Sérgio gravou a essência do comboio-brinquedo da linha do Vouga

Registou os sons do Vouguinha durante dois anos. Gravou conversas, ruídos de carruagens, histórias. Sérgio Correia é designer e criou o mapa sonoro do comboio que circula há 103 anos. O seu trabalho ainda não terminou

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As histórias dos passageiros, os ruídos mecânicos das carruagens, as conversas dos maquinistas, a máquina do pica, os diálogos casuais sobre a vida, a crise, os políticos, entraram-lhe pelo gravador Zoom com dois microfones em stereo. Os sons do Vouguinha, comboio inaugurado em 1908 pelo último rei de Portugal e que circula entre Espinho e Sernada do Vouga, têm um mapa com estações e apeadeiros. E tanta gente dentro. 

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As histórias dos passageiros, os ruídos mecânicos das carruagens, as conversas dos maquinistas, a máquina do pica, os diálogos casuais sobre a vida, a crise, os políticos, entraram-lhe pelo gravador Zoom com dois microfones em stereo. Os sons do Vouguinha, comboio inaugurado em 1908 pelo último rei de Portugal e que circula entre Espinho e Sernada do Vouga, têm um mapa com estações e apeadeiros. E tanta gente dentro. 

Dois anos, 100 horas de gravações, duas instalações sonoras, uma tese de mestrado em Criação Artística Contemporânea concluída na Universidade de Aveiro. Sérgio Correia, 37 anos, designer de luz e som, é o autor do trabalho académico “Paisagens Sonoras: A Linha do Vale do Vouga”. Uma tese para a faculdade, uma experiência de vida. Um teste à capacidade de ouvir. “Existe um lado social, quase documental, da própria linha, de saber o que as pessoas pensam, dizem. Quis perceber o universo que está agarrado à linha”, revela. A seguir, quer gravar os sons da sua rua

Todas as segundas-feiras, dia de folga no trabalho, Sérgio apanhava o comboio, às 9h00, na estação de São João da Madeira. O gravador sempre à procura de sons para se agarrar. Saía em Oliveira de Azeméis. Voltava a entrar e seguia até Espinho. Por volta do meio-dia regressava a casa, a São João da Madeira. O designer percorria o percurso mais movimentado e familiar da linha. Sempre com os microfones ligados para captar as conversas do dia, os comentários dos passageiros, os sons dos carris. 

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Neste mapa sonoro do Vouginha, podem ser ouvidos 20 episódios que valem por si

O Vouguinha faz parte do seu imaginário de adolescência. Era um meio de transporte para ir à praia de Espinho. “Sempre achei piada a estes comboios mais pequenos do que os outros, a este comboio-brinquedo povoado de ritmos e sons e com um grande conteúdo sonoro para explorar”, afirma. 

No início, Sérgio pensou em afastar-se da sua zona de conforto. Quis colocar de lado as luzes e o som, centrar-se na fotografia e no vídeo. O Vouguinha apareceu-lhe no caminho. Acabou por esbarrar no escritor e compositor canadiano Murray Schafer que defende a ecologia acústica como uma abordagem dos sons do quotidiano que, reconfigurados e transformados, se tornam em matéria artística. Sérgio acabou por voltar às origens, aos sons. “Interessava-me a espontaneidade”, explica. Vestia a pele do passageiro comum, ou de turista acidental, com gravador, máquina fotográfica e auscultadores nos ouvidos. Os passageiros achavam piada ao trabalho. 

As conversas..

Além da reflexão histórica e bibliográfica, a tese de mestrado incluiu três trabalhos práticos. O mapa sonoro com os sons correspondentes ao traçado da linha do Vale do Vouga, e duas instalações sonoras que estiveram expostas na Universidade de Aveiro. Uma com o nome Bom Ouvinte que toca no documentário social e assume o voyerismo sonoro, dos sons de diálogos alheios. E Ausente que revela os sons do Vouguinha sem que ele esteja presente.

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