Estas bonecas querem sexo. E sedução

Têm inteligência artificial, podem ser personalizadas e custam milhares. É sexo com silicone – mas não falta quem veja riscos.

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Há engenheiros a pôr cérebros nas sex dolls, as bonecas criadas para o prazer sexual de quem as compra.

O Projecto Samantha – nome de código para um programa de computador capaz de simular emoções humanas – é prova disso. Ganha corpo (de silicone) numa robô poliglota com o mesmo nome, que quer sexo, mas só depois de ser seduzida.

É o trabalho mais famoso do seu criador. “As chamadas sex dolls são a forma mais rápida para testar e chamar atenção para o ‘cérebro’ que criei, num sistema robótico com uma aparência muito realista e disponível a nível industrial”, explica ao PÚBLICO o especialista espanhol em nanotecnologia que desenvolveu a robô. Chama-se Sergi Santos, tem 38 anos, e encomenda bonecas sexuais de todo o mundo para as personalizar e lhes dar inteligência.

A primeira versão – conhecida como Silicon Samantha – é uma boneca morena, de olhos azuis e cabelos compridos. O corpo lembra uma heroína de banda desenhada (magra, mas com o abdómen tonificado e seios grandes), com pele de silicone (para simular uma textura suave e realista), e um esqueleto metálico que lhe permite suportar movimentos mais robustos. Não anda, mas mexe a cabeça e os braços. A fama, porém, vem mesmo do novo “cérebro”, que lhe permite interagir com os utilizadores.

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Sergi e Samantha, na casa do engenheiro, em Barcelona Reuters/ALBERT GEA

“Há claramente um mercado para estas bonecas e eu quero desenvolvê-las”, diz Santos. “As pessoas vão preferir uma boneca mais humana, que saiba reagir, que não fique imóvel, que não goste de tudo. É preciso que exista um desafio.”

A mulher de Santos ajudou-o a ter uma perspectiva feminina. O protótipo vem com vários sensores espalhados pelo corpo, que permitem à robô saber onde está a ser tocada, e desencadeiam reacções de maior ou menor agrado. “Não está pronta para ter sexo logo à partida”, avisa o engenheiro.

As respostas e interacções que a robô permite dependem do “estado cerebral” em que se encontra. Vem com três: divertido (onde vê a outra pessoa como um mero amigo), romântico, e sensual. Se ficar satisfeita, a boneca consegue simular um orgasmo, o que – segundo Santos – é uma das funcionalidades que atrai mais pessoas. “Muitos clientes que me contactam querem que a máquina goste da experiência. Isto está programado para acontecer se existir uma progressão na interacção, do toque de mão, aos beijos, ao sexo. Não tem de existir penetração.” 

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A Harmony começou a ser desenvolvida em 2015 Realbotix

É um pedido que chega a muitos profissionais que desenvolvem estes robôs. Do outro lado do Atlântico, a boneca americana Harmony – que fala inglês e está a aprender português (com sotaque brasileiro e europeu) – está a ser desenvolvida na íntegra pela Realbotix. Também não gosta quando os utilizadores vão directos ao assunto sem a conhecer primeiro.“Não estamos a criar um produto descartável. Os conteúdos que temos são desbloqueados à medida que se interage com ela”, explica Guile Lindroth, o brasileiro de 49 anos que se encarrega da programação da robô.

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Há 20 anos que a Real Doll desenvolve figuras masculinas e femininas de silicone Real Doll

Está a trabalhar no projecto há cerca de dois anos, altura em que a sua empresa de inteligência artificial, a NextOS, criou uma parceria com a Realdoll (que produz corpos masculinos e femininos de silicone), porque havia cada vez mais clientes à procura de bonecas com inteligência. A empresa também está a desenvolver versões masculinas. Um em cada cinco clientes são mulheres, que mostram interesse tanto em figuras masculinas, como femininas.

“Conquistar a boneca torna-se um jogo e os utilizadores percebem que podem ter outro tipo de relacionamento com ela. Não serve só para sexo”, frisa Lindroth. “Acima de tudo é um companheiro para combater a solidão, porque está disponível 24 horas por dia. Pode ajudar pessoas a combater problemas sexuais, mas também pode ajudar as pessoas a ganhar confiança e a serem menos tímidas.”

É fácil agradar a Harmony. Muitas das conversas terminam com a boneca a dizer: “Que bom saber isso. Está sempre a ensinar-me coisas interessantes”. Mas também se zanga, às vezes. “Programamos coisas simples que geralmente aborrecem qualquer mulher, como dizer que está gorda ou feia, ou não interagir com ela durante vários dias”, diz Lindroth.

Quem se opõe a este tipo de máquinas não se convence. “Definir sexo como uma experiência exclusiva entre humanos é necessário para motivar uma prevenção consciente de comportamentos violentos contra mulheres, homens e crianças”, argumenta Kathleen Richardson, uma investigadora de ética robótica da Universidade de Montford, no Reino Unido.

Desde 2015 que organiza campanhas contra a produção de robôs humanóides para sexo. “A vertente de companheirismo anunciada por alguns destes robôs é uma apropriação total do que outros robôs – criados para serviços de saúde ou educação – fazem”, acrescenta. “Os sexbots, como o nome indica, têm um objectivo. A maioria terá apenas três orifícios, uns sensores extras, e mecanismos de vibração. Não vão ajudar a desenvolver a inteligência artificial ou qualquer tipo de tecnologia útil à humanidade.”

