Tango, Eco, Romeo, Eco, Sierra, Alfa: Teresa

Histórias de filhos de combatentes que cresceram a ouvir falar da guerra colonial em casa escritas por Catarina Gomes, jornalista do PÚBLICO. O livro é lançado esta quinta-feira, às 18h30, na Fnac Chiado, em Lisboa.

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Como se conta o horrível a uma criança? É fácil: relatando tudo como se fosse apenas uma aventura, adoptando quem a narra o tom de contador de histórias. Quase como se o pai estivesse a falar de outra pessoa que não ele, mesmo sabendo a filha que lhe estava a falar de si próprio e do que lhe aconteceu há muito, muito tempo...

Desde os seus quatro anos que Teresa Capítulo ouve falar da história. O pai foi­-lhe contando que um dia, num país chamado Guiné, num tempo em que Portugal vivia em guerra, ele estava lá a combater e houve uma emboscada. A prisão para onde o levaram era escura, de paredes cinzentas coloridas pelo sangue dos insectos sugado a ele e aos outros prisioneiros. Lá, à chegada, no seu primeiro dia, recebeu-o um misterioso homem de barbas longas e cicatriz que lhe atravessava a cara; esse homem, que sorriu quando viu o pai a separar os bichos do arroz branco antes de o comer, disse­-lhe: “Amanhã já não separas, é isso que te vai alimentar.”

Teresa conseguia imaginar esse lugar imundo e sombrio. Para ela, esse homem estranho simbolizava o primeiro contacto com aquele que seria doravante o mundo do pai, “a pessoa que o tinha recebido à entrada da porta do inferno”, mas também um mensageiro de esperança, uma espécie de homem de sabedoria que o ajudou a duvidar da sensação inicial, de que não conseguiria aguentar naquele sítio nem mais uma hora. Foi aquele homem que depois contou ao pai que estava preso há cinco anos e meio, isso mesmo, cinco anos e meio, e que escusava de se assustar: Nesse momento até lhe deu uma pancadinha nas costas, porque ali aguentariam os dois “cinco, dez anos”, tantos quantos fossem precisos até um dia saírem em liberdade — foi­-lhe dizendo o pai.

Entretanto, em Sesimbra, a terra que também é a de Teresa e de onde o pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, quando ainda era pescador e só tinha dezoito anos, chegou a notícia da sua morte. Isso mesmo, a morte do pai vinha escrita num recorte de jornal sem data, colado no álbum verde da tropa que Teresa se habituou a folhear desde menina e a ler quando já tinha aprendido a juntar letras e a tirar­-lhes o significado: “Ao serviço da pátria, na província da Guiné, morreram (…) e o soldado Vítor Manuel de Jesus Capítulo” — que era o nome do pai — “natural de Setúbal” — onde ele nascera — “filho da Sra. D. Januária de Jesus Capítulo e do Sr. Joaquim M. Capítulo” — os nomes dos avós paternos de Teresa. No final dessa notícia, o jornal até dava “às famílias dos malogrados militares sentidas condolências”, que Teresa criança aprendeu que é o que se faz quando alguém morre.

Ela sabia­-o mas era sempre entusiasmante ouvir a parte da história em que se percebeu que a notícia era mentira, que não era verdade que o pai tivesse morrido. Pouco tempo depois, veio a notícia de que, afinal, estava vivo mas tinha sido preso pelo inimigo. À espera, a mãe do pai, quando ainda não era sua avó, caiu no desespero. Quis viver a vida que imaginava que o filho­ prisioneiro em África teria, seria uma afronta ter mais do que ele. Passou a dormir no chão, a vestir roupa que não mudava e usava até ficar rota, a não comer, porque ter conforto e acesso a alimentação era ter o que o filho não tinha. Em Sesimbra, acorria muita gente lá a casa a querer ajudá­-la a passar o mau bocado, familiares, conhecidos, os últimos foram diminuindo com o avançar do tempo.

