Pedofilia

O terramoto chileno provoca o abalo que o Papa quer para toda a Igreja

O Papa foi posto em causa, mandou investigar o que se passava na questão dos abusos, começou a tomar decisões, escreveu uma carta duríssima aos bispos chilenos. Mas o que Francisco tem dito e feito ultrapassa, neste caso, o que se passa no Chile e está para lá do tema dos abusos. Uma viagem, em sete pontos, aos abalos que já se deram e às ondas de choque que o Papa está a provocar no catolicismo.
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Ivan Alvarado/Reuters

Terramoto, cataclismo, abalo, devastação — as palavras que se possam escolher não chegam para dizer o que se está a passar com a Igreja Católica, no Chile, nem aquilo que o Papa Francisco tem vindo a fazer em relação ao problema. Perante um drama de dimensão incalculável, a resposta do Papa tem sido invulgarmente dura e enérgica e reflecte a sua visão de muitos dos problemas que atravessam o catolicismo — e não apenas sobre o que se está a passar no Chile, e não só sobre a questão dos abusos sexuais.

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Os próximos episódios prometem ainda mais revelações e não deixam de lado a hipótese de um cardeal que Francisco chamou para conselheiro vir a ser acusado de encobrimento. Ao mesmo tempo, surgem novos casos, que incluem abusos também sobre religiosas, num tema que já foi uma dor de cabeça para os Papas João Paulo II e Bento XVI e está a tornar-se um verdadeiro tormento para Francisco (ver texto nas páginas seguintes).

Nesta saga, o último capítulo foi relatado na semana que agora finda pelo Il Sismografo, um blogue sediado em Roma, que agrega e reproduz notícias de informação religiosa, feito por jornalistas que acompanham o tema: inspectores judiciais chilenos identificaram pelo menos 90 investigações canónicas feitas, desde o ano passado, a relatos de abusos sexuais e que não foram comunicadas nem às autoridades civis nem, em vários casos, à Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano.

De acordo com normas muito estritas estabelecidas pelo Papa Bento XVI, em Maio de 2010, os casos de abuso que envolvam menores devem ser obrigatoriamente transmitidos à Santa Sé. Por isso, a provável confirmação deste facto pode vir a juntar mais um elemento de escândalo ao vulcão que o caso já constitui. E revelará os vários capítulos e dimensões da mudança que o Papa pretende imprimir à Igreja, a partir desta questão dos abusos.

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Fernando Lavoz/NurPhoto via Getty Images

1. No epicentro do terramoto

Dois momentos maiores mostraram a dimensão do terramoto dentro do qual o Papa Francisco se viu metido: em Janeiro deste ano, na sua viagem ao Chile, o próprio foi posto em causa, acusado de não ligar às revelações de que o bispo Juan Barros encobrira sucessivas acusações de abuso sexual do padre Fernando Karadima, já antes condenado por incriminações semelhantes.

A 18 de Janeiro, perante a pergunta de jornalistas chilenos, o Papa Bergoglio colocou-se à defesa, dizendo, com ar agastado, em Iquique, a última etapa da sua visita ao Chile, e momentos antes de celebrar missa: “No dia em que trouxerem uma prova contra o bispo Barros, eu falarei. Não há uma única prova, tudo é calúnia.” Ao regressar a Roma, na tradicional conferência de imprensa no avião, reafirmou a sua confiança na inocência do bispo, mas pediu já desculpa às vítimas, garantindo que as investigações iriam continuar.

Chegado ao Vaticano, Francisco terá percebido a dimensão do escândalo em que se vira envolvido e o erro de avaliação que cometera, tendo em conta as informações incompletas ou deturpadas que recebera. Vários comentadores adiantavam a hipótese de que, encobrindo factos importantes ao Papa, vários responsáveis da Igreja no Chile não queriam senão arrastá-lo consigo no desastre — como realmente conseguiram, no primeiro momento.

Acto imediato, Francisco decidiu enviar ao país, em Fevereiro, dois investigadores maiores destas situações: o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, que tem trabalhado em várias missões do Vaticano para a questão dos abusos, e o padre espanhol Jordi Bertomeu, com formação jurídica. Durante 12 dias, ambos ouviram sobretudo as vítimas, mas também acusados, bispos das dioceses e outras pessoas relevantes para averiguar as acusações e as queixas de encobrimento feitas a vários bispos — tendo, à cabeça, Juan Barros, bispo de Osorno desde 2015.

