Quando vale a pena passar cinco anos a preparar 14 segundos

Para muitos pode ser um desperdício de tempo, para outros vale cada instante, mesmo se a experiência olímpica é assim tão fugaz.

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O combate entre Chibana e Boniface de quimono azul Sergio Perez/Reuters

Foram apenas 14 segundos. Breves, fugazes 14 segundos que a judoca do Malawi, Harriet Bonface, de 28 anos de idade, se manteve neste sábado no tatami do Budokan, o pavilhão onde decorrem os combates do torneio olímpico de judo. Foi o tempo que a atleta africana teve no palco dos Jogos, depois de ter passado cinco anos a preparar a sua participação olímpica.

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Foram apenas 14 segundos. Breves, fugazes 14 segundos que a judoca do Malawi, Harriet Bonface, de 28 anos de idade, se manteve neste sábado no tatami do Budokan, o pavilhão onde decorrem os combates do torneio olímpico de judo. Foi o tempo que a atleta africana teve no palco dos Jogos, depois de ter passado cinco anos a preparar a sua participação olímpica.

A história de Bonface conta-se de forma rápida, mas, mesmo assim, não tão rápida quanto o tempo que esta judoca do Malawi, recentemente eleita como representante africana para a Comissão de Atletas da Federação Internacional de Judo, teve de combate.

Sorteada para defrontar a brasileira Gabriela Chibana na primeira ronda da categoria de -48kg, Bonface não foi capaz de impedir um ippon da sua adversária no primeiro ataque desta, desferido apenas 14 segundos depois do tradicional cumprimento entre as judocas que antecedeu o início do combate inaugural do torneio olímpico.

“Eu estava concentrada, mas ela surpreendeu-me. Uma pessoa prepara-se tanto, atravessa o mundo para chegar aqui e lutar apenas por alguns segundos”, desabafou Bonface no final da sua efémera presença nestes Jogos.

O caso de Bonface, contudo, não é único, nem sequer virgem. É apenas mais um exemplo de como os Jogos Olímpicos também têm este lado mais cruel. E, no entanto, nenhuma das vítimas dessa crueldade se mostra arrependida do esforço e dedicação gastos na preparação da sua presença olímpica, por mais instantânea que seja.

O guatemalteco José Ramos, por exemplo, derrotado pelo ucraniano Artem Leziuk em apenas 2m28s no terceiro combate do dia de ontem na categoria de -60kg, revelou-se conformado. “Quando competimos num desporto como o judo, sabemos que algo assim pode acontecer. Preparamo-nos para que não aconteça, mas podemos ter pela frente um adversário mais forte e perder” disse ao jornal Folha de São Paulo depois de dois waza-ari terem terminado com o seu sonho olímpico.

Mas há exemplos com finais felizes. A israelita Shira Rishony, de 30 anos, estreou-se no Rio 2016, onde também esteve poucos segundos no tatami. Foi desqualificada por ter usado um cotovelo de forma irregular frente à ucraniana Maryna Cherniak e saiu a chorar.

Cinco anos depois, apurou-se para Tóquio 2020, venceu os seus dois primeiros combates antes de perder para a mongol Urantsetseg Munkhbat. A derrota surgiu nos quartos-de-final o que lhe permitiu disputar a medalha de bronze. Não a conquistou e voltou a sair do tatami a chorar. Mas a fugaz presença no Rio 2016 estava definitivamente para trás das costas