Nessa mesma terra, a sua prometida, uma rapariga de vinte e um anos que fazia costura como muitas da sua idade, ouvia todos os dias de muitas bocas, “refaz a tua vida, rapariga, ele não volta e se voltar não se sabe como, eles lá tiram olhos e unhas. Refaz a tua vida, rapariga”.

Na prisão deixaram­-no escrever-lhe algumas vezes e essa namorada foi sabendo que se mantinha vivo, mentindo para a sossegar — “estamos em segurança e têm­-nos tratado bem”. Vivia com uma lata para as necessidades e outra com água para beber, havia dias em que acordava de pestanas coladas, de tantos bichos acumulados, tinha que abrir os olhos de manhã com um pauzinho. Mas isso não estava escrito nas cartas, assim como o estarem todos eles cheios de feridas abertas e de problemas de pele causados pela falta de higiene. Teresa recorda-se sempre de o pai lhe ter contado que um dos colegas de prisão, por não haver mais nada com que se tratar, se decidiu besuntar de creolina, uma substância mais potente que a lixívia usada como desinfectante para os sanitários. O pai e os outros bem o avisaram, “ainda morres, pá”; ele respondeu que não aguentava mais e, depois de ter usado a creolina, esteve horas aos pulos com as dores. Ele curou­-se e os outros segui­ram­-lhe o exemplo.

O pai de Teresa foi sobrevivendo a bananas e a arroz com o gorgulho que se habituou a ter como prato principal, tal como lhe dissera o homem de barbas longas e cicatriz de uma catanada gravada na cara. Nos raros dias em que na prisão havia peixe para a refeição, o pai de Teresa era o primeiro a oferecer a sua mestria no amanho; ele era, afinal, homem do mar, era esta a forma de ir vendo o céu. Teresa não sabe exactamente quando foi no tempo mas lembra­-se bem de, no cubículo que era a cela, o pai ter sido obrigado a passar sete meses sem ver luz e sair de lá cego temporário a habituar­-se outra vez à claridade, ele que sempre andou ao céu de Sesimbra e o viu reflectido no mar, a bordo da Marília ou da Taínha, as traineiras com que andava à pesca antes de partir para a guerra.

Nos longos dias de prisão, contados com pauzinhos raspados na parede cinzenta pintalgada de vermelho, como nos filmes americanos, umas quantas vezes o chamaram a ele e aos outros para serem fuzilados. Alinhados em fileira, com armas apontadas. “Aconteceu várias vezes, chegava alguém à última hora e dizia, ‘Não os matam nada’. Era tudo muito desorganizado. Sentia­-se a fragilidade da situação, a precariedade”.

Passaram­-se trinta e três meses de cativeiro, quase três anos. Houve um dia em que, numa operação secreta, as tropas portuguesas rebentaram à noite com os muros da prisão que ficava em Conacri, a capital de um país chamado República da Guiné — um barulho tão forte que fazia lembrar os rebentamentos das pedreiras da Serra da Arrábida que se ouvem em Sesimbra —, onde o pai e os vinte e cinco colegas estavam, e os levaram. E ele contou­-lhe que muitas vezes, naquela altura, já solto, pensou que já não se importava de morrer ali, mesmo sendo no estrangeiro. “Não se importava de morrer lá, mas não na prisão”. Por isso, no barco onde os puseram a todos para fugir, em vez de se agachar em segurança dos disparos, pôs­-se em pé à proa, mesmo estando debaixo de fogo. “Era Sesimbra outra vez, era a liberdade”. Os militares portugueses que o salvaram a ordenar­-lhe, “baixa­-te, baixa­-te”, mas já não interessava. Estava louco de liberdade e ali já podia ficar.

De tão secreta que era a operação, estiveram uma semana incomunicáveis, isolados num forte, o Catalazete, em Oeiras. A família tinha apenas um telegrama a que se agarrar, “em breve vos abraçarei”. Durante tantos anos quantos os que demorou a chegar o 25 de Abril o pai não pôde revelar, compro­metendo­-se a isso por escrito e por sua honra, como o tinham salvado a ele e aos outros; um deles, o tal homem das barbas brancas e cicatriz na cara — que já mais velha aprendeu que era o sargento­ aviador da Força Aérea Portuguesa António Lobato, detido sete anos e meio — chegou mesmo a ter de dizer publicamente que se haviam salvo a si mesmos, que tinham fugido todos depois de um golpe de Estado no tal país.