O resultado foram 2300 páginas que os investigadores apresentaram ao Papa a 21 de Março — a que agora a Justiça chilena quer ter acesso, mas com alguns bispos a defenderem que o Papa era o seu destinatário e várias pessoas falaram abertamente nessa condição. Um relatório mais que suficiente para os dois passos seguintes dados publicamente por Francisco (e para outros elementos da história, como se verá adiante). O primeiro foi convidar várias das vítimas a encontrar-se com ele, pessoalmente, na Casa de Santa Marta, onde reside, e perante as quais confessou a sua “vergonha” (palavra que já usara no Chile) pelas “práticas reprováveis”, pediu perdão pelos erros de avaliação que cometera e prometeu que o caso teria decisões.

Ao mesmo tempo, o Papa chamou a Roma todos os bispos chilenos, para uma reunião de reflexão, oração e debate, que deveria concluir-se com a tomada de decisões sobre o que deveria ser feito a seguir. O encontro decorreu entre 15 e 17 de Maio, no Vaticano. Em Junho, os dois investigadores, Charles Scicluna e Jordi Bertomeu, voltaram ao Chile, com o padre Bertomeu a falar da possibilidade de indemnizações às vítimas e a anunciar a abertura de um escritório, em Santiago, para receber queixas de abusos.

2. Dois abalos com estrondo

A cimeira de Roma terminou com estrondo: a 18 de Maio, todos os 34 bispos chilenos anunciaram ter colocado o seu lugar à disposição do Papa. Bomba, decisão totalmente inédita, resolução sem precedentes na história da Igreja, viragem absoluta, revolução — foram expressões utilizadas por diferentes observadores qualificados para caracterizar o episódio, quase sem paralelo na história do catolicismo. Na mesma altura, era apresentado no festival de cinema de Cannes um documentário de Wim Wenders sobre o Papa, que levava o título Francisco, um Homem de Palavra...

Um comunicado da Conferência Episcopal do Chile (CEC) explicou a decisão unânime como uma forma de pedir perdão “pela dor causada às vítimas, ao Papa, ao povo de Deus e ao país” pelos “graves erros e omissões” e de colocar o futuro de cada um nas mãos do Papa, “para que ele livremente decida com respeito a cada um”. 

Na mesma altura, a Tele 13, do Chile, divulgou também o conteúdo da carta que o Papa entregou a cada um dos bispos, no início da reunião. Espécie de três-em-um, a carta é uma crítica muito cáustica a um tipo de clericalismo que permitiu chegar a este ponto; um diagnóstico sobre modos de proceder que tentavam salvar a face da instituição e continuava a criar vítimas; e um apelo ao discernimento e à alteração de estratégias em vários âmbitos de acção da Igreja, para que a situação tenha um ponto final. Não poupando na dureza das palavras, o Papa abordava questões como o poder clerical na Igreja, a formação dada nos seminários, a necessidade da autocrítica e do discernimento, as mentalidades narcisistas e elitistas...

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O Papa durante a sua visita ao Chile em Janeiro Alex Reyes/Getty Images

O pedido de demissão dos bispos já teve cinco consequências: a 11 de Junho, o Papa aceitou as três primeiras renúncias: Juan Barros, no centro das críticas e do encobrimento, Gonzalo García de Cortazar, de Valparaíso, e Cristian Cordero, de Puerto Montt. A 28 do mesmo mês, mais um: Horacio Valenzuela, de Talca. Outros dois — Tomislov Koljatic, de Linares, e Andrés Arteaga, auxiliar de Santiago — podem vir a ser os próximos, pois são também acusados de encobrir Karadima, que chegou a ser uma personalidade muito influente na Igreja chilena.

Esta semana, os 30 bispos ainda em exercício reuniram-se para debater a questão, enquanto o Papa não decide sobre o futuro de cada um. Para a conversa, havia mais meia centena de pessoas convidadas, incluindo vários não-clérigos. No final da reunião, alguns falaram da colaboração inequívoca com as autoridades (há várias investigações a correr), de apoio e colaboração com as vítimas, de mudar a formação nos seminários e nas congregações religiosas com bases humanas e antropológicas mais seguras... Nesta sexta-feira, os bispos reconheceram “humildemente” que falharam no seu dever ao “não escutar, acreditar, atender ou acompanhar as vítimas de graves pecados” de “abusos sexuais, de poder e autoridade”, cometidos por clérigos.

