Será o futebol um jogo justo?

A verdade é que, e tentando ser objectivo, penso que há, no futebol, muito lugar para a sorte, e portanto, para a injustiça

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Great Beyond/Flickr

No final de um jogo de futebol, quem perde nunca está satisfeito. Por cá, a culpa, por princípio, é sempre do árbitro. Às vezes, do treinador. Quase nunca dos jogadores ou do presidente. Mas, atribuições de culpas à parte, quantas vezes já ouvimos dizer que o resultado não é justo? A nossa equipa jogou melhor, rematou mais, até atirou duas bolas ao poste e a outra, na única vez que foi à nossa baliza, marcou, acabando por ganhar o jogo… A verdade é que, e tentando ser objectivo, penso que há, no futebol, muito lugar para a sorte, e portanto, para a injustiça.

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No final de um jogo de futebol, quem perde nunca está satisfeito. Por cá, a culpa, por princípio, é sempre do árbitro. Às vezes, do treinador. Quase nunca dos jogadores ou do presidente. Mas, atribuições de culpas à parte, quantas vezes já ouvimos dizer que o resultado não é justo? A nossa equipa jogou melhor, rematou mais, até atirou duas bolas ao poste e a outra, na única vez que foi à nossa baliza, marcou, acabando por ganhar o jogo… A verdade é que, e tentando ser objectivo, penso que há, no futebol, muito lugar para a sorte, e portanto, para a injustiça.

Em teoria dos jogos costuma-se definir a qualidade de um jogo em função do grau com que a sorte influencia o resultado. Quanto mais influenciar, pior é o jogo. O jogo ideal é aquele em que apenas as qualidades dos jogadores acabam por ser importantes para o resultado final. Um exemplo paradigmático é o xadrez: não há sorte e azar no xadrez para além daquilo que possa ter sido uma jogada precipitada. Mas até isso é já uma consequência da qualidade dos jogadores: para se ganhar no xadrez tem-se que ser mais inteligente mas também mais concentrado…

No futebol, bem sabemos, não é assim. No futebol, nem sempre ganha a melhor equipa, nem sempre ganha quem jogou melhor. E isso deve-se às próprias regras e dinâmicas do jogo. De facto, aquilo que determina a superioridade de uma equipa face à outra são os golos. Acontece que esse evento é raro (o normal é acontecerem dois ou três golos em 90 minutos), logo mais susceptível a influências do acaso.

No basquete, pelo contrário, o evento que marca a diferença, o cesto, é abundante. Por existirem muitos cestos durante uma partida, o azar diluiu-se. Se, numa ou noutra tentativa a bola quase entrar mas rodar pelo aro e sair, nas outras 40 tentativas esse azar não acontece e a bola acaba mesmo encestada. Feitas as contas, no final do jogo, a equipa mais competente acaba sempre por ganhar. No futebol não.

O caso da final da liga dos campeões entre o Manchester United e o Bayern de Munique, em 1999, em que o jogo é virado nos descontos, é bem o exemplo de como o futebol é dado a sortilégios em que nem sempre ganha quem merecia ganhar. Muitos dizem que isso é o sal do futebol, ou a magia. Eu não me consigo entusiasmar com tamanha fragilidade do jogo face à ventura. Gosto de jogos em que seja premiado o mérito e não o acaso (para vibrar com a sorte existem os jogos de fortuna e azar, como a roleta, onde o interesse não é saber quem joga bem ou quem merece ganhar mas vivenciar a adrenalina que a incerteza propicia).

Num campeonato com muitas jornadas, já sabemos, este problema dilui-se e, mesmo no futebol, acabam por ganhar os melhores. Mas o ponto mantém-se: enquanto adepto, vibro com as vitórias do meu clube, tenham sido elas resultado do mérito dos jogadores ou caído dos céus aos trambolhões com um golo de sorte no último minuto. Enquanto apreciador de um espectáculo e da qualidade de um jogo, acho que o futebol deixa muito a desejar.

No final de contas, a todos que somos adeptos de futebol, resta-nos torcer para que a nossa equipa seja competente, bem treinada e bem gerida. Mas nunca nos podemos esquecer de fazer figas…