Pele e osso — voltou com menos doze quilos do que levara para lá, com sessenta —, a 4 de Dezembro de 1970, Sesimbra encheu­-se de um mar de gente para o receber, tanto que mais parecia o dia da procissão do Senhor Jesus das Chagas, padroeiro dos pescadores, assim lhe descreveram o acontecimento para que Teresa percebesse o tamanho da multidão que o esperava. Para o imaginar, tinha também a ajuda dos recortes de jornal colados no álbum do pai. Uma outra notícia do jornal, título “Soldado regressado do Ultramar”: “conduzido num veículo militar, foi recebido à entrada da vila por grande multidão de sesimbrenses que lhe dispensou carinhoso acolhimento, entre palmas vivas, lágrimas e o estalar de foguetes, seguindo depois em cortejo pelas ruas da vila”. Não era o pai que contava, vinha escrito no Sesimbrense. Era a continuação dessa história que muita gente seguiu na vila como se fosse de suspense, porque não se sabia como acabaria. Sobreviveria o rapaz? Ali se soube que sim.

Regressado, voltaria bem de saúde? A do corpo parecia que sim. E a da cabeça? Teria a sua prometida ouvido os conselhos e seguido em frente com a sua vida? Afinal, já lá iam quase três anos.

Depois de tanto tempo de cativeiro, Teresa sabe que o pai chegou abalado, que não queria visitas nem falar com ninguém, que se isolou em casa dos pais, que dormiu um mês como se fosse um dia. Teresa também ouviu falar de uma carta que a tal namorada recebeu desse lugar longínquo de onde o pai lhe dizia para não esperar por ele, para refazer a sua vida, que o mais certo era não voltar.

Foi a primeira carta que Victor Capítulo enviou e uma das cerca de duas dezenas que tem guardadas com esmero; as que recebeu ficaram no calabouço dessa prisão de onde saiu só com a roupa interior. “Sinto-me na obrigação de dizer­-te estas palavras (…) Queridinha, caso não estejas disposta a esperar por mim, faz o que a tua consciência decidir, que eu sempre te saberei compreender”. “Essa carta era a mais forte”, diz Teresa, por isso sempre se falou dela nesta história de família.

A rapariga não ligou à carta do namorado e continuou à espera, mesmo com ele já chegado a Sesimbra e a querer passar dias a dormir. No ano seguinte ao seu regresso, a 26 de Setembro de 1971, o pai casou com Maria Raquel, a mãe de Teresa. Vingou o amor contra os maus agoiros; ele namorava com ela desde os catorze anos, ela esperara por ele mais de três anos. Ele voltou saudável, tiveram dois filhos. Teresa nasceu a 29 de Março de 1972, cerca de dois anos depois da chegada apoteótica de que fala o Sesimbrense.

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Fotografias que constam do livro Pai, Tiveste Medo?, tiradas durante a guerra colonial na Guiné-Bissau

Para Teresa Capítulo, esta é a história de um herói, a quem aconteceu o impensável, passou por sofrimentos e adversidades, mas o final foi feliz, contra todas as probabilidades. O pai era o herói que tinha tudo contra si e pensava a toda a hora “quando é que morro? Quando é que me dão um tiro? Quando é que apanho uma doença e morro?”, como aconteceu aos três prisioneiros que morreram junto dele de males de saúde que nunca tiveram nome.

Esse herói era o seu pai, que tinha voltado à sua terra natal em festa, tinha casado com a sua princesa, grato pela segunda oportunidade de vida. “Era uma história de livro, o argumento de um filme. Tinha todos os ingredientes: a noiva que estava à espera, a mãe deprimida, ele dado como morto… Às vezes a pessoa pensa que há coisas que só acontecem nos filmes”. Teresa sempre soube que isso não é verdade.

