A escola da Erada reabre para eleições mas deixou de receber crianças

Nas últimas legislativas, só houve um caso de boicote. A população de uma freguesia da Covilhã estava em luta contra o encerramento de uma escola que acabou mesmo por fechar.

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“Se não servia para estudar, também não servia para votar”. Foi desta premissa que nasceu, de acordo com Sara Fonseca, o boicote eleitoral que em 2015 fechou uma escola na Erada, uma aldeia de perto de 500 almas do concelho da Covilhã. Quando foi contactada telefonicamente pelo PÚBLICO, Sara Fonseca, que foi parte de um grupo que organizou o protesto, estranhou o interesse. Já lá vão quatro anos e o dia então passado à chuva de pouco ou nada valeu (a não ser a atenção de alguma comunicação social) e a escola acabou mesmo por encerrar.

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“Se não servia para estudar, também não servia para votar”. Foi desta premissa que nasceu, de acordo com Sara Fonseca, o boicote eleitoral que em 2015 fechou uma escola na Erada, uma aldeia de perto de 500 almas do concelho da Covilhã. Quando foi contactada telefonicamente pelo PÚBLICO, Sara Fonseca, que foi parte de um grupo que organizou o protesto, estranhou o interesse. Já lá vão quatro anos e o dia então passado à chuva de pouco ou nada valeu (a não ser a atenção de alguma comunicação social) e a escola acabou mesmo por encerrar.

Em 2015, três urnas abriram com atraso: duas por falta de boletins, uma por protesto da população. A escola básica da Erada tinha sido encerrada em 2014 e as 17 crianças transferidas a aldeia vizinha do Paúl. No dia das eleições, foi um cadeado a impedir o acesso às urnas. “Não compreendíamos o porquê de estar a fechar, quando havia escolas no mesmo concelho com menos alunos, que hoje estão abertas. A nossa poderia ficar igual”, refere Alexandre Barata, também da Erada e com um filho que frequentava a escola, hoje com 13 anos.

A GNR acabou por remover o cadeado e o local de voto abriu pouco depois das 9h. No entanto, apesar do mau tempo, os manifestantes, vestidos de preto e com cartazes alusivos à causa, não arredaram pé. O piquete foi sendo alimentado pela gente da aldeia, com almoço e arroz doce, e “houve pessoas que chegaram, viram o protesto, que foi pacífico, e já não votaram”, lembra Sara Fonseca, cuja filha tinha então três anos.

E a luta teve impacto na votação, ainda que apenas a nível local. Comparando com 2011, o número de votantes caiu para perto de metade na freguesia da Erada. É certo que o número de inscritos também diminuiu (de 883 para 774), mas a abstenção, que tinha sido de 43,71% quatro anos antes, acabou por trepar até aos 66,41%.

Uma questão de aceitação

Mesmo antes das eleições, a Junta de Freguesia da Erada tinha submetido uma providência cautelar, recorda o presidente, João Ramos Almeida. Não deu em nada. “As pessoas já aceitaram”, diz, ele próprio num tom resignado. Em 2016, Os Verdes ainda perguntaram no Parlamento sobre a possibilidade de reabrir a escola, mas a iniciativa também não teve sucesso.

As crianças da Erada passaram a ir para o Paúl numa carrinha da câmara. Agora, a escola é casa de duas associações locais e volta a abrir de tempos a tempos para receber as urnas.

As crianças são crianças e “adaptam-se bem a qualquer situação”, diz Alexandre Barata, para explicar que a transição não foi problemática. Nem foram para longe: são cinco ou seis quilómetros até ao Paúl, estima. “Mas é desenraizar as crianças da terra. Quem dá vida a uma população são as crianças. Não há aquela vida, não há aquela irreverência”, conta. E uma aldeia que já sofre das dores do interior tem mais dificuldade em fixar pessoas se não houver uma escola, acrescenta Sara Fonseca.

O encerramento afectou também o centro paroquial que fornecia as refeições e que funcionava como tempos livres. “Sabia que, mais ano menos ano, ia acontecer por não ter meninos suficientes”, concede. Mas entende que foi prematuro. Neste momento, há cinco crianças a serem transportadas para o Paúl, refere. Os mais velhos já foram para o ciclo.

Quando se fala na actualidade portuguesa, “na maior parte dos casos”, os boicotes a eleições “remetem para questões locais”, começa por explicar ao PÚBLICO António Costa Pinto, politólogo, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e professor convidado do ISCTE. Acabam por servir para obter “destaque mediático”.

Tanto o exemplo da escola da Erada como os boicotes organizados este ano (ver caixa) confirmam a explicação do investigador. O mesmo se aplica a eleições anteriores. De acordo com António Costa Pinto, o boicote acaba por não ter “uma função de perturbação nem de ilegitimação” das eleições em si, como aconteceu em vários momentos no passado, com a existência de partidos anti-sistema.

De 2015 para cá, vieram presidenciais, autárquicas e europeias. A mulher de Alexandre Barata, Sílvia Pereira, diz que, a partir daquele dia, nunca mais votou. “Rasguei mesmo o cartão de eleitor”, conta, antes de passar a palavra ao marido. Garantiu que, neste domingo, também não voltaria à escola que fechou para o ensino. Alexandre abriu uma excepção naquele dia para enviar aquela mensagem mas, entendendo ser esse o seu dever, continua a votar.

“Na altura, dizíamos que nunca mais votávamos”, lembra Sara Fonseca. Acabou por não o cumprir. Tal como a Alexandre Barata, a justificação surge-lhe com facilidade: “É um dever cívico nosso”.