Houve quem tivesse esperado anos em vão. Na aldeia de Castainço, ainda há muita mágoa dessa para resolver. Maria Judite Moreira que o diga. “Casei-me com um leviano. E todos me disseram. Não sei se foi a minha cabeça, se foi o meu destino…”

Ela era costureira. Ele era um indiferenciado. “Naquela altura tudo emigrava para França, de maneira que ele foi para França. Eu fiquei de bebé. A minha filha nasceu no dia 20 de Setembro e ele veio no 24. Tinha a miudinha quatro diiinhas.” Regressou a França a 11 de Outubro.

Nunca esperou que a atitude dele mudasse da água para o vinho. “Eu escrevi. Ele começou a escrever raramente. Eu telefonei-lhe, escrevi-lhe amigavelmente. Diziam-me assim: ‘Olha tu, se fosses à França com a menina, ele não tinha coração de vos abandonar’.” Ela nunca saíra do distrito, mas queria tentar, queria recuperar o marido, salvar o casamento. “Só tinha medo que falassem de mim…” 

Foi “a salto” com uma cunhada e com uma vizinha — assim já nada a vizinhança podia dizer dela. Ele estava com outra. Judite, que já lá tinha um irmão, aparece-lhe com ele, com a cunhada, com a filha, com o motorista, com a mulher do motorista. “Era uma terrinha — Deus dera que fosse como esta nossa — uma terrinha muito ruinzinha.” Na manhã seguinte, tinham os outros saído, ele apontou-lhe uma arma. Ela hoje já não se recorda das palavras exactas, apenas do sentido delas: “Voltai a vir-me buscar que eu tenho com que vos faça.” 

Regressou, desta vez pelo posto de fronteira, sem passaporte, num pranto. “Eu chorava, eu chorava, mas não me fizeram mal nenhum. Eles falavam em francês eu não percebia. Percebi que eu e a petite filha devia querer manger. Mas eu dizia que não, que não queria, a chorar, com a menina ao colo.”

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Uma dor daquelas demora a passar. Às vezes, uma vida inteira não basta. “Eu chorei muita vagada. Eu nunca fui ao Doiro porque meu pai não era rico mas vivíamos bem — vivíamos bem com muito trabalho! Pois, andei no Doiro — eu e a filha. Ia eu, mas também ia a filha! Cá tenho estado, graças a Deus. Nunca investi em homem. Não. Podia-me ter casado. A filha também não queria, mas eu também não. Fiquei cheia de homem até à cabeça!”

Nunca mais o viu, não senhor. Por ela, raios o partam, cem cães o comam. “Deus lá me tem ajudado. Aqui criei a filha. Meteram-me logo em dois empregos porque, não é para me estar a gabar, fui sempre uma mulher honesta. Humilde e honesta. Nunca dei que falar. Vivia na costura. Trabalhava na costura. Depois, ultimamente, já não havia tanta costura, andei no Doiro…”

Nunca viveu noutra que aquela casa pequena, de pedra, paredes pintadas pela humidade. Ali, em Castainço, as gotas de água congelam nos telhados. Nunca mais saiu da aldeia que ainda agora mantém a toponímia do Estado Novo: Rua Dr. Oliveira Salazar, Rua Marechal Carmona, Rua 28 de Maio, Rua da Independência, Rua de Camões. 

Revolução de Abril

Estava cada um no seu fadário quando o chefe do governo de Portugal, Marcello Caetano, se rendeu às forças comandadas pelo então capitão Salgueiro Maia. Era 25 de Abril de 1974. Maria Zélia celebrava 31 anos. A notícia fora dada pelas rádios e televisões e passava de boca em boca. 

Na barraca de Maria Zélia e de Adolfo não se discutia política. A política pouco mobilizava naquele bairro de lata e noutros iguais àquele. Na teoria, notou Victor Pereira, as forças que mantinham os portugueses apáticos desapareciam quando cruzassem a fronteira. Na prática, a maior parte continuava “a adequar as suas conversas, a adequar os seus comportamentos e as suas estratégias em função do Estado português”. Até porque a maioria só quisera “partir para voltar melhor”.

Muitos dos que tinham partido tinham mantido forte ligação à terra. Nenhuma outra geração enviou tantas poupanças. De acordo com a OCDE, “entre 1959 e 1973, o número de emigrantes portugueses cresceu 3,58 vezes e, a preços constantes, o valor das remessas multiplicou-se por 6,2 vezes”. Foi, esclarece Albertino Gonçalves, na viragem da década de 70 para 80 que mais portugueses regressaram. A braços com as consequências dos choques petrolíferos, a França adoptou políticas de incentivo ao retorno. E as mudanças políticas ocorridas geravam esperança de dias melhores em Portugal. Mas a economia não descolou e muitos voltaram a partir, agora mais para o continente americano.

O chefe Augusto Rosa, que trabalhou no posto de fronteira de Vilar Formoso entre 1970 e 1990, lembra-se bem da azáfama. Pior mesmo era Verão e Natal. “Era muito trabalhoso aquilo. Já viu o que era um vagão vir até ao tecto cheio de volumes?” Eram malas, cestos, caixas de cartão. 

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Quando passou Vilar Formoso “a salto”, em 1969, com o enxoval dentro daquela mala vermelha, um bebé de três meses nos braços, Maria Zélia tinha um sonho: “Ter uma casinha.” “Foi a primeira coisa” que fizeram na aldeia. O marido já tinha a pequenina. Construíram uma maior, mesmo ao lado. 

“Enquanto não tive a minha vida meia organizada ninguém me lembrasse de vir para Portugal”, enfatiza Adolfo. Quando a teve, anda que se faz tarde. “Gosto muito de Portugal”, diz ele. Que gosto é aquele? De onde vem aquilo? “Gosto porque foi adonde fui criado. Conheço do fundo acima. Tudo me conhece a mim, pronto. Lá na França, era a familhota e os amigos daqui do povo e nada mais. Era do trabalho para casa. Nós, lá na França, era o tempo dos escravos.” 

Por vontade de Maria, nunca tinham voltado. Sente demasiada saudade das filhas. Vê-as amiúde, mas “não é igual”. “Eu nunca as tinha largado.” Nem pôde fantasiar com a vinda delas. A vida de duas delas enredou-se com franceses e essas já lhe deram netos. Foi assim com a maior parte das famílias portuguesas. E o regresso foi sendo adiado, por vezes, até o desejo se esfumar. 

Para muitos dos que partiram nos anos 1960 e 1970, Portugal é o país das “vacances”. Há carrinhas a fazer a ligação porta-a-porta. Adolfo e a mulher também as usam. Em 16 horas estão em casa de uma das filhas. Com eles, seguem sempre duas geleiras recheadas com carnes para comer enquanto lá estiverem, umas “batatinhas” e uns “garrafõezinhos’ de vinho”. Comida nunca falta. Ainda produzem legumes, criam borregos. Não desejam “a cão nem gato” o que passaram. 
— Se éramos assim no tempo do Salazar... Qualquer dia, “voltemos” para lá — diz ele.
— Já ‘temos quase — corrobora ela. 
— Qualquer dia ‘tamos no Salazar outra vez. Alguma coisa que temos vão nos tirando tudo…