Cada retalho desta história foi sendo contado aqui e ali, ao longo do processo de crescimento de Teresa, peças sem sequência certa. “São episódios soltos, não os consigo arrumar no tempo”, explica. Não é como o pai, que lhes sabe os dias, porque os viveu, sentiu­-lhes o vagar do tempo a passar. A imaginação foi fazendo esse trabalho, tratando de dar forma a uma história com obstáculos que conduziam ao final feliz que tinha dado origem à sua existência.

Houve uma altura a partir da qual deixou de haver novidades na história contada e os episódios foram­-se repetindo, mas nunca cansavam, eram reconfortantes. “Pai, pai conta lá outra vez…” E ele contava, paciente, como quando um filho pede para lhe ser repetida sempre a história do mesmo livro, só que esta era verdadeira e era onde assentavam as fundações da ­família.

Mesmo assim, quando Teresa era pequena, estar o pai a contar a sua história ou um daqueles contos infantis como “o da Gata Borralheira” parecia quase igual. Nunca houve nesse contar qualquer sinal de comoção de, por ser aquela uma história na primeira pessoa, transtornar o relato, nunca transpareceu o sofrimento de quem a viveu. Para ela era hipnotizante.

Para ela e para outros. Eram histórias contadas ao serão em família ou em convívios com amigos e conhecidos. Vem­-lhe à memória uma vez em que estava um grupo à mesa, várias pessoas concentradas e caladas, a ouvir o pai contar a sua história. “Punha­-me de lado e percebia, ‘não acontece só comigo’. Havia uma sensação de encantamento. Tinha orgulho do meu pai”.

Naquele álbum bonito que agora afaga e que está arrumado como objecto importante que só sai de casa dos pais a pedido, quase todas as imagens desse tempo da guerra são de um pai feliz e bem­ disposto, bem nutrido, nas poses e cenários que, sabe Teresa, se devem repetir por álbuns de ex­-combatentes da guerra colonial por esse Portugal afora: o pai fardado ao lado de meninos negros de barrigas redondas, ao pé de mulheres negras de peitos nus, posando ao pé de bananeiras, de casas de colmo, o “‘teatrito’ empunhando armas de aspecto super sofisticado”, o pai agarrado ao seu equipamento de comunicações, a sua especialidade.

Ao ver esta última foto, veio-lhe logo à memória mais um episódio da aventura que mostrava a inteligência do seu protagonista: quando foi capturado, tinha no bolso papéis com códigos de comunicações que foi disfarçadamente desfazendo em pedacinhos e largando durante a marcha forçada, a seguir à captura, no Sul da Guiné, de acampamento em acampamento do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde). Algo parecido com o conto de Hansel e Gretel na floresta a largar as migalhas de pão.

Quando os homens que capturaram o pai lhe perguntaram o que fazia (tinha acabado de transmitir que estavam a ser atacados e a sua localização), teve a rapidez de espírito de mentir dizendo que era maqueiro e não radiotelefonista. Se dissesse a verdade iam obrigá­-lo a revelar códigos que podiam pôr operações e pessoas em perigo. Ainda o chamaram para fazer tratamentos, na sua qualidade de suposto maqueiro, e ele lá ia para ao pé de feridos sem saber o que fazer mas a fingir que sim, porque um maqueiro está habituado a ver homens naquele estado.

O assunto da guerra era de tal forma natural na família que Teresa até se lembra de, quando era pequena, brincar com o pai às comunicações. Nunca se esqueceu desses jogos, ainda hoje sabe “papaguear” o seu nome em código: Tango, Eco, Romeo, Eco, Sierra, Alfa. “Ó pai diz lá outra vez como é o meu nome em código”, pedia­-lhe muitas vezes, e ele: “Tango, Eco, Romeo, Eco, Sierra, Alfa.”

