Esconderijo de amantes

Não é raro vermos nos primeiros encontros a paixão no seu estado bruto, animalesco. É o amor sem futuro, sem expectativas, que nos faz efervescer.

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Mag Rodrigues

No quarto de pensão sem categoria, o bafo quente do Verão arrombava, através da exígua varanda com vista para o lado sujo da cidade, o cubículo com uma cama de casal, pago por apenas algumas horas. Enquanto este corpo soçobrava de desejo dentro de um vestido curto, o cheiro a mofo e a detergente do chão misturavam-se com o perfume caro adquirido para a ocasião. O resultado da estranha mistura de fragrâncias exaltava a libido, já bastante acesa.

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No quarto de pensão sem categoria, o bafo quente do Verão arrombava, através da exígua varanda com vista para o lado sujo da cidade, o cubículo com uma cama de casal, pago por apenas algumas horas. Enquanto este corpo soçobrava de desejo dentro de um vestido curto, o cheiro a mofo e a detergente do chão misturavam-se com o perfume caro adquirido para a ocasião. O resultado da estranha mistura de fragrâncias exaltava a libido, já bastante acesa.

Quem eu esperava chegou pouco depois. Tremiam-me os lábios maquilhados de vermelho e as pernas nuas, depiladas a gilette horas antes. Aproximou-se e, sob a luz alaranjada vinda da rua, vimo-nos. Não sabia ainda que seria um grande amor. Não é raro vermos nos primeiros encontros a paixão no seu estado bruto, animalesco. É o amor sem futuro, sem expectativas, que nos faz efervescer. Duas pessoas ainda desconhecidas, frente a frente, literalmente despidas, alicerçadas somente no presente.

Poucas coisas contêm a força e a beleza dos primeiros encontros com alguém por quem nos estamos a apaixonar. Daí os lábios trémulos, as pernas bambas, o corpo que não consegue mentir perante a evidência do assombro. São carne e fogo e segredo, os corpos dos amantes.

Depois dessa primeira noite de pensão, outras noites, noutros quartos baratos, se seguiram. Criámos adição ao secreto, procurávamos novos esconderijos — mais sujos, mais escuros, mais estranhos. Quartos sem cortinas onde colocámos cobertores nas janelas, para encobrir os corpos tão expostos à luz da tarde; quartos onde se ouviam inquilinos chinelando pelos corredores até às máquinas de comida; quartos feios, de lençóis emporcalhados que não chegávamos a usar, fazendo das paredes frias o colchão onde nos deleitávamos à bruta.

Inventámos um roteiro de esconderijos sujos na nossa cidade, e o nosso amor, talvez por antagonismo, pareceu sempre mais limpo do que o mundo.