“Em Angola, estão a perseguir as poucas pessoas dispostas a falar”

Depois da detenção de um grupo de activistas na semana passada quando também Rafael Marques foi detido e libertado, a Human Rights Watch diz que casos recentes como este "num país estratégico como Angola" são "alarmantes".

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Recentemente, notou-se em Angola "um padrão de maior violência policial" Miguel Madeira

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Situações como esta têm-se repetido em Angola. Desta vez, o caso ganhou projecção porque, com eles, também foi detido, embora libertado pouco depois, o activista angolano Rafael Marques, autor de várias denúncias de abusos de direitos humanos e corrupção em Angola. Detidos e libertados com ele, os jornalistas Alexandre Solombe e Coque Mukuta, correspondente da rádio Voz da América.

No site que fundou e dirige, o Maka Angola, Rafael Marques chama aos jovens que ficaram na prisão os "Sete Magníficos". Fazem parte do Movimento Revolucionário, que viu muitos dos seus militantes serem presos, alguns sem culpa formada, alguns torturados, nos últimos dois anos. Deles diz: “Sou testemunha da coragem destes jovens e da sua teimosia em conquistar a liberdade e provocar mudanças na sociedade. Esses sete magníficos, entre muitos outros que já passaram pelas celas da polícia por acreditarem numa Angola mais livre e mais justa, são disso um exemplo maior.”

Desta vez, e depois da tentativa falhada de manifestação na quinta-feira, os jovens ficaram na sexta-feira em liberdade preventiva, por decisão do tribunal, mas pouco depois foram de novo detidos pela polícia. Nesta segunda-feira estavam a ser julgados.

“Este incidente é por si só preocupante pelos abusos cometidos contra indivíduos”, disse ao PÚBLICO a directora-adjunta para África da organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW), Leslie Lefkow, numa entrevista por telefone a partir de Amesterdão. “Mas é preocupante também pelo quadro geral” que se desenha em Angola com “as várias detenções nos últimos meses de jovens que pacificamente querem protestar”. “Este caso é um entre vários em que a polícia recorreu à força contra os manifestantes” e é parte de um quadro mais geral da “repressão do Governo”, acrescenta.

Pessoas sob pressão
O movimento “entrou agora numa nova fase” com a detenção de jornalistas, que até aqui não acontecia, nota a responsável da HRW. “É evidente que estão a perseguir as poucas pessoas dispostas a falar, a denunciar”, diz Leslie Lefkow.

Angola está no topo das preocupações no panorama do continente, acrescenta a directora-adjunta para África da organização, porque de lá chegam “sinais muito inquietantes”. A situação dos direitos humanos, a restrição imposta aos media, e a repressão contra grupos que protestam, são exemplos. “Esse quadro, num país tão estratégico e importante como Angola, é alarmante”, frisa.

E descreve: “As pessoas estão sob uma enorme pressão” para poderem manifestar-se. O movimento começou há dois anos e, apesar da repressão, continuou com maior ou menor intensidade. Recentemente, notou-se “um padrão de maior violência policial” em situações que estão a ressurgir em Angola como os desalojamentos forçados numa parte da periferia de Luanda, as proibições impostas aos vendedores ambulantes ou aos manifestantes do Movimento Revolucionário que pedem a melhoria das condições de vida da população e mais transparência nas contas públicas, o fim da corrupção e a saída do Presidente José Eduardo dos Santos, há quase 34 anos no poder.

"Intolerância" à dissensão
A vaga de manifestações começou em 2011, inspirada pela Primavera Árabe na Tunísia, Egipto e Líbia. Mas sem uma adesão popular expressiva. “As pessoas sentem medo”, diz Leslie Lefkow. Os protestos reúnem poucas pessoas nas ruas. “Apesar de serem de pequena dimensão e pacíficas, o Governo reage a estas acções duramente, como se responde a uma ameaça.” E conclui: “É evidente que este partido [o MPLA], no poder há mais de três décadas, não tolera a dissensão pacífica.”

Rafael Marques, no site Maka Angola, denuncia “a bestialidade dos homens do Presidente”, de quem diz já não conseguirem “disfarçar a sua incapacidade política e intelectual" face à "pressão" destes jovens" sem ser pelo recurso à "violência”.

Do outro lado, estão os jovens que, lembra Rafael Marques, num “dos países mais jovens do mundo”, constituem dois terços da população (os que têm menos de 25 anos). E conclui: “Perante a corrupção e as injustiças do seu país, a força e a coragem da juventude são uma esperança para todos os angolanos.” 
 

Notícia actualizada às 22h17. O primeiro parágrafo foi alterado para incluir que os sete jovens foram condenados ao pagamento de uma caução e libertados.