O instrutor dos comandos avisou-nos: “Vou tornar-me um animal”

Um comando é preparado para ir para a guerra. A dos outros. Ou a de si próprio. “Chega uma altura em que desmaiar, vomitar ou entrar em hipotermia é banal. O sofrimento torna-nos pessoas mais conscientes.” Relato na primeira pessoa de um comando que concluiu o curso há nove anos.

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Os comandos, na Carregueira, são uma das três forças especiais do Exército Luís Ramos/Arquivo

Fiz o curso de Comandos na Carregueira e não me arrependo. Não houve um dia em que não tenha pensado em desistir. Não há ninguém que não pense nisso. Ninguém está preparado. E há sempre um momento de fraqueza, de sofrimento. Damos força uns aos outros e essa é uma das principais aprendizagens.

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Fiz o curso de Comandos na Carregueira e não me arrependo. Não houve um dia em que não tenha pensado em desistir. Não há ninguém que não pense nisso. Ninguém está preparado. E há sempre um momento de fraqueza, de sofrimento. Damos força uns aos outros e essa é uma das principais aprendizagens.

Cada grupo de 80 ou 100 instruendos tem como instrutores um oficial e um sargento, ou um oficial e dois sargentos. Estes respondem ao comandante de companhia, que é um capitão. Depois, o grupo é dividido. O capitão que era meu comandante de companhia tinha elevados valores morais e um grande sentido da responsabilidade.

Logo no início, um dos nossos instrutores chegou ao pé de nós estávamos no interior da caserna e disse: “A pessoa que vocês estão a ver aqui não é a mesma pessoa que vão ver no curso. Eu vou tornar-me um animal.” Existiu sinceridade. Aquilo que ele nos tentou transmitir com aquela conversa foi: “A partir daqui, estão por vossa conta.” E depois:  “Sabem realmente no que se vão meter?” Não sabemos.

Num dos castigos, tive de rastejar na gravilha ao longo de 200 metros. Foi psicologicamente devastador. Enquanto eu rastejava, tinha um dos instrutores permanentemente a dizer-me: "Estás a ver? Deixarem-te para trás." Ele queria dizer-me que os meus colegas de equipa não se tinham lembrado de mim, e por isso eu tinha chegado atrasado. Não era verdade. Chorei não pelo castigo físico que me deixou os joelhos e cotovelos em sangue e a farda num farrapo. Chorei por estarem a incutir-me essa desconfiança. A verdade é que, quando um de nós não está, toda a equipa sofre. E eu não estava. Fui castigado.

Nesse processo, o que se procura estimular é o companheirismo e o espírito de sacrifício, também pelo outro. Na guerra, por causa de um elo mais fraco, os outros podem literalmente morrer. Os que estão ali connosco devem ser capazes de dar a vida por nós.

Só os melhores dos cursos podem ser instrutores. Mas existem instrutores bons e instrutores maus. Se são más pessoas, continuam a ser más pessoas quando chegam a instrutor. No curso de Comandos, há coisas que nos são exigidas que são desnecessárias, porque há alguns homens com instintos animalescos.

"Todos são selvagens no curso"

Vão para ali a pensar que são os maiores do mundo. São brutos, e todos são selvagens no curso. Mas não quer dizer que todos o sejam cá fora. Com um desses instrutores, só 16 das dezenas de instruendos que estavam no início concluíram o curso. No meu curso, fomos 20 e tal a terminar.

A grande maioria desiste. Mas acontece menos com aqueles que já são militares. Quem não é militar não sabe. Eu não era militar. Queria fazer Enfermagem na tropa. Depois pensei: se eu vou para a tropa, vou para uma coisa onde vai existir um teste aos meus próprios limites, físicos e psicológicos.

Numa noite muito fria, fazíamos ginástica em tronco nu e três caíram para o lado. Num outro curso, esqueceram-se de um instruendo, dentro de um charco no qual tinha sido obrigado a ficar deitado, por castigo. Voltaram para o ir buscar. Ele já estava em hipotermia.

Às vezes não há sentido de responsabilidade. Houve instruendos que partiram as duas pernas por caírem na prova da corda rápida, em que é preciso descer por uma corda de uma altura equivalente a um quarto andar. Não há nada que nos separe do chão. Nos Comandos, só se pode usar os braços, e não se podem cruzar as pernas, durante a descida.

Um colega meu estava agarrado à corda lá em cima, não descia. De forma completamente irresponsável, e para o punir, cá em baixo, o instrutor começou a sacudir a corda. O meu colega só não caiu por acaso.

No campo, não se pára, nem quem fica doente. Nem pensar. Uma gripe, uma intoxicação alimentar, nada conta. E quem pensa que não vai aguentar tem de aguentar. A quem magoa um pé é-lhe dito: “Tens dois pés, corre com o outro.” Só uma coisa completamente incapacitante é que permite a um instruendo parar uma prova. Chega uma altura em que vemos as coisas com naturalidade. Desmaiar, vomitar, entrar em hipotermia torna-se banal. Existe uma grande pressão. Somos miúdos. Temos 20 e poucos anos.

Os testes de admissão deviam ser mais difíceis, e os exames médicos mais rigorosos. Um colega que tinha tido uma hepatite e o que tinha medo das alturas não deviam estar ali. E estavam, a fazer tudo igual aos outros.

As pessoas não sabem parar. Quando digo as pessoas, falo dos instrutores. Há instrutores que não sabem parar. A grande maioria dos exercícios é necessária. Mas se podemos fazer as coisas com segurança, era assim que devia ser. E nem sempre isso acontece.

