Opinião

A Terra não foi à Lua e o Homem é redondo

Por motivos que não interessa agora aprofundar, dei por mim a adormecer no dia 15 de Fevereiro de 1988 e a acordar apenas na terça-feira da semana passada.

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Para além de ter perdido as duas vitórias do Sporting no campeonato, na viragem do século, e a reposição do Verão Azul na RTP Memória, em 2009, perdi também o momento em que as teorias da conspiração sobre a chegada do Homem à Lua deixaram de ser um exclusivo da aldeia da minha avó e passaram a ser debatidas nos melhores sítios de brunch das grandes cidades por pessoas com acesso ao Google.

Há duas semanas, poucos dias antes de eu acordar, um dos guarda-redes do FC Porto lançou um desafio aos seus seguidores no Twitter sob a forma de questionário (por decoro, não vou aqui dizer nada que possa revelar a identidade desse jogador): “El año que viene se cumplen 50 años (supuestamente) que el hombre pisó la Luna. Estoy en una cena con amigos... discutiendo sobre ello. Elevo la tertulia a público! Creéis que se pisó? Yo no!”

Não interessa aqui discutir se o jogador estava a brincar ou se estava a falar a sério — afinal, foi para decidir essas coisas por nós que Deus criou as redes sociais e os guerreiros do teclado.

O veredicto foi rápido, com o carimbo da National Geographic: “Iker, sim, o homem chegou à Lua. Deixamos-te aqui fotos e vídeos.” (Um grande LOL para a National Geographic por não saber que os vídeos da chegada do Homem à Lua foram filmados por Stanley Kubrick em 1968 porque a NASA ameaçou revelar que o seu irmão mais novo, Raul, era o líder do Partido Comunista Americano)

Outros, como José Miguel Mulet Salort, professor de Biotecnologia na Universidade Politécnica de Valência e autor da secção “Ciência sem ficção” no jornal El País, puxaram do sarcasmo e dispararam sem piedade: “Na realidade o Madrid nunca ganhou a Liga dos Campeões. Foi tudo uma montagem de Franco que a UEFA seguiu imediatamente.”

Chegou o momento em que as duas pessoas que estão a ler este texto perguntam o que é que isto interessa — então as teorias da conspiração não existem desde sempre?

Não, não existem, isso é o que eles querem que as pessoas pensem. Mas a questão é outra.

Pelos vistos, o tweet do jogador foi suficientemente importante para que vários cientistas, investigadores e governantes tivessem deixado de fazer aquilo que seja lá o que for que eles fazem para escreverem qualquer coisa — o que dificilmente teria acontecido se o tweet tivesse sido escrito por alguém da aldeia da minha avó.

Uma engenheira aeroespacial da NASA, a mexicana Dorothy Ruiz, até deixou de fazer aquilo que seja lá o que ela faz para responder ao jogador: “Então nós, as centenas de engenheiros e cientistas que trabalharam e que trabalham na NASA, sofremos de hipnose colectiva. E, para além disso, somos todos uns loucos porque passamos milhares de horas na base de controlo de missões espaciais esforçando-nos para levarmos a cabo missões imaginárias.”

Se é indiferente que seja a minha avó na década de 1960 ou um jovem informado em 2018 a acreditar que milhões de pessoas em todo o mundo estão metidas num plano para nos fazerem crer que as imagens do Homem na Lua foram filmadas num estúdio de Hollywood pelo mesmo tipo que realizou o Laranja Mecânica, então chegou a altura de termos uma conversa séria sobre o nosso sistema de ensino. E não estou a falar da Matemática que, como toda a gente sabe, é uma ciência inventada por eles para nos lixarem a vida na escola.