Portugal enfrenta o bicampeão que deixa tudo em campo

Entalado entre o Brasil e a Argentina, o Uruguai conseguiu afirmar-se no futebol e rivalizar com os poderosos vizinhos. As conquistas da bola são o grande orgulho dos cerca de 3,5 milhões de habitantes.

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Reuters/MAXIM SHEMETOV

Se o futebol obedecesse a prognósticos ou a estatísticas Portugal não seria campeão europeu nem o Uruguai bicampeão do mundo (1930 e 1950). Uma pequena nação sul-americana, com menos de 3,5 milhões de habitantes, que se agiganta na bola, como comprovou o país anfitrião deste Mundial há poucos dias. A goleada por 3-0 colocou a Rússia no seu lugar e deixou a assobiar para o ar os 146 milhões de cidadãos que iniciaram com euforia o torneio.

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Se o futebol obedecesse a prognósticos ou a estatísticas Portugal não seria campeão europeu nem o Uruguai bicampeão do mundo (1930 e 1950). Uma pequena nação sul-americana, com menos de 3,5 milhões de habitantes, que se agiganta na bola, como comprovou o país anfitrião deste Mundial há poucos dias. A goleada por 3-0 colocou a Rússia no seu lugar e deixou a assobiar para o ar os 146 milhões de cidadãos que iniciaram com euforia o torneio.

Encravado entre o Brasil e a Argentina para servir de território tampão entre as duas grandes nações do continente, o país foi sempre vítima das tentações intervencionistas dos vizinhos. Ambos foram cúmplices de inúmeros assaltos à normalidade constitucional uruguaia, com efeitos sempre nefastos na política interna do elo mais fraco desta geografia.

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O Uruguai teve no futebol a sua primeira grande afirmação de identidade e um factor perene de orgulho nacional. Organizou e venceu a primeira edição do Mundial, em 1930. Mais inesquecível foi a segunda conquista, vinte anos depois, em pleno Estádio do Maracanã. O fantasma dessa improbabilidade persiste até hoje no “país do futebol”.

No Uruguai, o futebol joga-se com intensidade, como uma questão de honra. Com sangue nos olhos e faca nos dentes. Desde as disputas de bairro às selecções. É assim também em Salto, uma pequena cidade perdida no interior, a 500km da capital Montevideu, na banda oriental do rio Uruguai. A terra de Edinson Cavani e Luis Suárez, as duas expressões máximas da equipa nacional, separadas à nascença apenas por um mês. Dois atacantes de classe mundial que serão hoje a grande ameaça à segurança defensiva portuguesa.

A cultura de futebol ofensivo uruguaia não é um fenómeno particularmente antigo. Até 1976, a selecção caracterizava-se por sectores muito fechados defensivamente de onde se lançavam contra-ataques esporádicos, contou ao PÚBLICO o jornalista Yalis Fontes, do jornal uruguaio EntreLineas. A partir desse ano, com o início da profissionalização deste desporto no país e a intervenção revolucionária do professor José Ricardo de León, tudo se alterou.

A defesa passou a ser a primeira linha atacante pressionando por todos os lados logo no meio-campo adversário, com velocidade e agressividade, mantendo o ritmo logo após recuperar a bola. Sem pausas. Com o tempo, este tipo de jogo foi-se adaptando à realidade, mas nunca abandonou a sua vertente ofensiva mais espectacular. O Uruguai gosta de atacar e soube equilibrar-se defensivamente para manter esta personalidade.

Para já, é isso que os números reflectem na Rússia. Apontou cinco golos na fase de grupos e é a única selecção em prova que não sofreu nenhum. É também extremamente competente nos lances de bola parada - todos os golos neste Mundial surgiram na sequência de livres ou cantos.

Joga com o coração, com a tal intensidade e agressividade, muitas vezes no limite da legalidade. Suárez é o exemplo mais extremo desta alma uruguaia. Algo que o conjunto de Fernando Santos terá de ter em consideração para evitar picardias ou reacções insensatas a provocações. É que muitos futebolistas portugueses têm igualmente o sangue quente.

O mítico Tabárez

À frente da selecção sul-americana está o mítico Óscar Tabárez, de 71 anos, há 12 consecutivos no cargo, a que soma mais dois de uma passagem anterior. Com um conhecimento profundo dos seus jogadores, que segue desde as camadas jovens, é um adepto sereno da “garra charrua”: o mito do herói uruguaio que é “mais guerreiro do que técnico, mais corajoso do que elegante.”

Na sua casa em Montevideu tem uma citação atribuída a Che Guevara: “Podes endurecer sem perder a ternura.” Mas com o Uruguai fez exactamente o oposto.

Quando foi nomeado seleccionador, pela primeira vez, em 1988, chegou com a missão de melhorar a imagem do Uruguai após o desastre de 1986 no México, quando a equipa não ultrapassou a fase de grupos do torneio e saiu da prova com justas acusações de brutalidade.

Uma fama reforçada com o cartão vermelho directo mostrado ao defesa José Batista logo aos 56 segundos do encontro contra a Escócia, após derrubar violentamente por trás um adversário. “Uma falta comum”, garantiam, escandalizados e incrédulos, os comentadores televisivos uruguaios no torneio. É ainda hoje o cartão vermelho mais rápido da história de um Mundial.

Tabárez trouxe algum comedimento a esta “garra” excessiva e levou a selecção às meias-finais do Mundial de 2010 na África do Sul, onde alcançou o quarto lugar. A melhor prestação da “celeste” desde 1970. Mesmo assim, não evitou o episódio da dentada de Luis Suárez ao defesa italiano Chiellini no Brasil, em 2014. Contrariar a natureza não se faz de um dia para o outro.

Tal como León nos anos de 1970, também Tabárez transformou o futebol uruguaio. Aos poucos foi promovendo a entrada na selecção de jogadores modernos, de passe e progressão, como Rodrigo Bentancur e Matías Vecino (jogam ambos em Itália, na Juventus e Inter de Milão), algo impensável há uma década.

“Para o Uruguai era inadmissível no passado ficar em segundo”, lembrou Tabárez ontem, na antecipação da partida, no Estádio Fisht, em Sochi. “A selecção era projectada como se fosse de um país de 50 milhões de habitantes”.

Os anos mais gloriosos da “celeste” já lá vão, mas a actual fornada de jogadores tem grande qualidade e voltou a colocar a equipa sul-americana no mapa. E para saltar etapas até ao topo terá de ultrapassar Portugal. “Seria fantástico vencer o campeão europeu”, admitiu o “Maestro”, como é respeitosamente chamado no seu país.

Ronaldo regressa ao palco

A partida de Sochi marca igualmente o regresso de Cristiano Ronaldo a um palco que já imortalizou na sua carreira, na partida frente à Espanha. A sua melhor de sempre na selecção. Apontou os três golos de Portugal e travou in extremis a vitória espanhola. É ele que o Uruguai mais teme. Ou melhor, é por ele que nutre maior respeito entre os jogadores portugueses.

Numa partida de tudo ou nada, as emoções estarão à flor da pele e controlar esse aspecto será fundamental. Fernando Santos poderá voltar à fórmula usada contra Espanha, na partida inaugural da fase de grupos, promovendo o regresso de Gonçalo Guedes no apoio a Cristiano e deixando no banco André Silva.

Um elemento mais móvel na frente em detrimento de outro mais posicional, tendo em vista as situações de contra-ataque. Pela frente as unidades mais ofensivas portuguesas terão uma dupla de defesas centrais muito experiente, que alinha no Atlético de Madrid: Diego Godín e José Maria Giménez (que foi rendido por Coates no encontro com a Rússia devido a uma lesão da qual já recuperou).

João Moutinho também deverá regressar ao “onze”, depois de ter ficado inicialmente no banco no encontro com o Irão, rendido por Adrien. Em dúvida está William Carvalho, com problemas musculares. No caso de o médio defensivo não estar em condições para uma partida tão fisicamente exigente como esta, a solução para o lugar poderá passar por Adrien ou Manuel Fernandes.

Fernando Santos mostrou-se confiante na capacidade de Portugal ultrapassar o obstáculo uruguaio nestes oitavos-de-final, mas alertou para a grande qualidade do adversário: “A maior virtude da equipa do Uruguai é a equipa do Uruguai. Fortíssima em todos os sectores e nos vários momentos do jogo.”

Os sul-americanos já demonstraram que dentro de campo não têm medo de nada nem de ninguém, mas Ronaldo já provou que por vezes vai além dos limites dos mortais. Apesar de tudo, Fernando Santos não acredita em super-heróis e deixa uma garantia: “Se Cristiano jogar sozinho, Portugal vai perder.”