“Estamos aqui para fazer parte da solução”, diz a EDP sobre as barragens paradas

O presidente da EDP assume que “não há água” e que as cinco barragens paradas pelo Governo vão prejudicar o negócio em 2022, mas garante que não está a pensar em compensações.

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A albufeira de Castelo de Bode é uma das que tem a produção hidroeléctrica temporariamente interdita LUSA/Paulo Cunha

O presidente da EDP diz que a empresa ainda não fez as contas ao impacto de o Governo ter mandado interromper temporariamente a produção em cinco das suas centrais hidroeléctricas e garante que não está a pensar em pedir compensações pela energia que ficou por produzir.

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O presidente da EDP diz que a empresa ainda não fez as contas ao impacto de o Governo ter mandado interromper temporariamente a produção em cinco das suas centrais hidroeléctricas e garante que não está a pensar em pedir compensações pela energia que ficou por produzir.

“Não é uma coisa que estejamos a discutir”, disse o presidente da eléctrica esta quinta-feira, na conferência de imprensa que se seguiu à apresentação das contas de 2021, acrescentando que as centrais ainda estão a funcionar “dentro dos parâmetros dos contratos de concessão”.

O balanço da paralisação das barragens ficou prometido nas contas do primeiro trimestre, mas Miguel Stilwell de Andrade assume que “não há água”. Em Janeiro choveu um terço do que normalmente chove, e em Fevereiro, um quinto do habitual para a época. “Até agora estamos a falar de menos 2 TWh [terawatt hora] de energia produzida por haver pouca água”, descreveu.

O gestor assegurou que a empresa não desrespeitou as quotas mínimas de água na produção hidroeléctrica nos últimos meses (“claramente usámos as centrais dentro dos parâmetros normais”) e assegurou que tem havido uma articulação permanente com entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Direcção-geral de Energia e Geologia (DGEG) sobre a escassez de recurso hídrico.

“Somos bons cidadãos”, afirmou o presidente da EDP, dizendo que a empresa quer “fazer parte da solução e não do problema”. A EDP “trabalha com todas as partes” e faz uma “gestão responsável” para minimizar o efeito da seca e para “salvaguardar água para os usos prioritários” sem “comprometer o abastecimento energético”, acrescentou a administradora responsável pela produção, Ana Paula Marques.

Lucros recuam 18%

O facto de haver menos água e menor produção hídrica na Península Ibérica (menos 26% face ao homólogo) foi um dos factores que a empresa diz ter afectado as suas contas em 2021.

Isso e a subida dos preços de energia nos mercados grossistas, além do aumento das imparidades relacionadas com as centrais térmicas que a EDP está em processo de eliminar do seu portefólio (a geração de energia renovável representa já mais de 75% da produção do grupo).

Em 2021, o resultado líquido da EDP caiu 18%, para 657 milhões de euros, enquanto o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) caiu 6% para 3,723 mil milhões de euros.

A EDP vai propor aos accionistas (dos quais o maior é a chinesa CTG, com 20,22% do capital) um dividendo de 19 cêntimos por acção, em linha com aquele distribuído em 2020.

Miguel Stilwell de Andrade destacou o facto de a empresa estar a cumprir os objectivos do plano estratégico apresentado há um ano, mesmo num “contexto [de mercado] desafiante”, que irá estender-se em 2022, com a instabilidade e preços altos dos mercados energéticos, a seca, e as perturbações das cadeias de abastecimento desencadeadas pela pandemia, que afectam o desenvolvimento de projectos renováveis, mas que também parecem “estar a estabilizar”.

Como exemplo do cumprimento de objectivos, Miguel Stilwell de Andrade destacou o facto de a EDP ter continuado a reduzir o endividamento, atingindo a dívida líquida “mais baixa dos últimos 14 anos”, nos 3,723 mil milhões de euros (menos 6% face a Dezembro de 2020).

O administrador da EDP com o pelouro financeiro, Rui Teixeira, frisou que a empresa “excedeu os objectivos em termos de performance financeira”, e destacou como pontos positivos o “crescimento recorde” de 2,6 gigawatts de capacidade renovável instalada e a integração do negócio de redes comprado em Espanha e reforço desta mesma área de negócio no Brasil, que “beneficiaram do aumento da inflação”.

No “lado menos bom”, o administrador da EDP apontou a área de gestão de energia, que foi afectada quer “pela falta de chuva”, quer pelos elevados preços de mercado da electricidade. “Vendemos mais energia do que temos capacidade de produzir” e a diferença é comprada em mercado, onde os preços têm atingido valores muito elevados desde o Verão.

Segundo a EDP, o resultado do negócio de gestão de energia teve uma redução de 330 milhões de euros face ao ano anterior.

Apesar de a EDP Renováveis ter menos potência instalada em Portugal do que há um ano (menos 86 megawatts, para um total de 1142 megawatts) e nenhuma nova potência em construção, o presidente da EDP garante que quer continuar a investir no país e que a eléctrica irá “participar em todos os leilões”.

Sobre o leilão para produção renovável na antiga central a carvão do Pego, em que a proposta da EDP Renováveis foi a última classificada num conjunto de seis (com a Endesa na liderança, de acordo com o relatório preliminar do júri do concurso), Miguel Stilwell de Andrade garantiu que o grupo pôs “empenho total” na sua proposta, que foi “agressiva, boa e realista”, e diz estar a aguardar para ver “a decisão que será tomada”.