Ozu: o gosto do simples

Artista genial, Ozu sabia que a técnica não é inocente e que cada escolha estética tem de traduzir as convicções profundas e intransigentes do seu criador

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Apesar da sua reputação, "Viagem a Tóquio" e "O Gosto do Saké" nunca tinham passado nas salas de cinema portuguesas. Mas vendo hoje as duas obras-primas de um dos mais importantes cineastas do mundo, podemos confrontar a visão daquele que foi considerado o “mais japonês” de todos os realizadores, com o mais notório cinema que se faz hoje.

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Apesar da sua reputação, "Viagem a Tóquio" e "O Gosto do Saké" nunca tinham passado nas salas de cinema portuguesas. Mas vendo hoje as duas obras-primas de um dos mais importantes cineastas do mundo, podemos confrontar a visão daquele que foi considerado o “mais japonês” de todos os realizadores, com o mais notório cinema que se faz hoje.

Os manuais dizem: os filmes de Ozu são quase todos iguais – a câmara fixa, colocada a um metro do chão, como se fosse o olhar de um espectador sentado, os pequenos dramas das famílias japonesas a lidar com as mudanças económicas e sociais, as histórias onde aparentemente pouco ou nada acontece mas onde perpassam os dilemas e incertezas dos protagonistas, a minúcia dos cenários cujas cores suaves se aproximam da arte nipónica tradicional, a delicada sensação de passagem do tempo transmitida em pequenas cenas e pormenores.

Ozu sabe que o carácter de uma obra, tal como de uma pessoa, se define por aquilo que rejeita e não por aquilo a que se submete. Por isso os seus planos são fixos e baixos para permitir ao espectador contemplar a ação sem se deixar atordoar por ela. E a continuidade entre as cenas é estabelecida por planos breves de edifícios para transmitir a respiração do espaço e do tempo. A sua composição de cenas começa quase sempre com um cenário vazio que se vai enchendo de personagens, que depois partem até deixar de novo o vazio atrás de si, como se cada cena fosse a vida completa de uma pessoa, desde o seu surgimento, efervescência e lento apagamento.

A sua estratégia de filmar diálogos, por exemplo, escapava à técnica convencional de mostrar planos alternados de personagens ligeiramente de lado – para dar ao espectador a ilusão de estar no meio da conversa –, e Ozu preferia mostrar os atores a falar de frente para a câmara, para revelar as matizes mais subtis de cada palavra e cada olhar.

Artista genial, Ozu sabia que a técnica não é inocente e que cada escolha estética tem de traduzir as convicções profundas e intransigentes do seu criador. Por isso a sua arte refletia o budismo zen, de que tudo devia ser reduzido à máxima simplicidade, de que só no mais ínfimo pormenor estava o sentido e a beleza, e de que a ação humana era inútil para escapar à dupla face de sofrimento e alegria, solidão e companheirismo, mudança e continuidade que compõem o mundo.

Ao mesmo tempo, Ozu acreditava na sensibilidade do espectador, capaz de dedicar a sua atenção às emoções, às personagens e ao mundo que desabrocham no ecrã. E é aqui que Ozu está noutro século e noutro continente em relação aos "blockbusters" que imperam nas salas de cinema. É que nestes, quase sempre, existe a vertigem do movimento e a ilusão da verosimilhança, mas com o simples intuito de atordoar o espectador e mascarar a verdade, estética e ética que estão deles ausentes.