“Lawrence da Arábia”, de David Lean (1962)

Tem tudo a dimensão do épico: a luz, o calor, a desordem, a violência, a resistência, a manipulação, a transcendência, a loucura

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Forte contraste este: de “Marty”, de baixo orçamento, sem superestrelas, a preto e branco, de pequeno formato, com Ernest Borgnine no principal papel e com um realizador em estreia nas longas-metragens, passar para “Lawrence da Arábia”, uma daquelas superproduções com que Hollywood tentava apoucar a televisão, em Technicolor e Panavision, som estereofónico, juntando Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Jack Hawkins, Anthony Quayle, José Ferrer e Arthur Kennedy e fazendo estrelas de Peter O’Toole (Lawrence) e Omar Shariff (Xerife Ali), pela mão do já consagrado David Lean.

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Forte contraste este: de “Marty”, de baixo orçamento, sem superestrelas, a preto e branco, de pequeno formato, com Ernest Borgnine no principal papel e com um realizador em estreia nas longas-metragens, passar para “Lawrence da Arábia”, uma daquelas superproduções com que Hollywood tentava apoucar a televisão, em Technicolor e Panavision, som estereofónico, juntando Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Jack Hawkins, Anthony Quayle, José Ferrer e Arthur Kennedy e fazendo estrelas de Peter O’Toole (Lawrence) e Omar Shariff (Xerife Ali), pela mão do já consagrado David Lean.

Forte contraste, sem dúvida, mas útil, porque cada um deles, à sua medida, pode servir também para realçar a medida do outro. Em “Lawrence da Arábia” nada é pequeno: nem os feitos a que assistimos nem os espaços em que decorrem nem os egos dos seus autores nem o número dos seus destinatários nem a brutalidade em que todos se movem. Tem tudo a dimensão do épico: a luz, o calor, a desordem, a violência, a resistência, a manipulação, a transcendência, a loucura.

A sua improbabilidade como produto comercial – um argumento político, sem romance, sem mulheres, que Robert Bolt escreveu a partir de “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T. E. Lawrence – foi ultrapassada pelo crédito acumulado por David Lean com o sucesso alcançado com “A Ponte do Rio Kwai” (1957), que o produtor Sam Spiegel tentou replicar.

E conseguiu (ou melhor, conseguiram-no, Spiegel e Lean), tornando assim possível, então e agora, observar a tentativa fantástica de um oficial do Exército inglês forjar uma identidade árabe supratribal, o que consegue, episodicamente, enquanto se mantém como figura aglutinadora desse povo idealizado, entidade que se dissolve por acção combinada das atávicas rivalidades tribais e da desagregação da “persona” que Lawrence se tinha atribuído.

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A sua improbabilidade como produto comercial foi ultrapassada pelo crédito acumulado por David Lean DR

Era tempo do homem que já não queria ser extraordinário. Ou que era algo mais do que isso, como sumariou o político Dryden (Claude Rains), saindo de uma reunião em que discutiam Lawrence (Peter O’Toole) e o general Allenby (Jack Hawkins), que, no Cairo, concedia ou não o armamento de que carecia o Exército do príncipe Faiçal (Alec Guinness), comandado por Lawrence, na sua luta contra os turcos: “Um é meio-louco; o outro não tem escrúpulos”.

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Poster do filme “Lawrence da Arábia” (1962) DR

Neste filme marcante para detentores de carreiras ilustres no cinema, entre os quais se conta, por exemplo, Steven Spielberg, falta falar da música de Maurice Jarre, que construiu um dos temas mais identificáveis entre as bandas sonoras cinematográficas, música que ocupa um papel muito particular, já que precede a longa-metragem, começando a ser executada sem imagens durante vários minutos, o mesmo acontecendo durante o intervalo e no final. A fotografia é de Freddie Young, responsável, com Lean, pela célebre “cena da miragem” em que Omar Shariff entra em cena. Que entrada! E que filme!

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A sua improbabilidade como produto comercial foi ultrapassada pelo crédito acumulado por David Lean DR
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Poster do filme “Lawrence da Arábia” (1962) DR