Neste matadouro na Tailândia matam-se porcos à paulada

Jo-Anne McArthur, fotojornalista e activista pelos direitos animais, testemunhou a brutalidade de um matadouro na Tailândia, onde os porcos são mortos ou atordoados à pancada, antes de serem degolados. Atenção: contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

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JO-ANNE MCARTHUR/ WE ANIMALS PARA O GUARDIAN Jo-Anne McArthur fotografou um matadouro na Tailândia onde os porcos são mortos à paulada.

Jo-Anne McArthur entrou num matadouro em Banguecoque, na Tailândia, para trazer cá para fora a “crueldade” que lá dentro se esconde. A fotojornalista seguiu os animais desde que são postos fora das carrinhas, documentou as más condições de trabalho, o transporte em “confinamento excessivo” e testemunhou o que já sabia — ali, matam-se porcos à paulada.

“Por muito difícil que seja, nós precisamos de ver a violência para sabermos o que estamos a comer. Porque isto é a realidade para milhares de milhões de animais, quer sejam mortos à paulada, quer sejam inapropriadamente electrificados antes de terem o seu pescoço cortado.” As imagens mostram trabalhadores a atordoarem porcos com ferramentas caseiras e, depois, a espancarem-nos com um bastão de madeira antes de lhes cortarem o pescoço e deixarem o cadáver a esvair-se em sangue — acções que contrariam as recomendações tailandesas de mortes “sem crueldade”.

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A Tailândia é o segundo maior produtor de carne de porco na Ásia, uma indústria de mais de três mil milhões de euros (que ainda não foi afectada pela gripe suína africana que está a dizimar animais em quase todo o Sudeste Asiático). O guia tailandês das “boas práticas no abate de porcos" define “atordoamento” como “processos em que os porcos são deixados completamente inconscientes”, antes de começarem a sangrar. McArthur, apoiada por outros activistas do país maioritariamente budista, diz que, dentro dos pequenos e médios matadouros, as normas de protecção e bem-estar animal do país são entendidas mais como “sugestões do que como lei”. 

O dono do estabelecimento que abate 500 suínos por dia estava lá quando a fotojornalista canadiana chegou com o equipamento fotográfico profissional, depois de ser aconselhada por activistas locais. “Não sei se ele pensou que as autoridades [fiscalizadoras] iriam ver as minhas imagens”, conta ao telefone com o P3, a partir do Canadá. McArthur disse ao responsável que se interessava pela forma como os alimentos são produzidos e que estava a fazer pesquisa – e fotografou “à vontade” durante um dia inteiro. “Ele contou que recebeu uns estudantes de medicina veterinária há pouco tempo e que muitos deles vomitaram.”

Em mais nenhum dos 12 matadouros que já fotografou viu mortes à paulada. Mas viu “práticas que magoam o animal”, aponta, em países como Canadá, Espanha, Turquia. Num vídeo de um grupo de activistas britânico, o Moving Animals, divulgado pelo Guardian este mês, trabalhadores num matadouro no Camboja também são vistos a baterem várias vezes nas cabeças dos porcos com uma vara de metal, de forma a imobilizarem o animal antes de lhe cortarem a garganta, sem o atordoamento necessário. Na Tailândia, Jo-Anne também testemunhou as feridas abertas na pele dos animais e o “confinamento excessivo” a que estão sujeitos, quer durante o transporte quer nas fábricas de produção.

“Isso é o principal: nós tratamo-los como objectos, com completa desconsideração por qualquer dor física ou emocional que eles poderão ter neste processo”, alerta. “O foco está em maximizar a produção e o lucro e não no animal senciente, que pode estar a sofrer imenso.” 

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O matadouro no centro da Tailândia abate 500 porcos por dia. Jo-Anne McArthur/We Animals para o Guardian

A fotojornalista franze o sobrolho à expressão “morte humana” – ou “morte ‘sem crueldade’ ou “sem sofrimento inútil”, como é normalmente designado o abate de animais para consumo na legislação europeia. São só termos “para nos sentirmos melhor por comer carne”, defende.

Há 20 anos, Jo-Anne McArthur começou o projecto We Animals para alertar e documentar as formas como os animais são usados para comida, experimentação, entretenimento ou companhia, bem como para responsabilizar as industrias que deles abusam. Por agora, está interessada no crescimento da criação intensiva na Ásia – nomeadamente nos hog hotels, fábricas de produção industrial de uma empresa chinesa construídas em altura para albergar muitos mais porcos (há projectos para edifícios com 13 andares). “Apesar de o vegetarianismo estar a aumentar, o consumo de carne também está a aumentar nas economias em crescimento e estamos a encontrar formas de manter os animais em condições cada vez mais apertadas”, sublinha.

Para o arquivo do We Animals, Jo-Anne McArthur, de 42 anos, já fotografou em mais de 40 países e já disponibilizou as imagens para mais de 100 associações que defendem os direitos dos animais. A trabalhar com ela tem agora uma equipa de sete pessoas. “Tenho vindo a criar um contacto próximo com os animais há muito tempo. E diria que quer eles estejam numa fábrica de produção ou num matadouro, os olhos deles parecem sempre estar sempre a perguntar: “O que é que vem a seguir?”. Eles aprendem desde muito novos a temer-nos. E vi isso em muitas espécies. Com poucas semanas de vida, eles já sabem esconder-se na parte de trás da jaula.”