As gaivotas são as únicas felizes com o lixo depois da feira da Senhora da Hora

O presidente da Associação de Feirantes do Porto diz não ser um fenómeno exclusivo desta localidade. A autarquia de Matosinhos reconhece o problema e afirma estar empenhada em resolvê-lo.

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O lixo é tanto que há alturas em que, conta uma moradora, “chega mesmo a entrar pela casa adentro” Nelson Garrido

Lixo nos jardins, na linha do metro e espalhado nas ruas num raio de cerca de 500 metros em torno do recinto da feira da Senhora da Hora, em Matosinhos, uma das maiores a servir a área do Grande Porto. É este o cenário todos os sábados após serem desmontadas as bancas da feira, por volta da hora do almoço, e assim fica até ao final da tarde quando terminam os trabalhos de limpeza. Não é um fenómeno exclusivo desta localidade, diz a Associação de Feirantes do Distrito do Porto, Douro e Minho (AFDP), que admite o problema ao qual diz estar atenta. A autarquia local reconhece o mesmo e diz estar empenhada em resolvê-lo. 

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Lixo nos jardins, na linha do metro e espalhado nas ruas num raio de cerca de 500 metros em torno do recinto da feira da Senhora da Hora, em Matosinhos, uma das maiores a servir a área do Grande Porto. É este o cenário todos os sábados após serem desmontadas as bancas da feira, por volta da hora do almoço, e assim fica até ao final da tarde quando terminam os trabalhos de limpeza. Não é um fenómeno exclusivo desta localidade, diz a Associação de Feirantes do Distrito do Porto, Douro e Minho (AFDP), que admite o problema ao qual diz estar atenta. A autarquia local reconhece o mesmo e diz estar empenhada em resolvê-lo. 

Ao início da tarde, cerca das 14h, quando a maior parte das bancas da feira da Senhora da Hora já estão desmontadas, sobram no recinto montes de plástico e cartão distribuídos por toda a área do mercado ao ar livre. Na zona onde ficam as bancas das peixarias há restos de tripas e cabeças de peixe que sobraram e ficaram para trás dentro de caixas de esferovite. Aproveitam as gaivotas que se acumulam em grande número naquela zona para uma refeição fora da praia que está à distância de cerca de quatro quilómetros. A remexer o cartão e o plástico há um pequeno grupo de pessoas que procura encontrar algo mais além do lixo.

Há ainda meia dúzia de bancas que não estão desmontadas e servem de barreira para o plástico que de outra forma voaria para a rua. Há lixo na feira, mas a outra parte do problema tem origem, precisamente, nesse lixo que vai parar à rua e é causa do desagrado de alguns munícipes. Parte dele já passou os limites da feira e está espalhado, sobretudo pela Avenida Calouste Gulbenkian, onde se acumula na linha do metro junta à estação do Estádio do Mar. “Isto hoje nem está muito mau. Em dias de vento mais forte é bem pior”, diz-nos uma senhora que espera pelo metro.  

Na Rua Nova do Estádio, até à parte de baixo do viaduto que dá acesso às traseiras do recinto desportivo onde joga o Leixões, o cenário não é muito diferente. Nessa distância, há uma fila de plástico que separa o passeio da rua.

Ainda na Avenida Calouste Gulbenkian, na parte que fica depois da rotunda e serve de acesso ao hipermercado Continente, também há vestígios da feira, embora, não tantos como noutros dias.  Como o PÚBLICO pôde constatar, há sábados em que o lixo chega ao parque de estacionamento do hipermercado que fica a cerca de 800 metros.

No lado oposto, na Rua Parque Dr. João Gomes Laranjo, mesmo frente à entrada principal da feira, há lixo nos passeios e no centro de uma passagem para peões está uma caixa de cartão com restos de fruta.       