Apesar de, aos seus olhos de filha, ele surgir como o herói desta história, não quer dizer que tenha sido passada a imagem do super­-homem. “Não se sentia um homem de guerra, deve ter chorado, deve ter deprimido muito.” Transmitiu-lhe o medo que sentiu quando teve uma arma apontada a si e de, durante a longa caminhada pela selva depois da captura, “o inimigo” ser muito diferente entre si. Viu nos olhos de alguns “ódio profundo, de quem só não o matava porque não podia, em aldeias onde os soldados portugueses tinham destruído e matado as suas famílias”, mas também humanidade, como a do comandante guineense que impediu que ele e os dois colegas capturados fossem fuzilados e lhes disse, em crioulo, “coragem, camarada, que soldado veio ao mundo para sofrer”. Ou então nos aldeamentos onde “nunca tinham visto brancos e ficavam extasiados, ofereciam­-lhes coisas”. E, claro, nunca esquece a descrição do encontro com o líder do PAIGC, Amílcar Cabral, que lhe apertou cordatamente a mão e o convidou a desertar. “Há um carrossel de emoções, ambivalências. Não há bons e maus. Eles não se sentiam guerrilheiros, não estavam motivados para ir para a guerra, iam porque tinham de ir.”

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Embora a história do cativeiro seja quase o único episódio de guerra que lhe foi contado e recontado, no álbum que está identificado como pertencendo ao “soldado radiotelefonista c. auto n.º 034680160”, a maioria das imagens dizem respeito ao período de cerca de um ano que passou na Guiné, antes de ser preso, são como as de qualquer outro soldado. Só há duas fotos que remetem para o campo de aprisionamento. Uma é uma fotocópia sumida de jornal, uma fileira de homens de farda pardacenta e ar esquálido onde Teresa consegue a custo identificar o pai. Havia uma outra foto, uma única, que procura no álbum que hoje tem nas mãos, mar de Sesimbra no horizonte, para a ajudar a rememorar. “Não está cá. Lembro­-me que me incomodou, fiquei impressionada, mostra um pouco o que ele passou.” Já na altura “era uma foto tresmalhada, não é daquelas fotos que é para guardar, é uma daquelas fotos que aconteceram. A gente não tira fotos de coisas negativas”. Era uma imagem do pai “com ar de refugiado, magro, com ar de pessoa doente, como um cadáver. É o confronto com a debilidade. Torna evidente o grau de sofrimento, a subnutrição. Já dá um outro lado não tão cor­-de­-rosa”. É a ponta solta da história de final feliz tornada ligeira para a filha e o filho ouvirem.

“É mais bonita a história que eu me lembro.” Não sabe porque desapareceu a imagem, há­-de perguntar ao pai. Aquela fotografia, que andava solta pelo álbum, não era das que estava fixada com cantinhos autocolantes em forma de triângulo. Congelava o sofrimento que não lhe havia sido transmitido pelo pai. Teresa sabe que a história que lhe foi relatada “não é uma tentativa de esconder, é uma opção de narrativa, uma versão suave”.

Aquela imagem que Teresa agora não encontra no álbum de fotografias fugia ao florear da história a que se habituou, e vai mais ao encontro de uma narrativa que se desenrolava em paralelo, mas à qual não prestava tanta atenção, a da mãe, do que sentiu, de como ele voltou e não queria falar com ninguém, só queria dormir.

Nunca presenciou sinais, mas há pormenores que foi apanhando em conversas de família quando era mais pequena. Teresa sabe que, a certa altura, o pai teve manifestações de stress­ pós­-traumático, chegou a ir a consultas, “terá havido episódios de pesadelos, houve períodos mais difíceis”, mas no geral desvaloriza essas manifestações. “Não estou a dizer que não tenha sequelas, mas não lhe perturbam a vida. O que ele tem é mínimo, proporcionalmente ao que passou. Vir melhor era quase impossível.”

A vida do pai e de quem ele se tornou depois do que passou simboliza a ideia de uma nova oportunidade, de relativizar o que não importa. Teresa ouviu de um dos seus colegas de cela que o pai “pregou-lhe um estaladão” quando um dia ele disse que não aguentava mais e se ia suicidar. E isso condiz com o pai que conhece, alguém moldado pelo seu percurso.

