Diabetes nas grávidas quase duplicou num período de cinco anos

Números absolutos praticamente estabilizaram, mas o peso da doença no total de gestantes aumentou.

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A diabetes tira em média sete anos de vida às pessoas com menos de 70 anos Paulo Pimenta

O endocrinologista Jorge Dores, médico do Centro Hospitalar do Porto e coordenador do Grupo de Estudos da Diabetes e Gravidez da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, adianta que os dados que fazem parte do Registo Nacional da Diabetes Gestacional “mostram uma prevalência superior à encontrada pelo Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes”, apresentado no final de 2013, que também analisava os casos de 2012 e referia uma percentagem que se ficava nos 4,8%.

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O endocrinologista Jorge Dores, médico do Centro Hospitalar do Porto e coordenador do Grupo de Estudos da Diabetes e Gravidez da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, adianta que os dados que fazem parte do Registo Nacional da Diabetes Gestacional “mostram uma prevalência superior à encontrada pelo Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes”, apresentado no final de 2013, que também analisava os casos de 2012 e referia uma percentagem que se ficava nos 4,8%.

O também membro da comissão organizadora do congresso, que decorre em Vilamoura e que junta 1300 profissionais do sector, explica que o registo nacional só recolheu dados de cerca de 75% a 80% do total de partos, enviados por mais de 20 unidades, “mas que são representativos e apontam para que os números do relatório estejam subestimados”. Jorge Dores justifica que o registo e o relatório “têm métodos de recolha diferentes”, já que o registo faz uma recolha directa voluntária junto dos colegas nos vários hospitais, contando com informações como as características das parturientes, “enquanto o relatório é mais administrativo e tem como fonte as bases de dados da Administração Central do Sistema de Saúde e da Direcção-Geral da Saúde”. O especialista diz que, por vezes, “há casos que não estão codificados” e que escapam por isso na contabilidade final do relatório.

A análise preliminar do registo permite ainda perceber que 280 mulheres já tinham diabetes quando engravidaram – sendo que o relatório referia apenas 120 e já contava com um número fechado. Quanto às 2700 mulheres que desenvolveram diabetes durante a gravidez, tinham em média 32,8 anos e 28,3% eram obesas mesmo antes de engravidarem. A média de peso ganho durante a gestação foi de cerca de dez quilogramas, mas Jorge Dores alerta que este número vai precisar de “uma análise mais detalhada, pois se uma mulher com baixo peso pode ganhar até 17 quilos, uma mulher com sobrepeso em alguns casos não deverá ir além dos cinco quilos”. Quanto a diferenças geográficas, o médico garante que não têm expressão, com a taxa mais baixa a ser encontrada em Braga e a mais elevada em Gaia.

“O adiamento da maternidade, com muitas mulheres a terem filhos depois dos 30 anos, o peso excessivo ou ganho de peso na gravidez e o historial familiar de diabetes são os factores que mais influenciam a probabilidade de se desenvolver diabetes gestacional”, refere Jorge Dores. O endocrinologista sublinha, contudo, que os critérios para se considerar que uma grávida é diabética mudaram há três anos, sendo agora “mais apertados” e estando os profissionais “mais atentos”, pelo que parte do aumento se justifica pelo maior rigor na identificação destes casos que quase nunca dão sintomas mas que colocam a saúde da mulher e do bebé em risco, com as grávidas a registarem mais situações de hipertensão e de pré-eclampsia.

Mais 50% de probabilidades de ter a doença no futuro
Regra geral durante a gravidez a mulher é sujeita a dois exames para despiste da diabetes gestacional, sendo que o nível de glicémia admitido em jejum ou na prova de tolerância à glicose é agora mais baixo “e os testes são mais sensíveis”. Além disso, basta um valor alterado durante a prova para se considerar que a mulher tem diabetes, quando antes eram necessários dois valores. “Inicialmente com a uniformização dos novos critérios falava-se que o número de casos iria triplicar mas também não foi isso que aconteceu e até podemos falar em alguma estabilização”, defende o clínico, que entende que o mais importante é analisar esta tendência e controlar bem os casos diagnosticados.

Quanto ao caminho após o diagnóstico e consequências, nos casos de diabetes gestacional o controlo da alimentação é o primeiro passo a dar, mas em 40% dos casos as mulheres tiveram de recorrer à ajuda de insulina. Apesar de os partos terem ocorrido dentro do tempo normal, com uma média de 38,3 semanas de gestação, em 36,2% dos casos foi necessário recorrer a uma cesariana, o que está acima da média nacional para os partos de mulheres sem a doença.

Outro dos indicadores de controlo inadequado durante a gravidez é o peso do bebé, tendo o registo verificado que em 4,6% dos casos a criança tinha mais de quatro quilos, “o que potencia o traumatismo de parto, hipoglicémia e icterícia”. Uma percentagem que segundo Jorge Dores, apesar de tudo, já não difere muito dos restantes partos.

Outro problema, acrescenta, é que apesar de só 1% a 2% das mulheres continuarem diabéticas após o parto, em geral com a chamada diabetes tipo 2, antes conhecida como não insulinodependente, “as restantes têm mais 50% de probabilidade de virem a ser diabéticas no futuro, sobretudo se ganharem peso”. Sendo que a doença tira em média sete anos de vida às pessoas com menos de 70 anos, representa já 10% da despesa total em saúde com um custo directo que chega perto dos 1500 milhões de euros e a sua prevalência na população total em Portugal já atinge quase os 13%.