Tauromaquia

Vila Franca quer estatuto de património nacional para a festa do Colete Encarnado

Para a autarquia, esta será uma forma de assegurar a preservação das tradições de um concelho "ligado ao campo, ao cavalo, aos toiros, aos forcados, aos cavaleiros, aos toureiros, aos ganaderos".
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O tradicional Colete Encarnado, a maior festa popular de Vila Franca de Xira e uma das mais emblemáticas do Ribatejo, decorre até domingo. Centrada na homenagem aos campinos da Lezíria, a festa tem origens em 1932 e junta, anualmente, centenas de milhares de pessoas. Para garantir a sua preservação, a Câmara de Vila Franca de Xira vai, agora, apresentar uma candidatura para que o Colete Encarnado passe a integrar também o Inventário do Património Cultural Imaterial português.

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O processo arrancou já em 2017 e, segundo Alberto Mesquita, presidente da autarquia, deverá ser entregue na Direcção-Geral do Património Cultural no final do ano ou início de 2019. “É um dossier exigente em termos de averiguação histórica. Mas estou convicto que conseguiremos apresentar uma candidatura que seja vencedora”, observou, em declarações ao PÚBLICO, considerando que esta iniciativa é ainda mais importante “num momento tão crítico e de tantos ataques à tauromaquia”.

No entender de Alberto Mesquita, este eventual reconhecimento do Colete Encarnado como património cultural português será, também, uma forma de assegurar a preservação destas tradições vila-franquenses. “Será um factor que nos permitirá continuar durante muitos e bons anos com as tradições que nos definem como um concelho ligado ao campo, ao cavalo, aos toiros, aos forcados, aos cavaleiros, aos toureiros, aos ganaderos. Esse capital tão rico não se pode perder de maneira nenhuma”, sustenta.

O autarca considera ainda que esta classificação do Colete Encarnado também poderá ser importante em termos turísticos e económicos.

Traje uniformizado

O Colete Encarnado nasceu em 1932, quando José Vanzeller Pereira Palha (lavrador e presidente da câmara) liderou um grupo de figuras da terra na organização de um novo certame centrado nas tradições e na homenagem ao campino. A iniciativa visava, também, angariar fundos para a Associação de Bombeiros de Vila Franca e assentou numa boa estratégia de marketing, desde logo porque na época não era comum os campinos apresentarem-se com o traje colorido que hoje conhecemos. Começou, assim, a ganhar forma a figura do campino vestido de colete encarnado, barrete verde, calça azul e meia branca. A ideia do “colete encarnado” deu nome à festa de Vila Franca de Xira e, pouco a pouco, a iniciativa transformou-se numa das maiores festas ribatejanas e os campinos adoptaram este traje para todos os eventos festivos em que participam.

Essa primeira festa, a 16 e 18 de Julho de 1932, reuniu cerca de 50 campinos, que conduziram toiros pelas ruas da então vila. Integrou, também, uma Ceia Ribatejana, a representação da peça A Sesta e um quadro regional de revista intitulado Sem pés nem cabeça — Senhor da Boa Morte. Houve, ainda, fados, guitarradas e danças regionais. No dia 17 realizou-se uma corrida de toiros e, depois da ceia, houve, fados e bailes populares. Por várias razões, o Colete Encarnado não se realizou em 1933, mas a festa regressou no ano seguinte e manteve-se anualmente até 1941. Em 1942 voltou a ser suspensa devido à II Guerra Mundial e à falta de transportes. Mas regressou em 1943 e não mais parou.

O Colete Encarnado continuou a crescer, as suas esperas e largadas de toiros ganharam “fama” inclusivamente em canais televisivos norte-americanos e o programa alargou-se a uma multiplicidade de iniciativas. Paralelamente, cresceram as tertúlias (grupos de aficionados que criam espaços decorados com importantes espólios ligados à tauromaquia), que hoje são já mais de 50 espalhadas pela cidade. A noite da sardinha assada, lançada na década de 60, é outro dos maiores atractivos. O sábado é, habitualmente, o principal dia dedicado ao campino, com desfiles, corridas e homenagem a um dos profissionais da campinagem escolhido pelos seus pares. Anualmente são cerca de 50 campinos que participam nas festividades, desde os mais pequenos (7/8 anos), que querem seguir as pisadas dos avós, até aos mais velhos na casa dos 70/80 anos.

Depois, o Colete Encarnado integra seis palcos de animação diversa, feira de velharias e coleccionismo, cruzeiro de barcos tradicionais, maratona de cycling e actividades tradicionais com três esperas e largadas de toiros, uma corrida de toiros, desfile de campinos e outros cavaleiros, actuações de sete ranchos folclóricos, fado e fogo-de-artifício.