Hernán Reyes, correspondente da agência argentina Télam em Roma, e autor de um livro de entrevistas com o Papa com o título América Latina, considera que estamos perante uma “Igreja doente”. Em entrevista ao ReligionDigital, de Espanha, afirmava, a 1 de Julho que “os abusos foram a parte mais visível e repudiável, mas não teriam sido possíveis fora desse âmbito de obscuridade no qual se deram.”

3. Ondas de choque

O cardeal Francisco Javier Errázuriz, de 84 anos, que também esteve na reunião, pode vir a ser o próximo visado. Arcebispo emérito de Santiago, Errázuriz é apoiante do Papa, tendo sido chamado por Francisco para o grupo dos seus nove mais próximos conselheiros no C-9 (nove cardeais conselheiros do Papa). A 2 de Maio, em Roma, James Hamilton, uma das vítimas de Karadima que esteve com o Papa, acusou o cardeal de também ter encoberto os “actos vis” do padre que desencadeou este cataclismo.

E não é tudo nesta história vertiginosa: também o actual arcebispo de Santiago, cardeal Ricardo Ezzati, de 76 anos, é visado como tendo dado cobertura ao padre Oscar Muñoz, suspeito de ter abusado de pelo menos sete crianças, das quais cinco são sobrinhos. Em várias paróquias da diocese, muitos fiéis e párocos decidiram já não voltar a convidar Ezzati para qualquer acto público, pelo menos enquanto os factos não forem esclarecidos.

No Crux, sítio digital de informação sobre o catolicismo, Elise Harris escrevia, quarta-feira passada, dia 1, que Errázuriz pode ser o teste de fogo a um Papa acossado até por alguns dos seus mais próximos. A articulista tomava outro caso para se explicar: sexta, 27 de Julho, depois de uma sucessão de revelações como as do Chile, o Papa aceitou a renúncia do cardeal Theodore McCarrick ao Colégio Cardinalício, o que apenas sucedera uma vez, em 1927, por razões políticas. Antigo arcebispo de Washington (EUA), McCarrick era acusado de seis episódios de abuso desde 1971. A 20 de Junho deste ano, a Santa Sé removera-o de todo o serviço público e, a 27 de Julho, o Papa aceitou a renúncia como cardeal.

Agora, diz a articulista do Crux, o Papa pode subir um novo degrau na tolerância zero que se propõe, se se confirmarem as acusações feitas ao seu amigo pessoal, Francisco Errázuriz. A renúncia de McCarrick ao colégio de cardeais constituiu uma afirmação clara de que qualquer responsabilidade na questão dos abusos — directa ou de encobrimento — será punida, mesmo que o implicado seja alguém do topo da hierarquia, como um cardeal. Se se confirmarem as acusações contra Errázuriz, o Papa Bergoglio pode ter aqui a oportunidade de mostrar que ninguém, mesmo que seja seu amigo pessoal, será poupado.

4. Fissuras: narcisismos e falácias

Uma das peças fundamentais neste processo é a carta que o Papa Francisco entregou aos bispos, quando iniciou a reunião de Maio, em Roma, com o episcopado chileno. Passados estes dois meses e meio, com os episódios que já se sucederam, é possível perceber que este texto constitui já um dos mais importantes documentos do pontificado franciscano.

Depois de três anos de protestos contra o bispo Juan Barros e assim que os bispos chilenos apresentaram, em Maio, a sua renúncia ao Papa, um grupo de leigos de Osorno entrou na catedral para agradecer a Deus e rezar Fernando Lavoz/NurPhoto via Getty Images

O documento mostra a ebulição de que se faz o problema, sem desculpas nem palmadinhas nas costas. A linguagem é clara, sem rodeios, frontal e desassombrada, atitude pouco comum nas estruturas e entre responsáveis da Igreja. E não deixa, sequer, margem para críticas, pois usa o método dos Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loiola, o fundador dos jesuítas: confrontar os bispos com a realidade, pedir o discernimento a partir dos critérios do evangelho, e exigir uma acção consequente, que responda ao que se pretende atingir.

