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O génio de Rafael é ainda o segredo da longevidade da Bordallo Pinheiro

A fábrica de cerâmica criada por Rafael Bordalo Pinheiro no final do século XIX continua a sobreviver e, agora, mesmo a crescer. Mas a sua história está repleta de crises, resolvidas sempre graças à força do legado artístico e cultural do seu fundador.
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É apenas um pequeno detalhe, uma simples flor no meio de uma peça de cerâmica cheia de elementos, mas para preparar o seu molde, a experiente funcionária da secção de modelagem da Bordallo Pinheiro precisa de pelo menos uma hora. Para preparar todos os elementos, pelo menos mais uma semana de trabalho. E depois, ainda ficam a faltar todos os outros passos do processo de fabrico que inclui juntar as peças uma a uma, prepará-las para a pintura que lhes pode dar o efeito vidrado, pintar uma primeira cor, levar ao forno, pintar outra cor, ir novamente ao forno.

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Na Bordallo Pinheiro fazer uma peça de louça é ainda surpreendentemente semelhante ao que acontecia, não só há nove anos quando a empresa foi comprada pelo grupo Visabeira, mas também há 113 anos quando os trabalhadores se juntaram para evitar o seu fecho após a morte do fundador, ou mesmo há 134 ano quando a empresa foi criada. Mas é precisamente essa fidelidade ao processo de fabrico e ao legado deixados por um dos maiores artistas portugueses que tem sido sempre a chave para que a empresa tenha conseguido sobreviver às várias crises com que se foi deparando ao longo das décadas.

Foi em 1884 que Rafael Bordalo Pinheiro, em conjunto com o seu irmão Feliciano, criou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha - que mais tarde iria mudar de nome para o actual Fábrica de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro. Rafael já era nessa altura um nome de peso em Portugal, como desenhador, ilustrador, jornalista e, principalmente caricaturista, sendo que a forma como interpretava a conjuntura social e política, através da sátira e de figuras como a do Zé Povinho, tinha tido um grande impacto, tanto em Portugal como no Brasil, onde também trabalhou. 

E, aos 38 anos, incentivado pelo irmão (que ficou a tratar das questões administrativas do projecto), decidiu também dedicar-se à cerâmica. Ao fazê-lo, com o seu génio e originalidade, combinados com os conhecimentos técnicos que procurou, tanto nas Caldas da Rainha como no estrangeiro, produziu azulejos, escultura, louça utilitária, decorativa e artística com um cunho muito pessoal e que rapidamente conquistou clientes e a crítica. Porém, a viabilidade do negócio não foi, desde o início, fácil de alcançar e a empresa ao longo da sua história teve de enfrentar diversas situações de morte anunciada. 

A primeira foi logo no arranque, em 1886, quando com a falência iminente, diversos investidores abandonaram a empresa. A salvação surgiu pelo facto de ser já muito valioso o conhecimento acumulado na empresa na área da cerâmica, o que levou o governo na altura a conceder subsídios a troco da criação do primeiro curso de formação profissional do país. A empresa sobreviveu e Rafael Bordalo Pinheiro aproveitou para consolidar a dimensão da obra artística que iria deixar como legado.

A segunda grande crise aconteceu já depois de o fundador morrer em 1905. Nessa altura, com a empresa a declarar falência, foi o filho Manuel Gustavo que, em conjunto com os trabalhadores, fez tudo para garantir que o legado artístico de Rafael Bordalo Pinheiro ficava salvaguardado. Conseguiram na Justiça garantir a posse dos moldes das peças até aí criadas e puseram a funcionar, no mesmo local, a Fábrica de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro. A empresa pôde assim continuar a produzir as peças de Rafael e começou a produzir também peças criadas pelo filho, que de forma menos exuberante, não adulterou a imagem de marca do pai.

Um século depois, mais uma vez a ameaça da falência. E mais uma vez a importância de proteger a obra de Rafael Bordalo Pinheiro a vir ao de cima. Em 2009, com a economia mundial em crise e Portugal outra vez em recessão, surgiram notícias de salários em atraso na Bordallo Pinheiro e da possibilidade de fecho da empresa. 

A reacção da população foi muito forte: as vendas na loja das Caldas da Rainha aumentaram repentinamente e alguns supermercados locais fizeram campanhas de venda com o objectivo de salvar a empresa símbolo da região e o património artístico que representava. Isso não chegou para resolver os problemas financeiros, mas reforçou a ideia de que a Bordallo Pinheiro não era apenas mais uma empresa.

O poder político empenhou-se, através do Governo liderado por José Sócrates, e a solução acabou por estar no Grupo Visabeira que, já com alguma presença no sector e que tinha também adquirido recentemente a Vista Alegre, comprou 76% da empresa por 300 mil euros e injectou imediatamente mais 1,5 milhões de euros.

Dar valor à própria marca

Se o processo de fabrico não teve mudanças radicais ao longo do tempo, o ambiente que se vive actualmente na Bordallo Pinheiro é bem diferente do de 2009, quando a falência parecia quase inevitável. 

