O herdeiro dos rebuçados fez chegar a Dr. Bayard dos avós ao Instagram dos netos

Esta é a história de um dos herdeiros da Dr. Bayard e de como as suas escolhas nem sempre se cruzaram com os rebuçados. Até ao dia em Daniel Matias decidiu fazer chegar aos netos os rebuçados dos avós. Como? Através da Internet e das redes sociais.

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Daniel Matias Rui Caudêncio

Diz que nasceu num caldeirão de açúcar, mel, glucose e plantas medicinais, ingredientes que bem mexidos, aquecidos e arrefecidos se transformam em pequenos rebuçados onde se depositam as esperanças do alívio da tosse maldita. Aos 32 anos, Daniel Matias é um dos herdeiros da Dr. Bayard e tem nas mãos “o peso da tradição” e a missão de fazer com que os rebuçados dos avós passem de geração em geração.

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Diz que nasceu num caldeirão de açúcar, mel, glucose e plantas medicinais, ingredientes que bem mexidos, aquecidos e arrefecidos se transformam em pequenos rebuçados onde se depositam as esperanças do alívio da tosse maldita. Aos 32 anos, Daniel Matias é um dos herdeiros da Dr. Bayard e tem nas mãos “o peso da tradição” e a missão de fazer com que os rebuçados dos avós passem de geração em geração.

Ali, por trás do discreto portão do número 10, da rua Gomes Freire, na Amadora, entre o barulho ensurdecedor das máquinas do “laboratório” da Bayard, Daniel Matias conta como o pai, José António, as ia todos os dias ligar, de manhã, para depois seguir com Daniel e o irmão André, hoje com 34 anos, para a escola. Era religioso que os garantes do futuro da Dr. Bayard passassem ali todas as manhãs para dar os bons dias ao avô Álvaro, à espera que lhes caísse no pão com manteiga um bocadinho do açúcar dos rebuçados que já estavam a ser feitos.

A história da Dr. Bayard é também a da família Matias, que começou quando Álvaro resolveu testar a fórmula que estava na caixinha que um dia o francês Dr. Bayard lhe deu. E é também sobre como os brinquedos de Benjamim — a quarta geração dos Matias — partilham com os rebuçados o protagonismo das imagens que vão sendo publicadas nas redes sociais para estreitar relações entre as novas gerações e os velhos rebuçados.

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Hoje, há máquinas com capacidade para embrulhar 1000 rebuçados por minuto Rui Gaudêncio

Mas, se recuarmos uns anos, seria difícil imaginar Daniel a assumir parte do negócio da família. Apesar de ter sido criado no meio dos rebuçados, era a música que lhe enchia as medidas. Teve bandas, tocava instrumentos. Tirou um curso de técnico de som na Restart - Instituto de Criatividade, Artes e Novas Tecnologias. Chegou mesmo a ter um estúdio com amigos onde fazia gravações de bandas. Até que, em 2011, decide partir para Berlim com a mulher (na altura namorada), Cláudia. Um dia cruzou-se com o vídeo, no outro já estava a trabalhar como freelancer, a gravar e a editar filmes.

Entretanto, Benjamim, o filho do casal, nasceu. O regresso a Portugal começou a ser ponderado. Foi “juntar um mais um”: aliar a experiência de quatro anos em Berlim e aplicá-la na comunicação da Bayard que “ainda não estava muito desenvolvida”.

Acabaram por regressar, em 2015, à mesma casa onde Daniel tinha crescido, na Amadora, envolta no cheiro a mel misturado com mentol que sai da fábrica que fica no andar de baixo. E que hoje serve, muitas vezes, de pano de fundo das muitas fotografias que partilha nas redes sociais da Bayard.

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A produção destina-se maioritariamente ao mercado nacional Rui Gaudêncio

Rejuvenescer a marca

“A nossa marca tem um público ainda com bastante mais idade. Se as pessoas não passarem para os filhos, há uma quebra grande na marca”, nota Daniel. O objectivo, diz o director de comunicação, foi sempre trabalhar a faixa etária dos 25 aos 35, “com uma linguagem visual que as pessoas não associam muito à Bayard, para trazer pessoas diferentes à marca”.

