França é uma casa portuguesa, com certeza

Os temas da emigração começam a tomar conta das artes, como no caso do cinema, com o filme “A Gaiola Dourada”

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Quando, por opção mais ou menos forçada, somos privados do nosso contexto, da nossa realidade, da nossa identidade e das nossas origens, tornamo-nos pessoas irrevogavelmente diferentes, enriquecidas pelas potencialidades do novo, em que outras “gentes e ares” trazem mais conhecimentos sobre as dinâmicas psicossociais onde nos tentamos inserir e, simultaneamente, empobrecidas pelo afastar do nosso porto-seguro. O medo castrador do “novo” pode acabar por se sobrepor à vantagem da descoberta.

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Quando, por opção mais ou menos forçada, somos privados do nosso contexto, da nossa realidade, da nossa identidade e das nossas origens, tornamo-nos pessoas irrevogavelmente diferentes, enriquecidas pelas potencialidades do novo, em que outras “gentes e ares” trazem mais conhecimentos sobre as dinâmicas psicossociais onde nos tentamos inserir e, simultaneamente, empobrecidas pelo afastar do nosso porto-seguro. O medo castrador do “novo” pode acabar por se sobrepor à vantagem da descoberta.

Num contexto onde a sedimentação social é enorme, muitos começam a ser os contributos nas artes para a visibilidade da vida dos emigrantes portugueses. Um deles é o filme “A Gaiola Dourada”, de Rúben Alves, que se foca em torno de um casal de emigrantes de meia-idade, a viver em Paris, que descobre a possibilidade de subitamente ver remediadas as dificuldades económicas, bem como a possibilidade do regresso a Portugal.

Segue-se uma narrativa sobre o modo como tentam lidar com a situação desejada/incómoda, sendo no entanto mais importante para mim o enquadramento onde se insere esta história. Este filme aborda alguns dos estereótipos sociais criados em torno da servilidade e da ideia de classe operária “parola” que alguns agentes sociais criaram sobre estes emigrantes. Acaba-se por questionar “afinal quem são? Quem são estas afáveis criaturas que todos querem? E porque os querem?”, abordando o gradual despertar dos emigrantes para uma nova vaga de valorização pessoal e empoderamento, em que os portugueses passam a ser vistos, não como mão-de-obra barata, fácil, disponível e desprotegida, mas como pessoas num todo, salientando-se a sua imensa capacidade pessoal e social. Pessoas que são capazes de ocupar os clássicos postos de criadas/porteiras/pedreiros, mas também de pais e mães vigilantes, sendo mesmo ídolos e ícones para os filhos dos patrões; pessoas de uma versatilidade enorme, que num momento estão a compor uma torneira e no outro a ultrapassar a mais fogaz dificuldade burocrática sem domínio da língua francesa que, empiricamente vão adquirindo com o tempo.

Estes portugueses, retratados no filme e que conheço bem de perto na realidade, não representam, stricto senso, a nova vaga de emigração com que Portugal se depara. No entanto dão um enorme contributo, promovendo a dignidade e a diminuição de estereótipos profundamente retardantes, já que, apesar de tudo, abrem caminho a uma mentalidade de aceitação inter e intracultural.

A crescente formação, informação e preparação dos nossos emigrantes tem sido uma mais-valia para a sua integração. Mas, o que dá força e energia a estes nossos guerreiros fora de terras lusas, continua a ser a mistura entre a alegria da união que se vive nas comunidades, conjugada com o estabelecer de metas a pensar na família e na possibilidade de poder voltar a Portugal.

Para as comunidades de emigrantes portugueses, França é uma casa portuguesa, com certeza, já que “se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co' a gente”, e fartura de carinho é coisa que não falta, como cantaria Amália Rodrigues. Talvez até sejam um exemplo de união a seguir noutras comunidades.

Ps: Um bem-haja a todos os emigrantes portugueses, em especial ao meu pai.