A insegurança não é só durante as provas. Há muita gente que vem do Norte do país fazer a instrução na Carregueira. Houve dois acidentes de automóvel com colegas do meu curso. Acidentes graves. Saíram da instrução exaustos e quiseram chegar o mais depressa possível a casa. Um ficou paraplégico. O outro desistiu.

"Não sabemos ao que vamos"

Chegamos a casa com as fardas completamente rotas e desfeitas, com cascalho dentro dos bolsos, com arranhões e feridas pelo corpo todo. A minha mãe dizia: “Pareces um Cristo.” E não temos muito tempo. Ir a casa não é o mesmo que descansar. Acontecia de 11 em 11 dias, aproximadamente. Ficava dois dias, mas continuava em permanente estado de alerta. O corpo está habituado a dormir quatro horas e nunca sabemos o que pode acontecer.

Somos voluntários. Mas desistir nem sempre é fácil. O custo para o Estado da formação é muito alto, e por isso não era óbvio desistir a meio de uma fase. Muitos comandantes de companhia, como o meu, só permitem a desistência no fim de uma determinada fase, que dura cerca de um mês. É uma forma de punição – ficar até estar concluída essa fase.

As notas dos testes físicos e psicotécnicos são superiores às da tropa convencional. Mesmo assim, as provas de admissão deviam ser mais difíceis, para haver uma maior selecção à partida. E devia haver mais informação. O curso teria menos gente, mas gente mais capaz.

Existem vídeos a promover a ida para os comandos. Campanhas à porta dos centros comerciais. Eu próprio fiz divulgação. É posto de uma maneira muito heróica. Também mostra a dureza de alguns exercícios. Não é só propaganda, mas a informação é posta de uma maneira patriótica.

Quando vamos aos primeiros testes no Centro de Comandos da Carregueira, perguntam-nos: "Gostas de desportos radicais? Gostas de andar de helicóptero? Gostas de armas?"

Isso não é suficiente. Não sabemos ao que vamos. E devíamos saber. Existe uma determinada estrutura dos cursos: a fase individual, a fase de equipa e de grupo. A primeira fase é aquela em que não é tão importante a instrução, mas ver quem realmente tem aptidões. Num grupo de 100, são eliminadas muitas pessoas.

O curso é uma valorização. Mas o facto de se ser comando não quer dizer que se é melhor do que os outros. É bom para um determinado objectivo: o de ir para a guerra, para a frente de combate. Eu não fui, porque, para mim, o curso foi uma experiência de vida.

Quando recebemos a boina, existe um orgulho tão grande, que ninguém se lembra. O pessoal esquece, fica contente, fica orgulhoso. Algo que foi traumatizante acaba por ficar escondido ao superarmos os nossos limites.

O que ficou para trás? Correr na gravilha, descalço; mil paus de chinelo (levantar os braços com o corpo hirto) e a seguir, já no limite das nossas forças, lançarmo-nos numa prova de corrida ou de resistência. Vinte quilómetros a correr com dez quilos às costas. Ou 12 quilómetros com 16 quilos. E depois dizerem-nos: "Isto não acaba aqui." Ou ficar indefinidamente de cócoras na "posição de elefante pensante", com o peso todo do corpo e da G3 em punho. Fazer flexões com os punhos na gravilha. Dezenas de flexões. Há quem diga que um comando nunca se deita por menos de 50.

Capacidade do corpo para desligar

Psicologicamente o curso é desgastante e violento. Houve duas pessoas eliminadas no último dia do curso. Fizeram tudo como os outros até ao último dia e não foram aceites por, supostamente, não terem o espírito de sacrifício necessário. Mais tarde, um deles voltou e foi comando. Os comandos, na Carregueira, são uma das três forças especiais do Exército, além das Operações Especiais Rangers, em Lamego, e dos pára-quedistas em Tancos.

Temos várias provas. A prova de tiro de combate é precedida de uma preparação que simula uma situação de combate. Corremos, rastejamos nas silvas, rolamos no chão, carregamos pesos. Num curso de três meses temos cerca de 20 tiros de combate com essa situação de combate simulado, em que fazemos o tiro ao alvo já depois de estarmos completamente desgastados pela prova.

Na Semana da Sobrevivência, tiram-nos tudo. Ficamos sem farda, nem mochila, nem recursos alimentares, durante quatro ou cinco dias. Temos de construir abrigos, fazer roupa com serapilheira; matar e cozinhar um animal que pode ser um coelho ou uma galinha. Cada grupo tem de fazer isso.

Há um momento em que sentimos que o nosso corpo tem capacidade de desligar, como se deixasse de sentir a dor. O sofrimento torna-nos pessoas mais conscientes.

Acabamos por nos conhecermos a nós mesmos por estarmos sempre a testar os nossos limites. Fico a saber quais as minhas limitações, as minhas dificuldades. Olho para mim de outra forma: será que sou amigo do meu amigo, existe egoísmo da minha parte, ou sou capaz de me sacrificar pelo outro? No fim do curso, um copo de água não tinha o mesmo valor para mim. Ou um colchão. Coisas básicas ganham um novo sentido.

A Semana Invertida é a semana em que se faz à noite o que normalmente se faz durante o dia, e vice-versa. Aquilo é um choque tão grande no corpo que acaba por nos desorientar completamente. Faz parte da acção psicológica, a mesma que nos faz dormir ao som alto de músicas montadas para repetir um determinado refrão ou frase, até à exaustão. Eu conseguia dormir em qualquer lado. Cheguei a dormir de pé, de tão cansado.

Existe uma sequência comum a todos os cursos. Mas à partida nunca sabemos quando vamos ser chamados para os exercícios. Pode ser a meio da noite, de madrugada. Pode ser quando estamos prestes para a ir a casa, e nos dizem que afinal não vamos, esse momento não chega e não sabemos quando chegará.