Em Maio, numa entrevista ao semanário católico francês La Vie, o padre e psicoterapeuta Stéphane Joulain dizia que o Papa deixou a mensagem forte de que há um limite para o “que já não é aceitável” e que, como bom jesuíta, Bergoglio segue a máxima: “Vejo, julgo, actuo; este rigor de fé e intelectual é apreciável para a Igreja.”

Claramente, para Francisco, trata-se de entender os abusos como o culminar de um processo que radica em causas mais profundas e muito anteriores, no que o Papa caracteriza como uma “psicologia de elite ou elitista” dos membros do clero, que conduz a espiritualidades narcisistas e autoritárias, reveladoras de “messianismo, elitismos, clericalismos”, palavras sinónimas “de perversão no ser eclesial”. Vale a pena reproduzir na íntegra este parágrafo, central na análise feita pelo Papa, e no qual se pode ler o retrato de tantas atitudes do quotidiano de comunidades religiosas ou instituições católicas: “Essa psicologia de elite ou elitista acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, ‘círculos fechados’ que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos demais, deixando assim em evidência que nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismo, elitismos, clericalismos são todos sinónimos de perversão no ser eclesial.”

5. Mais fissuras: autoritarismo e encobrimento

Estes casos traduzem, na opinião de Francisco, uma forma de exercício do poder clerical, que revela o autoritarismo e não o serviço — nos antípodas das permanentes afirmações teóricas tantas vezes feitas —, mesmo em questões como a administração de bens. Na entrevista já citada ao La Vie, Stéphane Joulain comentava que o Papa está a dinamizar uma “reforma que conduz a importantes tomadas de consciência” e que deve afrontar várias prioridades: a situação perdurou por estar ligada “à gestão do poder na Igreja”, e os clérigos “puderam agir porque se sentiam intocáveis”. Mas, acrescentava, Francisco “colocou no coração da sua reforma a luta contra o clericalismo, contra os padres todo-poderosos e aos quais falta a humildade”. Por isso ele refere, na carta, o “nervo do problema”: o abuso do “poder de consciência”. 

Este exercício do poder deita por terra a estratégia adoptada na maior parte dos casos. A solução não pode ser a mudança de pessoas, de um lado para o outro. Isso “não é suficiente, há que ir mais além”, afirma o Papa na carta. “Confessar o pecado é necessário, procurar remediá-lo é urgente, conhecer as raízes do mesmo é sabedoria para o presente-futuro. Crer que a remoção de pessoas, por si só, geraria a saúde do corpo é uma grande falácia.” A gravidade dos actos em causa foi muitas vezes minimizada como se de uma “simples debilidade ou falta moral” se tratasse.

“Há graves defeitos no modo de gerir” esses casos de delito grave, diz ainda o Papa, inclusive nos relatórios que chegavam a Roma. Em não poucos episódios, “foram qualificados muito superficialmente como inverosímeis o que eram graves indícios de um delito efectivo.” Registaram-se ainda “gravíssimas negligências” no dever de protecção de crianças vulneráveis por parte de bispos ou superiores maiores, que tinham o “dever especial de proteger o povo de Deus”. 

6. Réplicas e novas ondas de choque

Nesta análise ao papel do clero, à sua relação com os restantes membros da Igreja e ao entendimento da missão da Igreja, o Papa examina o modo como o caso do Chile evidencia uma outra realidade presente em muitos campos: os erros de uma pessoa podem apagar completamente o trabalho e o empenho de muitos. Os actos e o seu encobrimento provocaram o escândalo junto dos denunciantes e de “todos aqueles que conheciam as presumíveis vítimas, famílias, amigos, comunidades paroquiais”.

“Está em jogo a credibilidade” da acção da Igreja, como admitia o bispo chileno Alejandro Goic, de Rancagua, numa carta enviada ao cardeal Ezzati. Limpar este pecado, para usar um termo da linguagem eclesial, será uma tarefa árdua. No La Croix International, escrevia Robert Mickens no passado dia 27 de Julho: “Se o Papa decidir atacar a raiz da crise dos abusos sexuais do clero e a resposta desastrosa e inadequada que a hierarquia lhe tem vindo a dar, terá que dedicar o resto de seu pontificado quase exclusivamente a esse gigantesco empreendimento”, que é já a crise mais grave desde a Reforma do século XVI.