Teresa nunca viu o pai chorar, nem emocionar­-se, nem quando falou “dos colegas que viu ‘rebentar à frente’, um colega com quem ele trocou de posto e que pisou uma mina”, antes de ser preso. “A esse tipo de histórias eu não tinha perguntas para fazer. O que é que ia perguntar? Ficaram em quantos pedaços? Não me apeteceu perguntar, não queria saber mais.”

Se o pai optou por lhe contar uma versão da história, Teresa optou por querer ouvir apenas esta. “Não vale a pena mexer, escarafunchar. Está bem arrumado. Foi um episódio da vida do meu pai que foi resolvido, faz parte do passado.

O que está no presente é recordação, é memória, está integrado, não perturba.”

Por isso, foi muito estranha a entrevista gravada em vídeo que o pai deu recentemente para a junta de freguesia de Santiago (pertencente a Sesimbra), numa iniciativa “de recolha de memórias da terra”. Foi estranho ouvi­-lo a contar as histórias que lhe contava a si com ar sereno mas agora a emocionar­-se. Quando fala do momento em que o mudaram de uma cela completamente escura para uma outra onde uns ferrinhos no tecto deixavam entrar alguma claridade e como, num acto de agradecimento, disse “obrigado, eu aqui já vivo”. Naquele momento, aos vinte e sete minutos dos quarenta que tem de gravação, viu o pai de olhos cheios de lágrimas que não chegaram a cair, a pedir desculpa: “Estou comovido, estou a viver o que estou a dizer.”

Teresa não pôde evitar perguntar­-se. “Será que ele tem outro discurso sobre a guerra? Com os colegas? Com a mãe? Imagino que não.” Porém, não se lembra de alguma vez ter ido a um desses convívios de ex­-combatentes, é só ele e a mãe, mas sabe que são “mais que amigos, há um clique, quando estão juntos saltam para outro mundo”. Há uma realidade não partilhável.

É como se essa experiência de guerra do pai estivesse dividida em dois: o ano de comissão em que passou a combater, como qualquer outro militar na altura, e os quase três que passou aprisionado. Por isso, o pai mantém o convívio anual da companhia a que pertencia, mas a que só vai quando se realiza perto de Sesimbra, e um outro, em paralelo, o almoço dos prisioneiros de guerra. Este segundo “é, de longe, o mais importante”. Teresa conhece um grande amigo do pai, ex­-pri­sioneiro de guerra, a quem um dia tentou fazer as mesmas perguntas que colocava ao pai — “para mim era um tema tão natural” —, mas compreendeu que com ele não podia seguir em frente, “as respostas foram escassas, vagas, fugidias”. Ali percebeu que nem todos falavam com o à-vontade que conhecia ao pai em relação a esta porção da sua vida. Para a sua família “era um assunto normalíssimo, até achava que ele gostava de partilhar, era uma coisa que nos unia”. Aos outros prisioneiros conhece­-lhes as histórias através das fotos. E sabe: “De uma situação destas ou se sai melhor ou pior, ele saiu fortalecido.”

“Na gravação emocionou­-se, ele dantes não se emocionava.” Teresa explica que talvez seja da idade a avançar, vê isso com outras pessoas que com o envelhecer vão mostrando outra parte de si, “noto­-o mais frágil”.

Também viu esse lado do seu pai quando o convidaram para participar, em 2010, numa recriação da Operação Mar Verde encenada numa base; agora sabe que é esse o nome de código da operação secreta de que se falava lá em casa, por ter sido a que, a 22 Novembro de 1970, o libertou.

