A solidão crónica da sociedade e o poder de um simples “olá”

Somos seres sociais mas estamos a perder o hábito de nos relacionarmos, de nos tocarmos e inclusivamente de nos saudarmos. Vivemos uma era na qual preferimos registar momentos através de lentes fotográficas ao invés de os viver.

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Em 2016, Oprah Winfrey lançou uma campanha designada Just Say Hello, com o objectivo de sensibilizar para a solidão crónica da sociedade em que vivemos, o que me lembrou alguns episódios.

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Em 2016, Oprah Winfrey lançou uma campanha designada Just Say Hello, com o objectivo de sensibilizar para a solidão crónica da sociedade em que vivemos, o que me lembrou alguns episódios.

Recordei-me de uma vez criança me ter admirado pela forma amistosa e próxima como as pessoas se tratavam nas aldeias. Recordo-me daquele calor e daquela alegria, a mesma que hoje me faz entrar no café ensonada pela manhã e obriga-me a vociferar um “bom dia, alegrias” ou “olá, minhas lindas” para as funcionárias do café onde religiosamente vou, despertando a máquina para o novo dia.

A verdade é que um simples “olá” daqueles sentidos, sem automatismos, é uma chave simples para abrir muitos portões, entre nós, os outros e muitas vezes uma chave para novas oportunidades. Quem nunca devolveu um sorriso a uma saudação com as mãos pela parte de outro condutor no trânsito?

O poder de um olá recorda-nos, nem que seja numa milésima de segundos, que vivemos em sociedade e hoje sou grata aos que me ensinaram a saudar tudo e todos seja no elevador, pelos corredores do hospital, no café, entre outros.

Um grupo de investigadores da Universidade de Chicago concluiu que a solidão é o maior mal da nossa sociedade. Afirmam que a solidão entendida como isolamento social pode representar uma ameaça maior do que a obesidade para os sistemas de saúde. Este estudo tinha como objectivo comprovar como as relações sociais influenciam directamente a nossa saúde, afirmando que o estabelecimento de relações sociais saudáveis pode inclusivamente influenciar a taxa de mortalidade.

Dito assim parece uma realidade banal, mas não o é e é fácil perceber o ciclo vicioso da solidão e do isolamento social porque ele está em todo o lado sobretudo na nossa era tecnológica, a mesma na qual o ser humano vive cada vez mais anos graças ao aumento gradual da esperança média de vida.

Somos seres sociais mas estamos a perder o hábito de nos relacionarmos, de nos tocarmos e inclusivamente de nos saudarmos, coisa que sempre pertenceu aliás à dita “boa educação”. Vivemos uma era na qual preferimos registar momentos através de lentes fotográficas ao invés de os viver, partilhando-os com os outros. Vemos os outros, mas quase nunca estamos presentes a 100%.

Dispensamos “olás” porque a pressa e a preguiça são palavras de ordem no quotidiano, fazendo respirar a solidão crónica, que um dia acaba por ter tudo para ser contagiosa e alastrar-se na pele de cada um na esfera individual, se não investirmos em quebrar esta corrente.

Com um “olá” real e sincero não vamos diminuir a solidão de ninguém, mas podemos ser mais empáticos com quem se sente mais “sozinho”, demonstrando a essa pessoa que não é invisível nem insignificante.