No Chile, escreve Francisco, a Igreja soube ser profética em muitas ocasiões, mas, neste último período da sua história, perdeu o centro, tornando-se ela mesma “o centro de atenção”, deixando de olhar para Cristo e passando “a olhar-se e ocupar-se de si mesma”. Ainda mais evidente: “Concentrou em si a atenção e perdeu a memória da sua origem e missão.” De novo, não é difícil ver nestas afirmações muitos retratos de atitudes e comportamentos nos quais importa mais a instituição do que o centro a que ela se deveria votar.

“A dolorosa e vergonhosa verificação de abusos sexuais de menores, de abusos de poder e de consciência por parte de ministros da Igreja, assim como a forma com que estas situações foram abordadas, deixa em evidência esta ‘mudança de centro eclesial’”, afirma Francisco. “Em vez de a Igreja diminuir para que aparecessem os sinais do Ressuscitado, o pecado eclesial ocupou todo o cenário concentrando em si a atenção e os olhares.” 

O Papa relaciona também este descentramento em relação ao essencial com o clericalismo que não deixa espaço à participação de todos. Apesar das mudanças de orientação desejadas há 50 anos pelo II Concílio do Vaticano, a participação dos crentes nos processos de decisão da comunidade católica é ainda diminuta — uma miragem, na maior parte dos casos. “Urge criar dinâmicas eclesiais capazes de promover a participação e missão partilhadas de todos os integrantes da comunidade eclesial, evitando qualquer tipo de messianismo ou psicologia-espiritualidade de elite”, afirma Francisco. Em concreto, diz, os responsáveis devem abrir-se mais “e trabalhar conjuntamente com diferentes instâncias da sociedade civil para promover uma cultura antiabusos de qualquer tipo”. 

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Ivan Alvarado/Reuters

Revelando outras componentes com que se fez este caso, o Papa também põe em questão, na sua carta aos bispos, o modelo de formação dos seminários. “Para poder corroborar que o problema não pertence apenas a um grupo de pessoas, no caso de muitos abusadores detectaram-se já neles graves problemas na sua etapa de formação, no seminário ou noviciado”, uma vez que “vários bispos ou superiores maiores confiaram essas instituições educativas a sacerdotes suspeitos de homossexualidade activa”. 

No semanário America, dos jesuítas dos Estados Unidos, o padre Hans Zollner, responsável do Centro para a Protecção das Crianças, defendia, há duas semanas, que são necessárias as vozes de mulheres para ajudar na resolução do problema. Muitas vezes, elas “trazem a voz daqueles que são mais vulneráveis na nossa sociedade”, justificava o padre jesuíta, coordenador do centro estabelecido pelo Vaticano e pela Universidade Pontifícia Gregoriana.

7. Arruinar mais ou salvar

Há uma questão lateral neste tema: o papel do núncio apostólico (o embaixador do Papa) em Santiago do Chile, o italiano Ivo Scapolo, também tem aparecido como responsável pelo encobrimento de informações importantes que deveriam ter sido enviadas para o Vaticano. Scapolo, que ficou no Chile enquanto os bispos estiveram em Roma para se reunir com o Papa, é alguém que, como escrevia Luis Badilla no Il Sismografo, a comunidade católica desconhece.

“Personalidade autoritária”, o núncio, como é normal, interfere de forma pesada na vida da Igreja chilena, dizia ainda Badilla. Scapolo é filho da escola diplomática do cardeal Angelo Sodano, que trabalhou também na nunciatura de Santiago do Chile, e foi secretário de Estado do Vaticano — e foi, ele próprio, já acusado em documentos divulgados há anos de ter ajudado ao encobrimento dos crimes do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo. Para os seus críticos, esta é a diplomacia que se centra exactamente naquilo que o Papa condena: o carreirismo, os jogos de uma corte papal romana, a ascensão à custa das meias verdades e do interesse pessoal.

O papel do núncio, por quem passam etapas fundamentais da nomeação de bispos, pode, por isso, vir também a ser posto em causa. Nessa altura se perceberá se o núncio foi mais bombeiro que tentou apagar o fogo ou se esteve a acrescentar destruição a este terramoto que o Papa ainda não conseguiu conter. E que, aliás, quer aproveitar, para reconstruir vários aspectos essenciais da Igreja Católica.

Sobre este tema, pode também ler-se o texto A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos