Marcelo sobre Dijsselbloem: os países da Europa são "diferentes" mas "unidos"

Presidente reagiu outra vez ao líder do Eurogrupo. "Precisamos é de declarações que sublinhem a nossa união".

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Marcelo Rebelo de Sousa e Antonio Tajani deram uma conferência de imprensa em conjunto LUSA/OLIVIER HOSLET

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou na tarde desta quarta-feira, no Parlamento Europeu, em Bruxelas, que os comentários do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, são “divisionistas” e é uma atitude que “não faz sentido”, segundo a Lusa. Marcelo também se referiu ao timing dos mesmos.

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O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou na tarde desta quarta-feira, no Parlamento Europeu, em Bruxelas, que os comentários do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, são “divisionistas” e é uma atitude que “não faz sentido”, segundo a Lusa. Marcelo também se referiu ao timing dos mesmos.

“Não há Europa do Sul, do Leste, do Oeste e do Norte. Nós somos diferentes mas somos unidos. Neste momento precisamos é de declarações que sublinhem a nossa união, não as nossas divisões”, declarou em conferência de imprensa. Depois, reunido com os eurodeputados portugueses, Marcelo afirmou que os comentários de Dijsselbloem “não contribuem para a solidariedade entre as pessoas e as sociedades”.

Quem se encontrava ao lado de Marcelo na conferência de imprensa era o presidente da assembleia, Antonio Tajani, que afirmou que as palavras de Jeroen Dijsselbloem foram “inaceitáveis”. “Ninguém tem o direito de ofender qualquer nação ou povo com comentários racistas ou sexistas, os comentários do presidente do Eurogrupo são inaceitáveis”, afirmou no dia em que marca um ano desde os atentados em Bruxelas, a 22 de Março de 2016.

Durante a manhã, o chefe de Estado já se tinha referido às declarações de Dijsselbloem, subscrevendo o pedido do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, para afastar do cargo o ainda ministro das Finanças holandês.

“Eu sobre isso neste momento, em que há valores tão mais importantes do que isso, o que eu poderei dizer é que já foi tudo dito pelo senhor ministro dos Negócios Estrangeiros. E quando ele falou, falou em nome do Estado português. Portanto, como Presidente da República portuguesa, eu não posso senão subscrever o que ele disse”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa.

Declarações “absolutamente inaceitáveis"

No fim-de-semana, o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung publicou uma entrevista com o líder do Eurogrupo. Quando questionado sobre por que é que acha que as regras orçamentais devem ser cumpridas, responsabilidade da Comissão Europeia, como disse o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, Dijsselbloem deu duas razões: a União Europeia (UE) deve mostrar que consegue aplicar com consistência o Pacto de Estabilidade e Crescimento, e aumentar a confiança dos países no interior da UE.

“Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebida e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”, disse o líder do Eurogrupo.

Augusto Santos Silva considerou esta terça-feira as palavras de Dijsselbloem “infelizes e, do ponto de vista português, absolutamente inaceitáveis".

"Pelos vistos, o presidente do Eurogrupo continua, passados estes anos todos, sem compreender o que verdadeiramente se passou. O que se passou com países como Portugal, Espanha ou Irlanda não foi termos gasto dinheiro a mais. O que aconteceu foi que nós, como outros países vulneráveis, sofremos os efeitos negativos da maior crise mundial desde os tempos da grande depressão e as consequências da Europa e a sua união económica e monetária não estarem suficientemente habilitadas com os instrumentos que nos permitissem responder a todos aos choques que enfrentámos", argumentou Santos Silva.

Jeroen Dijsselbloem foi confrontado, terça-feira, no Parlamento Europeu, pelo eurodeputado espanhol espanhol Ernest Urtasun acerca dos seus comentários. “Não se ofendam, isto não é sobre um país, é sobre todos os nossos países. A Holanda também falhou no cumprimento do que foi acordado", disse Dijsselbloem, que na altura ainda se recusou a pedir desculpa – algo que acabaria no entanto por fazer.

O líder dos socialistas no Parlamento Europeu, Gianni Pittella, também criticou os comentários do líder do Eurogrupo. “Agora, com as suas palavras lamentáveis e chocantes, foi ainda mais longe usando argumentos discriminatórios contra os países do Sul da Europa. Não há razão para alguém que se diz progressista usar estas palavras”, disse Pitella que interrogou como é que “uma pessoa que usa estes argumentos pode ser considerada adequada para presidir ao Eurogrupo”.

Depois das críticas de que foi alvo, Dijsselbloem afirmou esta quarta-feira que não tem intenções de se demitir do seu cargo de líder do Eurogrupo, lamentando o mal-entendido: “Eu lamento que alguém se tenha sentido ofendido pelo comentário. Fui directo, e pode ser explicado pela rigorosa cultura holandesa, calvinista, pela franqueza holandesa”.

“Ao mesmo tempo, eu penso que sou apreciado por manter o meu próprio estilo e que, com certa rigidez, me dirijo a todos os ministros, e por vezes tenho de ser rigoroso. E sim, o meu estilo é directo e, novamente, se alguém se as pessoas se ofenderam, eu lamento muito como é óbvio”, continuou Dijsselbloem.