Há um Óscar que pode ir parar às mãos de Daniel Sousa

É "um filme de atmosfera portuguesa", diz-nos o português Daniel Sousa, a residir nos Estados Unidos, acerca de Feral, a curta-metragem de animação que lhe pode valer um Óscar.

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Daniel Sousa, o realizador de Feral

E o próprio não esconde a surpresa. “Não estava à espera”, diz-nos a partir de Rhode Island, nos Estados Unidos, revelando que o seu filme fazia parte de uma lista de 10 pré-seleccionados, dos quais saíram os cinco nomeados. “Claro que como só havia 10 estava mais ou menos esperançado de chegar aos cinco finais. Mas, sim, foi uma grande surpresa, estou muito feliz e agora vamos a ver.”  

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E o próprio não esconde a surpresa. “Não estava à espera”, diz-nos a partir de Rhode Island, nos Estados Unidos, revelando que o seu filme fazia parte de uma lista de 10 pré-seleccionados, dos quais saíram os cinco nomeados. “Claro que como só havia 10 estava mais ou menos esperançado de chegar aos cinco finais. Mas, sim, foi uma grande surpresa, estou muito feliz e agora vamos a ver.”  

E as hipóteses de sair vencedor são reais. Este é o seu sexto filme e entre os cerca de quarenta festivais onde já foi exibido foi coleccionando prémios. Entre eles, três distinções no festival francês de Annecy ou o prémio de melhor filme de animação do festival Anima Mundi do Rio de Janeiro, que lhe deu acesso directo a uma vaga na pré-selecção dos Óscares. Em 2012 havia conquistado o prémio RTP Onda Curta no Cinanima de Espinho.  

O filme começou a ser idealizado em 2008, revela. “Comecei a pensar nele há cerca de cinco anos”, conta, mas como não podia trabalhar no filme quotidianamente o processo arrastou-se. “Representa um período da minha vida que irei lembrar para sempre”, afirma, aludindo ao universo central do filme. “É a história de uma criança selvagem e outros temas universais que definem o ser humano – a diferença entre os humanos e os animais, a diferença entre a inteligência e os instintos.”

A curta-metragem de 12 minutos foi produzida pelos Estados Unidos e Portugal, o que não surpreende. É que Daniel Sousa nasceu em Cabo Verde em 1974, cresceu em Portugal e em 1986 mudou-se para os Estados Unidos, onde vive desde então. Foi aí, mais exactamente em New England, que viria a ser um dos fundadores da Handcranked Film Projects, uma produtora de filmes independentes ou experimentais. A sua formação deu-se na Rhode Island School of Design, onde hoje dá aulas, tendo também leccionado na Universidade de Harvard ou no Art Institute of Boston.

A sua ligação com Portugal mantém-se, embora diga ter “um vocabulário de uma criança de 12 anos”, a idade com que chegou aos Estados Unidos. “Gostaria de visitar mais vezes Portugal, porque os meus pais vivem aí. Todos os anos os visito”, afirma, revelando que “seria uma maravilha poder trabalhar em Portugal”, embora tenha consciência que a indústria na qual se movimenta é mais desenvolvida no país que o acolhe.

Nas curtas de Daniel Sousa, como Minotaur, Drift ou Feral, sente-se interesse em explorar os paradigmas da natureza humana, as mitologias ou as zonas mais escurecidas e enigmáticas da realidade. Feral acompanha a tentativa de adaptação, ou as estratégias de sobrevivência, de um rapaz que vivia na selva e que às tantas é resgatado por um caçador solitário, levando-a a habitar na civilização. O ponto de partida é o mesmo que o cineasta francês François Truffaut utilizou na feitura de O Menino Selvagem (1970), baseado na história verídica de Victor Aveyron.

Victor foi encontrado numa floresta, ainda criança, e adoptado pelo médico psiquiatra Jean Marc Gaspard, que no entanto acaba por não obter muito sucesso na sua educação e integração. Essa, e outras histórias de carácter semelhante, serviram de inspiração a Daniel Sousa, embora a sua narrativa seja extremamente pessoal.

Em vez de seguir técnicas convencionais de animação, começa por um fundo visual, uma opção herdada do passado como ilustrador e pintor. No seu último filme resume a técnica utilizada “como um pouco confusa.” Começou no computador, “depois fiz os desenhos à mão, mas através do computador num programa chamado Flash. Depois o desenho foi impresso em papel e tracejado a lápis, tendo sido depois devolvido ao computador.”

É comum afirmar que os seus filmes são feitos a partir da perspectiva da pintura, dando à animação atmosfera e emoção, não surpreendendo que evoque as obras de artistas como Andrew Wyeth, Anselm Kiefer e Matthew Barney ou os filmes do realizador russo Andrei Tarkovsky como inspirações. As narrativas clássicas também nem sempre o interessam, focando-se em estados mentais, em memórias e percepções, embora Feral seja o que mais se aproxima da ideia de narrativa convencional.

As memórias da infância em Portugal, essas, constituem também uma influência determinante, diz. “As cores, a atmosfera ou a arquitectura, essas coisas todas de que me lembro de ver perto de Lisboa, todas elas entraram um pouco no filme. Por isso considero a atmosfera de Feral como se fosse uma atmosfera portuguesa.”

O filme pode ser visto na internet, porque a Daniel Sousa interessa-lhe que as suas criações possam ser visionadas pelo maior número possível de pessoas, embora reconheça que é numa sala escura que é possível verdadeiramente ao espectador sentir-se submergido pelos ambientes, pelo som, pela cor e pelas texturas.

A 2 de Março ver-se-á se a Academia é sensível ao seu trabalho.