Jesus é um rapaz do meu bairro

2. — Tudo na vida é político, e escolher que não se vai ser político é político — diz Najwan, no palco dos Prazeres. Vim a esta sessão só para o conhecer. Trocámos mails em 2008, quando Mahmoud Darwish morreu. Najwan não era da sua família, o apelido é um acaso. Não fica pesado ser poeta com o mesmo apelido do maior poeta palestiniano? Eu tinha de escrever o obituário de Mahmoud Darwish para o PÚBLICO e falei com Najwan, nascido em 1978. Voltei a escrever-lhe em 2011 da Praça Tahrir, pedindo contactos de poetas egípcios e ele respondeu logo. Antes do Rio de Janeiro nunca nos tínhamos encontrado. 

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2. — Tudo na vida é político, e escolher que não se vai ser político é político — diz Najwan, no palco dos Prazeres. Vim a esta sessão só para o conhecer. Trocámos mails em 2008, quando Mahmoud Darwish morreu. Najwan não era da sua família, o apelido é um acaso. Não fica pesado ser poeta com o mesmo apelido do maior poeta palestiniano? Eu tinha de escrever o obituário de Mahmoud Darwish para o PÚBLICO e falei com Najwan, nascido em 1978. Voltei a escrever-lhe em 2011 da Praça Tahrir, pedindo contactos de poetas egípcios e ele respondeu logo. Antes do Rio de Janeiro nunca nos tínhamos encontrado. 

— Pode haver um poema político excelente e um poema sobre outro planeta excelente — continua ele, no palco. — A pós-modernidade decretou que a boa arte não pode ser política, mas isso é ridículo. O assunto não importa.

3. O moderador pede-lhe para falar do PalFest, o festival palestiniano de literatura que Najwan ajuda a organizar, escolhendo escritores.

— Basicamente são dois autocarros para chegar às pessoas, já que as pessoas não podem chegar ao festival. Porque há um muro, “checkpoints”, cartões de identidade de várias cores, explica ele à plateia, a mais jovem e mestiça plateia carioca que um festival literário pode ter. E remata:

— Como sabem, Jesus é um rapaz do meu bairro. Nasceu em Belém e foi crucificado em Jerusalém.

4. Leitura em árabe, com “encore” a pedido da plateia. É o fim do debate, mas não para Najwan, o mais requisitado. Defensores da Palestina, estudantes de árabe, poetas por estrear, quase uma fila em volta da mesa onde nos sentámos.

— Gosto muito de Mahmoud Darwish — diz-lhe um rapaz, à despedida.

— Estou a pensar mudar de nome — responde Najwan. — É aborrecido viver toda a vida com o mesmo nome.

5. Como vai começar um novo debate, sentamo-nos nos bastidores, empoleirados em dois bancos altos, a falar do rapaz do bairro dele. Em qualquer lugar do Rio nos habituamos a ver, de costas, de frente, sempre o sovaco do Cristo, tanto que já não ocorre perguntar se aquilo é humano. Mas Najwan teve uma epifania ao chegar.

— Ó meu Deus, ele está na montanha! Todo o tempo na montanha crucificado. Dias e noite crucificado. As pessoas que fizeram a estátua não pensaram nisso, mas quando o vejo crucificado penso sempre nisso: devias voltar comigo para Jerusalém.

6. No fim do século XIX, muitos árabes, sobretudo libaneses e sírios, emigraram para o Brasil, incluindo poetas. O “bando andaluz”, como Najwan diz.

— Continuaram a escrever em árabe e nós vemos a influência do Brasil no que eles escreveram. Quando fui convidado para vir aqui, senti uma nostalgia do país onde eles estavam a sentir nostalgia.

Mas Najwan nunca ouviu falar dos netos desses árabes que já escreveram em português, e criaram em português o que não havia, como Raduan Nassar. Então, acima do som da chuva e do debate seguinte, falamos de “Lavoura Arcaica”, do que Raduan escreveu e de como há muito deixou de escrever para se dedicar a uma fazenda que há pouco vendeu, para se dedicar agora ninguém sabe a quê.

— E como é que se fala com ele? — pergunta Najwan.

Aquela pergunta que algumas pessoas fazem sobre Herberto Helder.

7. O PalFest, o tal festival literário da Palestina, é recente, de 2008.

— A abertura e o fecho são sempre em Jerusalém, mas vamos a quatro ou cinco cidades, Nablus, Nazaré, Belém, Hebron…

Ou seja, tanto territórios ocupados como cidades dentro de Israel com grandes populações palestinianas. E Gaza?

— Fomos no ano passado, através da fronteira com o Egipto, depois da revolução da praça Tahrir. Mas tivemos de lutar para isso.

A Primavera Árabe tem passado por várias estações, no caso da Síria é um longo Inverno. Mudou coisas, a começar pelo Egipto. Não mudou coisas, a começar pela Palestina. Vista do exterior, desde o início da Primavera Árabe a Palestina hibernou.

— Não mudou nada, nada — reforça Najwan. — Mas a longo prazo a mudança dos poderes no mundo árabe vai beneficiar os palestinianos, porque Israel beneficiava desses regimes.

 

8. E Jerusalém, onde não estou há quase quatro anos, como vai? É que Najwan não vive só em Jerusalém, vive na Cidade Velha de Jerusalém, dentro das muralhas.

— Tenho um poema chamado “Quds” [Jerusalém, em árabe]. Diz: “Quando te deixo / fico uma pedra. / Quando volto / fico uma pedra.” Não é uma cidade, é a caixa negra do mundo. Seja onde for que estiver, sinto-me nessa caixa negra.

 

9. Najwan saiu do Morro dos Prazeres na segunda semana de Novembro. Chegou a Jerusalém ao mesmo tempo que a guerra. No momento em que termino esta crónica vigora um cessar-fogo, depois de 162 mortos e mais de mil feridos. Leio no “Globo” que “Israel vai dar uma chance ao cessar-fogo”, palavras de Netanyhau. Tenho de escrever a Najwan, a perguntar o que ele acha.

 

(Esta crónica vai estar de férias durante o mês de Dezembro.)