Gbagbo dá indicações à ONU e às tropas francesas para saírem da Costa do Marfim

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Soldados que apoiam Alassane Ouattara em conversações com elementos da ONU em Abidjan Foto: Reuters

“O Governo pede a partida das forças da UNOCI e Licorne e opõe-se à renovação do seu mandato”, disse a porta-voz Jacqueline Lohouès-Oble (igualmente ministra da Educação), no que parece ser uma radicalização de posições.

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“O Governo pede a partida das forças da UNOCI e Licorne e opõe-se à renovação do seu mandato”, disse a porta-voz Jacqueline Lohouès-Oble (igualmente ministra da Educação), no que parece ser uma radicalização de posições.

“A UNOCI tem interferido gravemente nos assuntos internos da Costa do Marfim”, disse a representante de um Governo que não é reconhecido por grande parte da comunidade internacional.

A missão das Nações Unidas (ONUCI) é constituída por perto de 10 mil homens e a França mantém na sua antiga colónia a Força Licorne, conjunto de 900 militares devidamente mandatados pela ONU para também eles procurarem manter a paz.

O conjunto de militares e polícias destacados pela organização internacional a partir de 2003 tem procurado contribuir para a reunificação do país, depois de uma guerra civil que deixou a Costa do Marfim dividida entre o Norte e o Sul .

Patrick Achi, porta-voz do Presidente eleito Alassane Ouattara, disse que Gbagbo não tem o dreito de pedir à ONU para partir, uma vez que aos olhos de grande parte do mundo já não é chefe de Estado.

“A população é refém de alguém que perdeu as eleições”, declarou Achi à Al-Jazira, acrescentando que a comunidade internacional deveria intervir e passar das palavras aos actos.

No entanto, o actual mandado da ONU limita-se à protecção de civis, não permitindo que os capacetes azuis interfiram na política do país.

Sylvain Touati, investigador do Instituto Francês de Relações Internacionais, declarou àquela mesma televisão árabe que as Nações Unidas poderão ignorar o pedido de Gbagbo, uma vez que já não o reconhecem como chefe de Estado.

Ontem à noite malogrou-se a missão de bons ofícios que o presidente da Comissão da União Africana (UA), Jean Ping, realizara no país, para levar o Presidente Laurent Gbagbo a demitir-se.

A resposta a uma carta que ele levou do Presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, em nome da Comunidade dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), foi apenas: “Eu sou o único Presidente eleito”.

O gabonês Ping acabou por se ir embora, deixando em Abidjan o presidente da Comissão da CEDEAO, Victor Gbeho, que o acompanhava. Entretanto eram disparados tiros contra o quartel-general da ONUCI, já ao princípio da madrugada; e apesar do recolher obrigatório.

O presidente da Comissão da UA dirigiu-se a Argel, a fim de debater com o PresidenteAbdelaziz Bouteflika a constituição de uma eventual força da UA que intervenha na Costa do Marfim, onde Gbagbo não quer aceitar que perdeu as eleições e que o novo Presidente é agora Ouattara, cuja votação foi essencialmente conseguida na parte setentrional do país.

A África encontra-se dividida perante esta situação. Países como a Nigéria, que é o mais populoso de todos, desejariam uma operação militar para derrubar Gbagbo, mas outros, como a Argélia, continuam a preferir que se tente uma solução diplomática.

Tentativas malogradas

Já antes se malograra outra tentativa de mediação, protagonizada pelo antigo Presidente sul-africano Thabo Mbeki, em nome da UA.

Em Washington, o subsecretário de Estado William Fitzgerald recordou a Gbagbo, há 10 anos no poder, que qualquer novo derramamento de sangue, como o que se verificou na quinta-feira, com algumas dezenas de mortos, será da sua responsabilidade.

As Nações Unidas, a União Europeia e UA têm vindo a conjugar esforços para forçar a transferência do poder para o Presidente Ouattara e evitar uma guerra civil.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, insistiram ontem em que Laurent Gbagbo deverá abandonar quanto antes a chefia da Costa do Marfim, sob pena de ficar sujeito a sanções, financeiras e outras.

Gbagbo deve entregar o poder ao seu adversário Alassane Ouattara, que ganhou a segunda volta das presidenciais, em 28 de Novembro, afirmou Ban Ki-moon à imprensa. E Sarkozy foi ainda mais preciso, ao exigir que a passagem do testemunho se verifique “antes do fim da semana”.

Um alto funcionário-norte-americano citado pela BBC recordou que Gbagbo e a família têm casas em diversos países, mas que poderão perdê-las se as sanções vierem a ser aplicadas.

“Existem jurisdições internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, onde o próprio procurador (Luis Moreno-Ocampo) afirma que está a acompanhar muito atentamente a situação e que os que ordenaram já que se disparasse sobre civis serão chamados a prestar contas”, declarou Sarkozy, numa linguagem particularmente dura. “É preciso manter a pressão, ou até mesmo aumentá-la. A única assinatura bancária válida para o Estado marfinense é agora a de Ouattara”, afirmara já a ministra francesa dos Negócios Estrangeiros, Michèle Alliot-Marie.

Preparativos de combate

Charles Blé Goudé, líder dos jovens partidários de Laurent Gbagbo, pediu hoje à população que se “prepare para combater” o campo de Ouattara: “Vamos defender a dignidade e a soberania do nosso país até à última gota de suor”.

Blé Goudé, ministro da Juventude no Governo indigitado pelo Presidente cessante, manifestou a intenção de “libertar totalmente o país. A brincadeira acabou”.

Uma concentração dos “jovens patriotas” encabeçados por aquele caudilho está prevista para hoje à tarde no bairro de Yopougon, em Abidjan, a fim de se “colocarem em ordem de batalha em todo o país”. Segundo ele, “Gbagbo não é o subprefeito de Sarkozy”, para se retirar quando o Presidente francês decidir.

Blé Goudé, o chamado “general da rua”, foi em 2003 e 2004 o ponta de lança de violentas manifestações contra a França na cidade de Abidjan, que é a maior da Costa do Marfim. Desde 2006 está sujeito a sanções das Nações Unidas, com congelamento de bens e proibição de viajar, devido à sua virulência.

Notícia actualizada às 16h40