Na fábrica, situada na zona industrial das Caldas da Rainha a poucos quilómetros da fábrica original onde se situa neste momento apenas a loja, o espaço de trabalho dos funcionários é, por agora, um estaleiro improvisado de obras. A culpa é da expansão que está a ser feita na fábrica com o objectivo de aumentar em 60% a sua capacidade de produção, mas que, durante uns meses, está a obrigar as diferentes secções a saltarem de local para local, e a trabalharem em espaços improvisados. “É o nosso grande desafio agora: conseguir manter um nível de produção elevado, ao mesmo tempo que se constroem as infra-estruturas para que a produção depois possa ser maior”, explica Elsa Rebelo, directora artística e criativa na fábrica, claramente ansiosa pelo fim das obras, algo que deverá acontecer “brevemente”. 

O desconforto provocado pelas obras, contudo, é também o sinal mais claro de que, depois da crise de 2009, a empresa está claramente numa nova fase. Da falta de encomendas e da ameaça de perda de emprego passou-se para um aumento da procura e para a procura de mais mão-de-obra.

De acordo com os números disponibilizados pela empresa, o número de trabalhadores passou de 187 em 2009 para 255 agora, podendo ainda aumentar quando a expansão da fábrica estiver concluída. A facturação, que era de 2,4 milhões de euros em 2009, supera agora os 6 milhões de euros ao ano, antecipando-se taxas de crescimento elevadas também para os próximos anos.

O que explica este crescimento? Nuno Barra, administrador da empresa, explica que aquilo que mudou com a chegada do grupo Visabeira foi não só a urgente injecção de capital, mas também uma alteração da forma como se valorizava a própria marca. “Logo nos primeiros dias, fomos a uma feira internacional do sector e vimos vários produtos Bordallo em exposição. Ao início ficámos entusiasmados, mas depois verificámos que em nenhum deles estava identificada a marca Bordallo. O que acontecia era que uma parte muito importante do negócio da empresa era vender a clientes internacionais, empresas do sector, que por sua vez vendiam aos seus clientes, mas sem identificar as peças como sendo marca Bordallo”, conta, defendendo que “a empresa não estava a dar o devido valor à própria marca”.

O passo seguinte foi, numa empresa que sofria por estar a perder clientes, passar a dizer não a alguns clientes. “Ou passavam a usar a marca Bordallo ou não vendíamos. Não foi uma decisão fácil dizer não a clientes, mas foi a decisão correcta. Alguns perceberam rapidamente que o valor da marca Bordallo ia aumentar e aceitaram”, diz Nuno Barra.

Para que esta estratégia resultasse, foi preciso também mudar os canais de distribuição. E aqui, o facto de a empresa estar agora dentro de um grupo grande como a Visabeira, incluindo outras empresas como a Vista Alegre, ajudou. Ao fim de dois anos, as peças Bordallo Pinheiro passaram também a ser vendidas nas lojas Vista Alegre, mas para além disso foram abertas novas lojas Bordallo em Portugal e no estrangeiro, preparando-se a abertura de duas lojas em Paris. “Não é muito. As marcas fortes chegam a ter 15 lojas em Paris”, afirma o administrador.

Neste momento 43% das vendas da empresa são para o exterior, com mercados tão variados como os EUA, Suécia, Holanda, Coreia do Sul ou Brasil.

A estratégia de valorização da marca traz outras exigências. “A partir do momento em que passamos a ser nós próprios a estar presentes nas feiras do sector, não podemos estar a aparecer sempre com os mesmos produtos. Temos de levar em cada ano alguma coisa nova. Isso cria uma forte pressão para inovarmos e sermos criativos”, afirma Elsa Rebelo.

A inovação, contudo, não é feita pondo em causa o legado artístico do fundador, garantem. Por um lado, continua-se a apostar em obras da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e do seu filho, onde são colocados selos “Arte Bordallo”, tanto com as peças mais conhecidas, como recuperando moldes menos utilizados. Por outro lado, apresentam-se novas colecções criadas por artistas nacionais e internacionais a convite da empresa. 

Esta tem sido aliás a estratégia seguida nos últimos anos para manter um ritmo e uma qualidade de criação artística elevados. “É uma forma de não criarmos motivos para se pensar que estamos a colocar em causa o património cultural deixado por Bordallo. Não somos nós dentro da empresa que decidimos o que tem de ser feito ou que não pode ser feito. O que fazemos é convidar artistas prestigiados para darem a sua interpretação”, diz Nuno Barra.

Entre os artistas convidados – conhecidos como Bordallianos - estão nomes como o caricaturista António, Henrique Cayatte, Joana Vasconcelos, Manuel João Vieira, Bela Silva, para além de 20 dos mais importantes artistas contemporâneos do Brasil, como Vik Muniz, Tunga ou Barrão.

“E para os funcionários da empresa, para aqueles que estão encarregues de preparar os moldes, juntar as peças, pintá-las, é quando surgem novos desafios que o trabalho se torna mais interessante, que há mais entusiasmo”, garante Elsa Rebelo, que destaca a relação pessoal que se cria entre muitos funcionários e os artistas que passam por lá. 

Respeitar o legado de Bordallo, e aproveitá-lo como o principal activo da empresa, é visto como uma responsabilidade. “É uma responsabilidade bastante grande. Nós estamos aqui temporariamente, a empresa tem 134 anos, mas vai cá estar mais 300 anos pelo menos”, diz Nuno Barra.

Corrigido às 10h45 de 7/8/18: "a relação pessoal que se cria entre muitos funcionários e os artistas que passam por lá"