Crítica

Pela noite dentro

Numa Nova Iorque fora de horas, corre um "buddy movie" em formato de "filme independente". Realizado por um português, Bruno de Almeida. Entre o absurdo e o tocante, uma história de solidões, medos e amizade.

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Um telefone toca e uma existência pacata é abalada para sempre. Albert (Michael Imperioli, o "fura-vidas" Christopher da série "Os Sopranos) vive uma vida tranquila mas monótona, sem alegria. Arriscar é palavra que não faz parte do seu dicionário e até chega a inventar uma indisposição só para se furtar, por puro medo, a sair com uma colega de trabalho. Por isso, não espanta que este agente de viagens nunca tenha ido a lado nenhum; ou que divida o tempo entre o emprego e o apartamento. Até que um dia... o telefone toca.

Do outro lado da linha está Louie (John Ventimiglia, o cozinheiro Artie, também de "Os Sopranos"). É um amigo de infância, mas os dois não podiam ser mais diferentes: Albert, introvertido e sorumbático; Louie, estouvado e alegre. E um pouco louco, ao ponto de ter tentado assaltar um banco e resolvido fugir (bom, na verdade não foi preciso correr; bastou-lhe andar, pois o estabelecimento era de segurança mínima) da prisão onde passou os últimos cinco anos, quando lhe faltavam apenas cumprir duas semanas de pena...

São revelações a mais para Albert, que há já quase uma década não tinha notícias de Louie. Promete ajudar o amigo, mas, à primeira hipótese, denuncia-o à polícia. Uma decisão, motivada pelo pânico, da qual rapidamente se arrepende, indo ao encontro do homem que em criança o metia em constantes sarilhos. Segue-se uma noite louca, recheada de sobressaltos, peripécias e figuras excêntricas...

São as desventuras destas duas personagens e os laços de amizade que entre elas se restabelecem que constituem o essencial de "Em Fuga/On the Run" (1999). Uma co-produção entre Portugal, França e EUA e a primeira longa-metragem de Bruno de Almeida, um português radicado em Nova Iorque desde os anos 80. Mas já antes desta estreia o realizador se notabilizara, ao dirigir a curta "A Dívida" (1993), premiada no Festival de Cannes, e a série de TV documental "Amália - Uma Estranha Forma de Vida" (1995), centrada em Amália Rodrigues.

Entre um e outro projecto surgira a hipótese de fazer um pequeno filme para Lisboa'94. Apesar de nada se ter concretizado, muitos dos conceitos imaginados pelo realizador - acima de tudo, a ideia de um homem deprimido e tímido que no fim ganha uma forte sentido de viver - nunca chegaram a ser abandonados. Algum tempo depois, as peças de uma hipotética longa-metragem começaram a juntar-se no momento em que o cineasta Jonathan Berman contou a Bruno de Almeida uma história verdadeira, que o envolveu a ele e a um amigo fugido da cadeia duas semanas antes de ser libertado. Quando este, com a polícia atrás, lhe telefonou a pedir ajuda, Berman, assustado, denunciou-o...

Viver e morrer em Nova Iorque

A junção deste "caso real" com a ideia inicial do filme sobre Lisboa deu origem a uma história escrita a meias pelo realizador português e Berman. A partir deste "esboço" foi construído o argumento de "Em Fuga", da autoria de Joseph Minion, responsável pelos "scripts" únicos de "Nova Iorque Fora de Horas" (1985), "O Beijo do Vampiro" (1989) ou "Motorama" (1991). Produções de baixo orçamento, inseridas numa lógica de cinema independente em que o filme de Bruno de Almeida também se inscreve. Não só pelo pouco dinheiro com que foi rodado, mas acima de tudo pelas virtudes que exibe, próprias da cena "indie": um estilo solto e espontâneo, a favorecer a improvisação, com a câmara a deixar-se guiar pelos actores.

E de entre os intérpretes, o destaque óbvio vai para a dupla principal: presenças habituais, em papéis secundários mas memoráveis, no "cinema de autor" americano - filmes de Martin Scorsese, Spike Lee, Abel Ferrara ou Hal Hartley -, Imperioli e Ventimiglia têm em "Em Fuga" uma oportunidade rara para brilhar como protagonistas. E não a desperdiçam. De tal modo que não será exagero dizer que a interacção perfeita entre os dois se consubstancia num dos maiores trunfos desta variação, em tons de comédia negra, do modelo do "buddy movie" (fórmula que, já se sabe, depende quase em exclusivo da "química" produzida por um par de opostos).

Melhores amigos desde há muitos anos, a cumplicidade que Imperioli e Ventimiglia transportam para a tela é das coisas mais entusiasmantes do filme. Apesar de tudo o que os separa, Albert e Louie também têm muito em comum: almas solitárias, perdidas na imensidão de uma grande metrópole. Ao longo de uma noite, vão descobrir que precisam um do outro para ultrapassar os seus medos: Albert tem medo da morte e por isso quase não vive; Louie vive de forma excessiva porque tem medo de uma existência "normal" e, no fundo, procura a morte.

Essa dependência mútua, toda a relação que se vai construindo entre dois inadaptados, assume-se como o tema central de "Em Fuga". E, em última instância, é isso que torna o filme, com um pé na amargura existencial e outro na comicidade absurda (bem ao estilo de Minion), inesperadamente tocante.