O Rio da Ignorância

Um livro cujos acontecimentos principais circulam em torno da ignorância e silêncio sobre sexo é purgado por pais e professores que não parecem dispostos a falar sobre sexo

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Há algumas semanas passei por uma livraria e reparei, por completo acaso, num livro com um título curioso: “O Rio das Framboesas”, de Karen Wallace, marcado com um autocolante do Plano Nacional de Leitura (PNL). Fiquei intrigado e fui ver na lista online do PNL se estariam mais livros da autora na lista. Mas nem “O Rio das Framboesas”, nem qualquer outro livro da autora, lá estavam.

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Há algumas semanas passei por uma livraria e reparei, por completo acaso, num livro com um título curioso: “O Rio das Framboesas”, de Karen Wallace, marcado com um autocolante do Plano Nacional de Leitura (PNL). Fiquei intrigado e fui ver na lista online do PNL se estariam mais livros da autora na lista. Mas nem “O Rio das Framboesas”, nem qualquer outro livro da autora, lá estavam.

Resolvi enviar um e-mail para o PNL a perguntar se o livro estava ou não na lista ou se tinha sido retirado – e, caso tivesse sido retirado, por que razão. Demoraram cerca de três semanas a mandar-me uma resposta (confesso que pensei que não iria ter resposta, de todo), mas a resposta deixou-me ainda mais perplexo: ao que parece, vários pais e professores enviaram queixas ao PNL por “descrições de cenas de cariz sexual, contidas na obra”, o que levou os especialistas a cargo da escolha da lista a reavaliar e posteriormente retirar o livro (o que, diga-se, acontecera em 2011). Alegadamente, as cenas eram de tal ordem que pais e professores as consideravam impróprias para tratamento em sala de aula.

Não resisti a ir ler o livro. E pasme-se: não existiam descrições de cenas sexuais. Mas existiam coisas muito boas. Citando a personagem principal, uma jovem pré-adolescente no interior do Canadá dos anos 50: “A relação sexual – o acto de penetração do órgão masculino no corpo feminino – acontece dentro de roupeiros. É por esta razão que todos os quartos os têm.” Ou então: “O problema surgia com o sapo espalmado. Ao longo do desenho estava escrita a palavra útero. Ao lado das pernas dizia trompas de Falópio. […] E como detalhes médicos e nomes esquisitos não faziam parte do meu repertório, estava a tornar-se difícil defender os meus argumentos.” Além disto, temos um jovem casal heterossexual adolescente que se beija e que acaba a fugir de casa dos pais porque a rapariga engravidou e a personagem principal a ser castigada pela sua mãe, por ter em sua posse o supracitado esquema do aparelho reprodutor feminino.

Aliás, todas as oportunidades no livro em que os pais da jovem rapariga lhe poderiam ter ensinado algo sobre educação sexual resultam em castigos ou numa rápida mudança de assunto. Foi aí que a ironia me atingiu: um livro cujos acontecimentos principais circulam em torno da ignorância e silêncio sobre sexo é purgado do PNL por pais e professores que não parecem dispostos a falar sobre sexo.

As indicações do Ministério da Educação para a questão da Educação Sexual nas escolas apontam para interdisciplinaridade, para a possibilidade de aproveitar várias ocasiões para abordar as múltiplas valências da sexualidade humana. Ao que parece, porém, nem (alguns) pais nem (alguns) professores estão por demais interessados em criar um ambiente de aprendizagem que pode pegar nos (maus) exemplos – esta descrição dos anos 50 no Canadá seria facilmente encaixada na realidade portuguesa de há bem menos tempo – e transformá-los num exercício crítico; e os especialistas vão atrás.

Eu limitei-me a tropeçar neste livro por acaso. Quantos mais existirão?