Horas antes, a meio da manhã, quando o movimento da feira está no pico mais alto, os contentores do lixo instalados na feira não guardam lixo suficiente para preencherem metade da capacidade. De acordo com o que pudemos observar, existem cerca de cinco para aproximadamente 400 feirantes (dados da AFDP) com banca montada. Os contentores estão todos na área central do recinto no seguimento da entrada principal.

Para alguns feirantes com quem falamos os contentores deveriam estar espalhados por todo o recinto e não concentrados todos no mesmo ponto para facilitar o trabalho de quem durante a manhã está “mais preocupado com as vendas da banca do que com o lixo”.  Esta solução acabaria com o lixo? No geral, acreditam que não. Parte da solução acreditam passar pela criação de novos hábitos que promovam o “civismo e o bom senso”.

O presidente da AFDP, Joaquim Santos, diz estar familiarizado com o problema do lixo que é acumulado no recinto da feira da Senhora da Hora, que se espalha pelas ruas das imediações, e com as queixas de insatisfação de alguns munícipes, que já chegaram à associação que preside há oito anos. Não é um fenómeno exclusivo da Senhora da Hora, diz. “Infelizmente”, o lixo que se acumula nos recintos das feiras, após desmontadas, afirma ser um problema que também afecta outras. Já o lixo que se espalha pelas imediações diz ser mais comum nas que estão situadas em zonas próximas do mar, como acontece igualmente em Espinho e em Viana do Castelo. 

A feira da Senhora da Hora conhece-a bem. É feirante desde que nasceu, há 50 anos, altura em que os pais, também feirantes, já o levavam para as feiras. Já teve banca na Senhora da Hora, onde “principalmente a partir de meio da manhã” o vento se levanta e faz com que o lixo se espalhe.

Para que esta questão seja resolvida acredita ser necessário actuar em duas vertentes: “sensibilização cívica e fiscalização”. Isto para que “uma maioria” que deixa o espaço que ocupa “limpo como o encontrou”, como ditam os regulamentos, não seja prejudicada. E para isso diz ser necessária a intervenção da autarquia, no caso especial da feira da Senhora da Hora, recorrendo a acções de sensibilização “que não passem pela simples distribuição de um folheto” e fiscalizando, aplicando multas a quem não cumpra com os regulamentos. Em casos de incumprimento, nesta matéria, de acordo com o dirigente da associação, as coimas podem variar entre 50 a 250 euros.

A autarquia tem que ser intransigente na questão das coimas, é a opinião de Joaquim Santos. “Estamos em pleno século XXI. Dentro ou fora do recinto das feiras não se pode admitir este tipo de comportamentos”, sobretudo, diz, porque “fica toda uma classe com a reputação manchada quando é uma minoria que prevarica”, finaliza.

O vereador do Ambiente de Matosinhos, Tiago Maia, em resposta enviada por correio electrónico, admite existirem “situações pontuais de descoordenação entre os diferentes serviços com responsabilidade na matéria”.  Adianta que a autarquia pretende “proceder à requalificação e reorganização de todo o recinto da feira”, no sentido de tornar “mais eficiente a gestão dos resíduos produzidos”.  Segundo o vereador, espera-se ainda que ..."parte dos problemas que agora se verificam possam vir a ser resolvidos com a entrada em vigor, ainda este ano, de um novo contrato de concessão de recolha e transporte de resíduos urbanos no concelho", agora da responsabilidade da SUMA e da Verde Vista - esta última responsável pela limpeza da feira.

No recinto, após a feira terminar, há uma equipa de limpeza composta por sete elementos que remove o lixo. Nas ruas há outro funcionário que trata de apanhar o que está espalhado. Ao final da tarde, já não se vê lixo na rua. Contudo, de acordo com o que conseguimos apurar, por vezes a recolha do lixo termina já depois das 21h. O lixo já não se vê nas ruas, mas há alturas em que, conta uma moradora das imediações, “chega mesmo a entrar pela casa adentro”, como diz já ter acontecido.