É que pouco mudou — e ainda bem, salienta Daniel — ao longo dos quase 70 anos da marca dos rebuçados peitorais. “Apesar de nós acharmos que não temos concorrência directa, todas as marcas têm uma presença muito forte no digital. E acho que estávamos a ficar um bocado para trás.”

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Por isso, desenvolveu um site com uma loja online, começou a pôr a marca a borbulhar nas redes sociais, partilhando fotografias, vídeos e conteúdos sobre os bastidores do negócio. Os rebuçados vão dividindo o protagonismo com os gatos e com os brinquedos de Benjamim, hoje com três anos. "Compramos muitos brinquedos com a desculpa de que é para o nosso filho, mas também é para nós", admite Daniel, confessando que muitas das ideias surgem de um trabalho de equipa com Cláudia. 

Os destinos da Dr. Bayard estão ainda sob a responsabilidade do pai, José António, mas os dois filhos estão sempre por perto. “Acho que [o pai] ficou muito contente quando viu que eu estava interessado em trabalhar na fábrica e dar continuidade ao negócio. E não só na parte da comunicação, mas em todo o processo. Como é uma pessoa mais velha não está muito ligada às redes sociais, mas começa a ter algum feedback das pessoas na rua”, refere.

Ponto de rebuçado

A história, já se sabe, junta um médico francês, o Dr. Bayard, refugiado da Segunda Guerra Mundial, e um português de Almeida, na Guarda, que tinha ido trabalhar para Lisboa, para uma mercearia. Havia de estar aí, nessa amizade, cultivada ao balcão da mercearia, onde Álvaro Matias conseguia arranjar à família francesa comida extra numa altura em que tudo era racionado, e pelas ruas da capital, por onde o jovem merceeiro os orientava qual guia turístico, a razão para a receita dos rebuçados peitorais ter ido parar às mãos do português.

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“A guerra acabou e, quando o Dr. Bayard voltou para França, tinha perdido quase todas as posses. E, para agradecer ao avô, a única coisa de valor que tinha era uma latinha com uma fórmula de uns rebuçados que ele dizia que fazia lá em França”, conta Daniel.

A fórmula permaneceu uns anos dentro da caixa, até que o avô resgatou a receita e começou a fazer vários testes, em casa, ao lume, numa panela e com uma colher de pau, para chegar ao ponto do rebuçado. Num cesto de verga, vendia-os primeiro nos cinemas. Até que, a certa altura, dada a procura, foi mesmo preciso começar a fazer “uma linha de montagem” com a mulher e com os filhos, um deles José António, que embrulhavam os rebuçados à mão.

Por comparação com esse processo artesanal, hoje há máquinas com capacidade para embrulhar 1000 rebuçados por minuto. Por dia, na Dr. Bayard, a produção pode chegar às quatro toneladas de massa doce, suficientes para fazer cerca de 800 mil rebuçados. Num ano, detalhou Daniel, são gastas 125 toneladas de glucose, 40 toneladas de mel e 600 toneladas de açúcar. Hoje, a fábrica emprega 16 pessoas. À frente da produção estão só mulheres, enquanto a administração está reservada aos homens da família Matias. “Já era assim no tempo do meu avô”, sublinha Daniel.

É a “consistência” da Bayard, acredita Daniel, que tem permitido à marca manter-se todos estes anos, longe das corridas pela inovação e pela internacionalização. “É uma coisa tão bem feita que se fôssemos mexer estragávamos”, diz o herdeiro dos rebuçados.

Com a criação da loja online, Daniel quis levar um pouco de Portugal ao mundo e aos portugueses que estão longe. Chegaram já a alguns países da União Europeia. “Mas são números muito insignificantes quando comparados com o volume de vendas no mercado nacional”, nota, que absorve totalmente a produção da fábrica, facturando, por ano, cerca de 2,5 milhões de euros.

Se a sucessão da Dr. Bayard está já assegurada para a próxima geração, a esperança de Daniel é que Benjamim, e a filha que nascerá em Março, também lhe possam suceder. "O meu trabalho aqui é passá-lo para a geração seguinte". Não fosse o lema da marca, "a tradição que se renova geração após geração".