Enrique Peña Nieto e a telenovela da política mexicana

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As mulheres adoram Peña Nieto: "É muito humano e é lindíssimo" Henry Romero/Reuters

De tudo o que aparece, o já clássico do YouTube "Hitler fica a saber que...", dedicado à forma como Peña Nieto fala inglês, é o mais suave. A seguir há "Peña Nieto é um ladrão", "Peña Nieto, o fantoche ignorante", "Peña Nieto é gay e fomos amantes durante sete anos", "Peña Nieto mandou violar um preso com um tubo", "O topete de Peña Nieto", "Peña Nieto assassinou a mulher".

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De tudo o que aparece, o já clássico do YouTube "Hitler fica a saber que...", dedicado à forma como Peña Nieto fala inglês, é o mais suave. A seguir há "Peña Nieto é um ladrão", "Peña Nieto, o fantoche ignorante", "Peña Nieto é gay e fomos amantes durante sete anos", "Peña Nieto mandou violar um preso com um tubo", "O topete de Peña Nieto", "Peña Nieto assassinou a mulher".

O que tem este homem para provocar tanta ferocidade nalguns dos seus inimigos políticos e em muitos cidadãos? "Sim, eu também tenho medo" que ganhe, disse-lhe durante uma entrevista colectiva a prestigiada analista política mexicana Denise Maerker.

Enrique Peña Nieto pertence ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), que dominou o México, com autoritarismo, corrupção e violência, durante 70 anos, e que regressa ao poder 12 anos depois de ter sido "deposto" nas primeiras eleições livres desde 1929. Carrega, pois, um pesado lastro do passado. E representa um modo de estar na vida que, para muitos políticos e académicos, representa esse passado. Apesar dos seus 46 anos. "Ele é jovem, mas não é novo", disse Denise Maerker.

Nascido em Atlacomulco, a 55km da Cidade do México, "Quique" é o mais velho dos quatro filhos de uma família da classe média; o pai é engenheiro e a mãe professora. Teve uma educação esmerada do ponto de vista das formalidades e ainda hoje usa frases anacrónicas como "estou ao seu serviço". A mãe mantinha-o aprumado, com as calças bem vincadas e a gola da camisa engomada, e espremia limão sobre o farto cabelo do rapaz para lhe manter a poupa (o topete) que ainda hoje usa. Nos perfis que se publicaram na imprensa mexicana quando se tornou governador do estado do México e durante a campanha eleitoral para as presidenciais, amigos dessa época recordaram que dava muita atenção ao aspecto, que era extremamente cortês mas que era tímido.

Durante a adolescência, o pai levava-o aos comícios do governador do estado do México - o rapaz terá dito na escola que, um dia, seria ele o governador. A seguir foi a vez de um tio, Arturo Montiel, ser governador deste estado, e o rapaz trabalhou para ele distribuindo panfletos e participando noutras acções de propaganda. Os adversários políticos de Nieto dizem que é "um produto" de Montiel, que o orientou na carreira política e o introduziu no circuito social e económico do PRI.

Mónica e Angélica

Ao contrário de outros presidentes mexicanos, Nieto estudou no México (Direito, diz-se que com bolsas do Opus Dei) e trabalhou em empresas com ligações ao poder. Tornou-se governador em 2005. Mas antes, em 1993, este delfim do priismo casou-se com Mónica Pratelini. O casal teve três filhos, mas "Quique" teve cinco - um dos filhos nascido fora do casamento ainda é vivo, o outro morreu com poucos meses.

Não há registos - gravações, entrevistas - de Mónica a falar do casamento. Tudo o que se pode ler e ouvir (na Internet) são testemunhos em segunda e terceira mão. E são desfavoráveis ao novo Presidente mexicano: que estava obcecado com o que o povo pensava dele, que se preocupava demasiado com a aparência, que descurou a família a partir do momento em que a velha guarda priista descobriu o filão que o telegénico e galã "Quique" representava - era o homem certo para o ressurgimento do partido.

Mónica morreu em 2007 e o rumor do seu assassínio instalou-se depressa. De tal forma que, durante um debate no Congresso no ano passado, sobre violência - no estado do México a violência contra as mulheres iguala a de Juárez, o coração do narcotráfico -, uma deputada do Partido de Acção Nacional (PAN, direita), Elena Romero, acusou Nieto. "Não sou eu que digo, são muitos meios de comunicação, que o governador está acusado de ter assassinado a mulher", disse Romero.

Viúvo, Nieto tornou-se no solteiro de ouro do México, perseguido pela imprensa cor-de-rosa. As mulheres desejavam-no e, nos actos públicos, gritavam-lhe "Nieto, bombón, te quiero en mi colchón". A jornalista colombiana Silvana Paternostro foi a uma das muitas inaugurações que Nieto fez antes de oficializar a candidatura e testemunhou o frenesim. "É muito humano e é lindíssimo", disse-lhe uma mulher, Noelia Juárez, depois de protestar, pois a jornalista estava a tapar-lhe a vista.

A beleza do governador tornou-se arma política para os adversários, que o apelidaram de "Barbie macho". "O México não merece voltar a ser governado por um analfabeto", chegou a dizer o cáustico Porfirio Muñoz Ledo, do Partido Revolucionário Democrático (esquerda).

