O caso especial de um Neandertal que palitava os dentes

Maxila encontrada em Espanha tem marcas do uso frequente de um palito, com que um Neandertal terá tentado aliviar uma inflamação nas gengivas.

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No início da década de 2000, escavações no sítio arqueológico de Cova Foradá, uma gruta em Valência, Espanha, permitiram encontrar o maxilar superior de um Neandertal adulto (a altura em que viveu não é ainda clara, mas o fóssil estava numa camada do registo arqueológico associada a um tipo de indústria lítica que existiu entre há 150 mil e 50 mil anos). Não lhe restavam muitos dentes agarrados, apenas três.

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No início da década de 2000, escavações no sítio arqueológico de Cova Foradá, uma gruta em Valência, Espanha, permitiram encontrar o maxilar superior de um Neandertal adulto (a altura em que viveu não é ainda clara, mas o fóssil estava numa camada do registo arqueológico associada a um tipo de indústria lítica que existiu entre há 150 mil e 50 mil anos). Não lhe restavam muitos dentes agarrados, apenas três.

A equipa de Gala Gómez, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social, em Tarragona, passou a pente fino a maxila, em exames como a tomografia axial computorizada (TAC), e publicou este mês os resultados na revista PLOS One.  

A investigação relevou a existência de porosidade no osso maxilar, que ocorre quando existe uma inflação crónica da gengiva, e no osso e ligamentos de suporte dos dentes (periodontite ou doença periodontal). Revelou ainda uma perda de massa óssea nos alvéolos (onde estão inseridos os dentes), que atingiu entre quatro e oito milímetros, refere um comunicado de imprensa da Universidade Autónoma de Barcelona, também envolvida na investigação. Por causa dessa perda óssea, as raízes dos dentes ficaram expostas.

Portanto, este Neandertal sofria da boca, embora não tivesse caries nem abcessos. Uma dieta à base de alimentos duros e fibrosos também lhe provocou um grande desgaste dentário.

E a seguir veio a parte mais curiosa do estudo: na zona de contacto entre dois dentes, o primeiro pré-molar e o primeiro molar do lado superior esquerdo, a maxila apresenta sulcos bem visíveis. Ora, estes "sulcos interproximais" resultaram do uso frequente de um palito. “A localização, morfologia e tamanho dos sulcos coincidem com os sulcos interproximais encontrados nos dentes de outros fósseis”, refere a equipa o artigo científico.

“Para tentar aliviar o incómodo causado pela doença periodontal, com uma importante inflamação das gengivas, que sangravam frequentemente, este indivíduo utilizava um palito de forma sistemática”, diz por sua vez Marina Lozano, do instituto catalão, citada no comunicado. “É muito possível que lhe tenham ficado bocados de alimentos entre as raízes dos dentes e as gengivas, e que tentasse tirar esses restos de comida para aliviar a dor”, refere a investigadora.

“Além disso, a inflamação das gengivas por si só também provoca a sensação de ter um corpo estranho sem que este exista. Tal como fazem hoje muitos doentes de periodontite, isto faria com que aquele Neandertal usasse um palito com mais frequência e intensidade, o que lhe provocou os sulcos interproximais”, acrescenta Marina Lozano.

Medicina paliativa

Além de registos para o Homo habilis, estão documentados muitos casos de sulcos entre os dentes devido ao uso de palitos pelos Neandertais, diz ainda a equipa. A diferença é que nunca se tinha associado até agora esse hábito a um problema dentário. “No caso de Cova Foradá, o palito não foi usado apenas como uma forma de higiene oral primitiva; antes está associado a uma patologia dentária e houve a intenção de aliviar a dor. E é isso que o torna singular”, sublinha Marina Lozano.

A equipa considera este caso como um dos primeiros exemplos de um tratamento dentário paliativo com um palito. Em última análise, considera-o mais do que uma simples curiosidade sobre os Neandertais, pois ajuda a traçar um retrato mais fiel destes humanos que viveram apenas na Europa e no Médio Oriente e se extinguiram há 28 mil anos na Península Ibérica, o último reduto para onde foram sendo empurrados, com a chegada à Europa da nossa espécie, o Homo sapiens, há cerca de 40 mil anos. Considerados, em tempos, menos refinados do que os primeiros representantes da nossa espécie, os Neandertais desapareceram sem que as razões dessa extinção estejam ainda bem identificadas. Terá sido a agressividade da nossa espécie, alguma inadaptação ambiental ou outras causas?

“Este estudo é mais um passo para caracterizar os Neandertais como uma espécie com grande capacidade de adaptação ao seu ambiente e com muitos recursos, mesmo no campo da medicina paliativa”, considera Marina Lozano.