Teresa, entretanto, quis saber mais do que o pai lhe contava sobre “esta operação secreta, à filme americano” e comprou um livro publicado sobre a tal Operação Mar Verde. Percebeu que a libertação dos presos foi das poucas coisas que correram bem nessa operação, cujo objectivo era depor o Chefe de Estado da República da Guiné, Sékou Touré. Foi anti-natural perceber que pouco se fala dos reclusos no tal livro, dos vinte e seis prisioneiros de guerra que estiveram enclausurados períodos que foram desde os dois anos e meio até aos quase sete anos e meio do aviador. Foi estranho perceber que em cento e setenta e cinco páginas de livro o capítulo Libertação dos presos portugueses tem apenas cinco. Na sua família, a narrativa é mais simples, a Operação Mar Verde só é conhecida pelo nome e contornos gerais porque foi ela que trouxe o pai de volta. “Para mim é uma história da nossa família, não é política” e, na sua perspectiva, a todas as outras formas de a contar falta­-lhes “sumo e significado”.

A recriação em que o pai aceitou participar, em homenagem ao general que liderou a operação, Guilherme Alpoim Calvão, mexeu com ele, andava nervoso antes de acontecer, como se recriar fosse em parte reviver. Teresa não presenciou, ele contou­-lhe pouco, mas disse­ lhe que mesmo sendo a fazer de conta, foi fiel à cena original, não se baixou das balas e “foi de pé no barco, à proa”, como no dia em que se reencontrou com o mar, como se tivesse chegado ao Atlântico de Sesimbra, ainda estando nos mares da Guiné­ Conacri.

Este pai que se comove e o pai aparentemente sereno que lhe foi contando a sua história não são incompatíveis, a história é a mesma. “O importante não foi a forma como a viveu, mas como a contou.” E ele contou para ser isso mesmo, uma mensagem pedagógica passada aos filhos. “É pai. Como adultos, temos cuidado”, diz Teresa que é psicóloga e mãe de duas raparigas.

Teresa lembra­ se de que, na infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, “lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz”. Esses retalhos de história foram usados para educar, para ir passando a mensagem de forma construtiva. Mas nunca estes relatos lhe tiraram o sono ou a perturbaram. O pai evitou que fosse um episódio negro que assombrasse a família.

Por essa razão, opôs­-se a que Teresa se chamasse Maria da Liberdade, como a mãe tinha prometido a Nossa Senhora ­baptizar uma filha, caso o futuro marido regressasse com vida. “Eu não me chamar Maria da Liberdade foi motivo de desavença nos primeiros tempos”, conta a sorrir. Era uma coisa séria, uma promessa. Foi o meu pai que não quis: “andei a penar três anos não quero que ela fique marcada com esse nome” — era essa a justificação que ele dava. “Passou a ser daquelas graças de família. Eu digo sempre que adoro o meu nome, Maria Teresa, porque quase me chamei Maria da Liberdade.”

Não ficou com o nome, mas Teresa diz que a forma como o pai escolheu contar o que viveu aos filhos é uma história fundadora da sua identidade, de quem ela é como pessoa, e também de quem são enquanto família: “pessoas que dão a volta por cima”. “Há forças que temos que não usamos. Socorro­-me disso quando preciso. E que a vida não é o que dela se espera e que o mais fácil é desistir”, explica. “O normal era ter sido fuzilado, ter posto termo à vida, era ter desistido ou ter apanhado uma doença.” A mãe podia ter dado ouvidos às vozes da vila que lhe repetiam “Refaz a tua vida, rapariga. Ele não volta e, se voltar, não se sabe como”, e arranjado outra pessoa, o pai podia não ter sido libertado por uma operação que nem sequer tinha como objectivo principal dar­-lhes a liberdade. “Bastava uma coisa ter falhado. Nem sempre a vida é o mais provável.”

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Ainda hoje, em Sesimbra, onde Teresa vive com a família, continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso”. De todas as vezes lhe sabe bem ouvir o final deste drama individual e familiar que a dada altura foi colectivo. “As pessoas sabem quem eu sou, associam­-me ao meu pai. ‘Ai és filha daquele rapaz. Ai, eu fiquei tão contente quando ele voltou’.” E Teresa tem consciência de que é uma experiência que a ajuda a fundar­-se. “É uma história que me arruma, que me guia, que me sabe bem relembrar. Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”