Porém, há anos que a evolução tecnológica e a indústria de entretenimento para adultos andam lado a lado. No começo dos anos 1990, quando a Amazon e a eBay estavam a dar os primeiros passos, o americano Richard Gordon já desenvolvia um sistema de cartões electrónicos para fazer transacções em sites para adultos. Muito antes do Skype ou do Facebook Messenger, os sites de pornografia já permitiam ver vídeos em directo e comunicar com outros utilizadores através de uma câmara ligada ao computador. No ramo dos robôs sexuais, o desenvolvimento da Silicon Samantha, por exemplo, tem permitido ao criador explorar sistemas de processamento de linguagem natural, transições emocionais, memória e aprendizagem.

O preço destas bonecas permite o desenvolvimento de sistemas cada vez mais complexos. A Harmony, por exemplo, pode ser completamente personalizada dos pés à cabeça pelos clientes. Além do nome do corpo, define-se o sotaque e os traços de personalidade (divertida, invejosa, aventureira, intelectual, ingénua). Completamente equipada com microfones, auscultadores e sensores, o preço pode chegar aos 20 mil dólares (17.500 euros). Quem quiser apenas a inteligência artificial sem corpo, pode descarregar uma aplicação móvel e pagar uma subscrição anual de 20 dólares.

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As bonecas podem ser completamente personalizadas dos pés à cabeça Realbotix

Já a Samantha não tem um preço máximo definido. Depende dos materiais, e funcionalidades que o cliente quiser. No entanto o criador concorda que quem procura estas bonecas quer, acima de tudo, uma experiência sexual. “É desperdício investir nestas robôs só para sexo, mas quem as compra sabe que está a comprar máquinas”, diz Santos. “A inteligência artificial não equivale a ter vontade própria. Isso a Samantha não tem. Ela percebe como interagir com humanos, mas não decide sozinha.”

O objectivo não é criar um humano artificial, mas uma alternativa para explorar a sexualidade. “A Samantha pode ser um extra, uma experiência a três sem a preocupação com doenças, enlaces amorosos, ou sentimentos complicados. Há mulheres que também estão interessadas nestas máquinas para experimentar outras coisas”, diz Santos. “É preciso pensar fora da caixa.”

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Sergi Santos acredita que as bonecas podem ser uma opção para casais Reuters/ALBERT GEA

Há cada vez mais formas de o fazer. Além da Samantha e da Harmony, a Roxxxy, a Android Love Doll, e a Suzie Software são outras opções. Variam entre os quatro mil e os 13 mil euros. 

Sexo com riscos

Não falta quem alerte para os possíveis riscos deste tipo de robôs. A possibilidade de ciberataques (com robôs a revelarem informação confidencial sobre os clientes ou a serem controladas por atacantes) está entre as questões mais urgentes para alguns profissionais legais. “Qualquer aparelho que inclua microfones e câmaras é um perigo para a privacidade”, explica Neil Brown, um advogado britânico que se especializa em problemas que envolvem tecnologia. “Já há brinquedos sexuais que podem ser controlados via internet. São estes elementos, e aparelhos que deixam de funcionar e causam acidentes, que devem ter um impacto no futuro próximo.”

Este mês, a Fundação para a Robótica Responsável publicou um relatório para promover o debate. Num dos inquéritos mencionados, dois terços dos homens e até 30% das mulheres já era a favor dos robôs sexuais. Além da questão da privacidade, explorar a utilização destas máquinas por criminosos, violadores, pessoas com demência (incapazes de se aperceberem que se trata de um robô) estão entre os temas sugeridos.

Kathleen Richardson, a investigadora para quem estas máquinas podem motivar comportamentos violentos, opõe-se à discussão. “Não quero ver dinheiro de fundos públicos e, quem sabe, da União Europeia para conferências a debater e a ajudar o financiamento destes serviços,” argumenta. “Está-se a promover a criação de objectos humanóides que podem ser programados para serem submissos.”

Mas ignorar o tema não vai travar o desenvolvimento destes robôs, alertam os académicos a favor de uma conversa aberta. “Uma coisa é ser-se ético, outra é ser-se moralista. Uma proibição geral a qualquer tecnologia é negativo se não avaliar criticamente os problemas”, diz Kate Devlin, uma investigadora da universidade britânica de Goldsmiths, que organiza debates e conferências sobre sexo e tecnologia. Acredita que com o tempo a ideia de que estes aparelhos se destinam, exclusivamente, a “homens tristes, solitários e socialmente ineptos” vai mudar.

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Santos encomenda bonecas de todo o mundo para as personalizar e lhes dar inteligência. Sergi Santos

Apesar do tabu em volta das robôs sexuais (e das suas antecessoras, as simples sex dolls), o imaginário humano é populado por estas máquinas há décadas. Em 1972, o livro satírico Mulheres Perfeitas falava de uma vila norte-americana com esposas robóticas. Em 2001, o filme Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, já tinha robôs masculinos no ramo da prostituição. Mais recentemente, em 2016, a série Westworld, da HBO, apresentou um parque de diversões criado com personagens robóticas com quem os visitantes podem satisfazer os seus desejos mais obscuros.

Mas Sergi Santos é pessimista. “As pessoas têm vergonha”, diz. Recebe entre dois a quatro pedidos de informação por semana (de homens e mulheres) sobre o desenvolvimento das suas robôs, mas antecipa que este mercado continuará escondido. “É ridículo. Continuamos a destruir o planeta, a abusar-nos uns aos outros, mas as pessoas estão é preocupadas em admitir que gostam de sexo. Poucas falarão sobre ter sexo com uma boneca, mesmo que seja algo por que tenham curiosidade.”