Akio Suzuki & David Maranha: Xamãs contemporâneos

Juntos e cúmplices na linguagem sonora, Akio Suzuki & David Maranha iniciam uma viagem sem destino, intuitiva, vagueando ao sabor dos ruídos que improvisam

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A Natureza nunca se apresenta absolutamente silenciosa: brisa, borboleta, voo, pássaro, rio, onda, chuva, trovão, luz, lua, folha, rocha, montanha… O que dela escutamos? Em que cremos quando penetramos no seu holismo musical?

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A Natureza nunca se apresenta absolutamente silenciosa: brisa, borboleta, voo, pássaro, rio, onda, chuva, trovão, luz, lua, folha, rocha, montanha… O que dela escutamos? Em que cremos quando penetramos no seu holismo musical?

Integrada no ciclo Matérias Vitais, esta performance sem nome surge da colaboração entre o japonês Akio Suzuki — figura incontornável da performance e experimentação do som desde inícios dos anos sessenta e David Maranha — um dos pioneiros da música experimental portuguesa. Juntos e cúmplices na linguagem sonora, iniciam uma viagem sem destino, intuitiva, vagueando ao sabor dos ruídos que improvisam.

O parque de estacionamento do Museu de Arte Contemporânea de Serralves é o lugar escolhido para o segundo encontro com o público. Espaço frio, acanhado e cinzento, de onde se recorta (como convém ao arquitecto Álvaro Siza) uma entrada de luz e o verde dos arbustos exteriores. Desde a entrada, enquanto os espectadores ocupam o espaço em círculo, Suzuki toca uma flauta artesanal, movimentando-se em passos lentos. A paisagem é aquecida pelo som das batidas do tambor xamânico de Maranha que reverbera pelo ar, penetrando a matéria dos corpos que vibram com ele. Associa-se ao ritmo físico interno, da terra, que é o do bater do coração e que antecipa uma espécie de ritual ancestral.

A paisagem é também visual, mesmo aos que fecham os olhos para que seja imaginada. Com Suzuki, na sua postura enraizada ou balançada, na gestualidade fina, mas precisa, manifesta-se, quase sem equívocos, a origem xintoísta. Trata-se da expressão e celebração do divino copulando o céu e a terra como culto dos kami. A presença e permanência serena do performer associa-se à manipulação contínua dos instrumentos que o próprio constrói: a flauta substitui uma pedra-flauta herdada e perdida algures pela Europa; o Analapos, criado nos anos setenta e composto por dois cilindros metálicos unidos por um cabo espiralado, propaga ecos acústicos e De Koolmees, uma estrutura onde estão suspensos tubos ocos em vidro, produz um som agudo e melodioso. Suzuki pertence às vanguardas dos movimentos Fluxus e Gutai que reiteraram uma nova relação com os materiais inertes e suas potencialidades. E isso reflecte-se, tal como em Maranha, no diálogo introspetivo que realizam com aqueles objectos. A repetição hipnótica dos sons e seus rumores transmite uma sensação de embalo. Porque afinal a paisagem musical é uma partitura livre que desenha a ligação aos quatro elementos vitais que claramente vamos identificando — Ar, Terra, Fogo, Água.

No final, os músicos recolhem-se do público rumo à entrada exterior. As palmas surgem pausadas mas ininterruptas nos corpos entorpecidos e aterrados da viagem. Akio Suzuki & David Maranha tornaram-se ali xamãs contemporâneos, visionários de uma conexão orgânica primordial sugerida pela abstracção da música. E lá fora, no dia escuro, um pássaro cantou.

Texto elaborado no contexto da colaboração do ciclo Matérias Vitais com o Mais Crítica.