Nieto voltou a casar-se, há dois anos. Ainda governador, contratou uma das mais famosas actrizes de telenovela do México para protagonizar anúncios sobre as suas obras (gastou três milhões de euros nos filmes de propaganda). Para agradecer à actriz, convidou-a para jantar e já não se separaram. Para se perceber o género de homem que é Enrique Peña Nieto, conte-se o episódio da proposta de casamento. O governador levou a namorada numa visita oficial ao Vaticano e, ao ser apresentado ao Papa, puxou Angélica Rivera para ele e disse: "Esta é a mulher com quem vou casar-me em breve."

O casamento foi capa da revista Hola, mas numa entrevista ao casal antes do enlace, Nieto teve de se submeter à pergunta "O vosso romance é real ou é fachada?"

Rivera foi essencial na campanha eleitoral. Aos comícios por todo o México, acorriam milhares de pessoas para ver o candidato e a popular "Gaivota" - Rivera é tratada pelo nome de uma das suas personagens.

A tomada de posse do novo Presidente mexicano está marcada para 1 de Dezembro e Nieto já prepara a transição. Antes, porém, os tribunais vão pronunciar-se sobre o pedido de anulação das eleições feito pelo candidato da esquerda, e que ficou em segundo lugar, Manuel López Obrador.

Obrador, que foi chefe do governo do Distrito Federal (que praticamente só integra a Cidade do México) e é conhecido por "El Peje" (figura mitológica de Tabasco, metade peixe, metade réptil), prometera desistir de ser Presidente se fosse derrotado pela segunda vez. Já o tinha sido em 2006, quando Felipe Calderón, do PAN, foi o vencedor e também então contestou o resultado.

Mas se Peña Nieto carrega o lastro do velho PRI, López Obrador é uma criatura de outro tempo. É um representante da velha esquerda da América Latina e muitos olham para ele como um "empecilho" à progressão da jovem democracia mexicana, como se lia há dias num editorial do jornal espanhol El País. O El Mundo advertia que se "poucos duvidam da sua honradez e tenacidade, muitos desconfiam de [que existe] um projecto pessoal".

O candidato da esquerda falou em compra de votos, em votos extras que apareceram nas urnas e de manipulação eleitoral na televisão ligada ao grande capital priista - métodos que, no passado, garantiam a eterna vitória do PRI nas eleições. Porém, há dias, convocou mais uma conferência de imprensa para acusar o PRI de ter financiado a campanha de Nieto com dinheiro do crime organizado e dos cofres públicos; diz ter prova. E, na quinta-feira, a sua causa ganhou força quando o PAN e o PRD, numa inédita declaração conjunta, se lhe juntaram. Anunciaram a apresentação de uma queixa contra o candidato presidencial do PRI na Procuradoria-Geral da República por suspeita de lavagem de dinheiro e uso de verbas ilícitas na campanha. O PAN exige que o assunto seja clarificado antes de haver uma decisão final sobre o vencedor.

Se até aqui a política mexicana estava em fase novelesca, tornou-se agora um caldeirão político a ferver quando muitos (em especial Peña Nieto) já davam a polémica das irregularidades dos votos por encerrada. Afinal, as eleições de 1 de Julho foram as mais participadas, com 63% dos 80 milhões de eleitores a votar nas 143 assembleias de voto vigiadas por 33 mil observadores nacionais e internacionais e 13 mil jornalistas de todo o mundo.

Com apenas 38% dos votos, Peña Nieto tem ocupado os dias a tentar legitimar-se. Publicitou, onde pôde - jornais, televisões, Facebook -, que já tinha recebido os parabéns dos presidentes dos EUA, Venezuela, Brasil, França, Nicarágua, Argentina, Egipto, Rússia, Alemanha, Itália, Israel... do embaixador da China, do presidente da Comissão Europeia... E deu entrevistas, muitas, aos jornais que interessam nos EUA, em Espanha e no próprio México.

Tenta passar uma mensagem que responda a todas as perguntas. Disse ter crescido num México democrático e que são esses os seus valores; disse que o PRI tem um passado que está morto e que a realidade política e partidária é, agora, diferente; disse até que não está excluído que o PRI mude de nome, de cores e de princípios. "O objectivo da minha geração - disse ao New York Times - não é ideológica ou de patronagem, é libertar o México da pobreza."

Nieto teve mais votos porque os eleitores ainda não confiam totalmente em Obrador, e porque quiseram castigar o PAN e Calderón, que falhou a guerra ao narcotráfico. Muitos, explicou o historiador mexicano Enrique Krauze, votaram em Nieto com uma ideia do passado: "Os jovens não viveram a época do PRI e pensam que foi um tempo de paz."

Mas neste momento, Peña Nieto não pode sequer apresentar-se como o Presidente eleito. Com os processos judiciais em curso, é ainda e apenas "o candidato". O seu lema de campanha foi "Vocês conhecem-me". A verdade é que poucos dos que nele votaram sabem o que esperar deste político. Ainda não se percebeu o que é. Talvez a melhor definição seja a do El País: é um híbrido; metade jovem tecnocrata, metade velho dinossauro priista.